"Jornalismo esportivo passou a se encarar como entretenimento", diz PVC sobre a Globo

Após passar pelos principais jornais de São Paulo e por conceituados veículos especializados em esporte, o jornalista Paulo Vinícius Coelho,o PVC, voltou ao lugar em que tudo começou.

Atualizado em 03/10/2011 às 17:10, por Felipe Menezes*.

Em palestra realizada na Universidade Metodista de São Paulo, onde 'agarrou' seu diploma no início dos anos 90, o comentarista da ESPN Brasil e colunista de O Estado de S.Paulo discorreu sobre sua carreira e alguns assuntos polêmicos do mundo do jornalismo esportivo, como a relação com as fontes, o excesso de opiniões e o caráter de entretenimento adotado por alguns programas. Reprodução YouTube

Diferentemente da maioria dos profissionais, PVC não é um 'jogador frustrado', pois, sempre quis ser jornalista esportivo. Mas o acaso o ajudou a chegar onde sonhou. Em 1990, ele foi demitido do Diário do Grande ABC , onde era repórter, e então ingressou no Curso Abril de Jornalismo. Após o curso, foi contratado como estagiário na revista Ação , e, em seguida, passou a ser repórter da revista Placar .

Atualmente atuando como comentarista nos programas "Bate-Bola", "Linha de Passe", "Fora de Jogo" e "Loucos por Futebol", da emissora ESPN Brasil, PVC, que antes de ser colunista no Estadão escrevia para a Folha de S.Paulo , se diz muito feliz na profissão. "A minha experiência é de quem gosta muito do que faz", declara. Ele afirma que o jornalismo esportivo é "tão desejado" por estudantes e profissionais da área "porque hoje o esporte é a grande indústria do entretenimento. O esporte gera mais dinheiro, gera mais interesse".

O jornalista lembra que deve haver um limite entre brincadeira e informação. "Você vai fazer a brincadeira, mas se o cara não entender e levar como informação, você passou a mensagem errada. Pode ter em um programa de jornalismo um espaço para isso? Acho que pode. Mas se você passar a mensagem errada, quebrou a cara", avalia. Ele criticou o departamento de jornalismo da Globo, que "passou a se encarar como entretenimento".

Sobre a velocidade das notícias nessa nova era digital, o comentarista lembrou que é necessário apurar muito bem as informações. "Mais importante do que dar a informação mais rápido é dar a informação mais certa", observa. Ele acredita que essa velocidade não acabou com a ambição pelo furo jornalístico. PVC conta que no ano de 2007, em um intervalo de três dias, ele conseguiu ser o primeiro a dar sete notícias sobre transferências de técnicos e jogadores entre os clubes brasileiros. "Nunca mais vai acontecer", diz ele sobre o ocorrido.

O jornalista tem uma dura postura contra blogs, que se classificam como jornalísticos. "Muita gente pensa que fazer blog dando opinião é jornalismo, e na verdade não é", frisou. Ele também analisou a programação esportiva da TV, que muitas vezes ultrapassa o limite da informação e agrega um caráter opinativo às notícias. "Aparecer no vídeo e dar opinião não é jornalismo, é 'comentarismo'", disse.

PVC afirma que é "muito melhor repórter hoje do que era quando assinava reportagens no Lance! ou na Placar ". Ele atribui essa evolução ao relacionamento que tem com suas fontes. "Eu passo a mão no meu celular, ligo, o cara atende e fala 'oi PVC'. Ele reconhece meu número. Isso me dá a proximidade que eu não tinha", conta. Mas o jornalista lembra que é preciso ter cuidado nessa relação, porque ela "passa a ser uma linha muito tênue, no fio da navalha, e se você passar desse fio da navalha, o cara vira teu amigo".

Um exemplo de sua carreira ilustra muito bem essa relação. No último amistoso realizado entre as seleções do Brasil e Alemanha, no dia 10 de agosto desse ano, PVC enviou uma mensagem de celular para o técnico Mano Menezes, com dicas sobre a provável formação tática da seleção alemã. Mano respondeu e consentiu com as informações recebidas e então o jornalista decidiu não avançar. "Se eu começar a preservar demais (a fonte), ele vira meu amigo. Se eu não tiver o entendimento de que certas coisas ele está me falando para usar do jeito certo, eu perco a fonte", analisa.

Quando questionado sobre as frequentes críticas feitas ao presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), PVC foi enfático. "Não bato no Ricardo Teixeira o tempo inteiro porque não tenho informação para bater. Se você tem informação, enfia a faca sem dó", declarou.

PVC também falou sobre a polêmica da queda do diploma, mas se mostrou indiferente quanto a isso. Para ele, o problema é a qualidade da informação jornalística do país. "O mais importante de tudo, independentemente da obrigatoriedade ou não, é a qualidade da informação que vai chegar ao leitor, essa precisa melhorar", concluiu.

Paulo Vinicius Coelho, aos 42 anos, é reconhecido por sua memória infalível e por artigos que são considerados uma espécie de bíblia do futebol. Decorar escalações de centenas de equipes de diferentes anos e formações para muitos parece impossível, mas, para ele, ainda é como a brincadeira que o fez, quando garoto, sonhar em ser jornalista esportivo.

*Com supervisão de Gustavo Ferrari

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