“Jornalismo é ofício e não plataforma. Logo, sempre vai sobreviver”, analisa Nelson de Sá
Paulista do interior de São Paulo, o jornalista Nelson Sá tem perfil semelhante àquele que ele considera como uma de suas principais influências: Paulo Francis.
Atualizado em 27/08/2012 às 17:08, por
Luiz Gustavo Pacete.
Nelson de Sá Assim como Francis, além de correspondente, Nelson Sá foi crítico de teatro. Na Folha desde 1985, já foi redator, editor, secretário, repórter especial e assinou colunas relacionadas à mídia. Chegou inclusive a dirigir peças. Atualmente, é articulista do jornal e continua acompanhando mídia e tecnologia em sua coluna "Toda Mídia".
Escolhido por Otávio Frias Filho para organizar o livro com o melhor de Francis, o repórter fala à IMPRENSA sobre a responsabilidade e os critérios para selecionar as colunas do polêmico jornalista.
Sá também falou sobre os rumos do jornalismo e como o Brasil é noticiado na mídia estrangeira. Tema que ele trata periodicamente em sua coluna.
IMPRENSA – Como surgiu o projeto de reunir as colunas de Francis? Nelson Sá - A direção do jornal me chamou e, por conta da convivência que eu tive com o Francis em Nova York, me deixaram responsável por selecionar as colunas e editar. Li oito mil colunas. Um processo longo que começou há dois anos. O Otávio [Frias] me deu as instruções básicas de que as polêmicas do Francis deveriam estar representadas. Outra coisa muito importante e que ficou marcada em minha geração foi a mudança de posição do Francis. Era tão de esquerda e tornou-se de direita. Vim acompanhando cronologicamente para poder identificar esse momento.
Quem foi Paulo Francis? Ele é mais complexo do que costumamos ver por aí. Na parte final do livro e em suas últimas colunas ele vai se mostrando mais conservador e acho que muitos ficaram com essa imagem dele. Mas ele era mais do que isso. E eu tentei justamente isso, retratar um Francis mais complexo que não se resumia a um personagem.
Francis influenciou os jornalistas de sua geração? Toda minha geração foi influenciada por ele. O Francis adotava os jovens jornalistas. Chegava sábado ele nos levava até a livraria, indicava as obras que devíamos ler. Ele tinha essa coisa, esse caráter meio paternal. Para mim, ele já era uma referência, antes mesmo de eu trabalhar com ele.
Qual o principal legado de Francis? Eu não sei se ele chegou a deixar legado, mas deixou esse exemplo de jornalismo sem muita rigidez que eu não sei se é tão seguido assim. O texto dele não só era bem escrito, mas era interessante e tinha humor. Ele sempre dizia que quando morresse queria que escrevessem na sua lápide que ele não foi um chato. Do ponto de vista jornalístico, um de seus grandes legados foi desmitificar os Estados Unidos para os brasileiros. Até então, era uma cultura muito distante e inalcançável que ele conseguiu mudar.
Você que escreve sobre mídia, como vê as mudanças no jornalismo? Eu cubro mídia há algum tempo, também por influência do Francis. Assim como o teatro, por várias vezes falaram da morte do jornalismo tradicional. Muitos outros meios de expressão dramática vieram depois do teatro e não significou o fim. Mudanças tecnológicas não são necessariamente ruins para o jornalismo. Eu tenho a sensação de que o jornalismo é um ofício. Algo que vai sobreviver e não está preso a uma plataforma específica. Não vejo muitas mudanças, acho que hoje você tem uma atenção maior para entretenimento com superficialidade, mas já era assim na TV e no rádio. Não é algo tão novo.
Então o jornalismo não está em crise? Eu cubro bastante tecnologia e fala-se muito de disrupção na área do jornalismo impresso. Mudanças de modelo e outros questionamentos. Mas existem exemplos de que estão encontrando modelos e formatos. Existe uma projeção que mostra que o NYT com a cobrança de assinaturas digitais voltou a operar no azul em dois anos, apesar do ritmo de queda na publicidade. Por outro lado, não sei se é uma boa coisa fechar todo o conteúdo, tem o Time de Londres que fechou tanto seu conteúdo que hoje ninguém sabe o que sai no jornal.






