Jornalismo de combate, por Gabriel Priolli
A crise política brasileira tem propiciado cenas públicas inesquecíveis, de tão constrangedoras, e alguns micos monumentais de pessoas até e
ntão insuspeitas de tendência ao ridículo. No mundo oficial e nos salões elegantes, com grande recorrência, mas especialmente nas ruas, agora que o Facebook deu de levar seus memes para protestar a céu aberto, sobra gente fazendo ou dizendo bobagem. Mas ninguém conseguiu ir tão longe quanto um companheiro nosso, jornalista.
José Roberto Burnier é um velho colega da TV Globo, com quem tive o prazer de trabalhar e que não vejo há alguns anos. Eu o tenho como um profissional sério, aplicado e devotado exclusivamente à notícia, não a causas políticas. Não me lembro de qualquer militância dele.
Mas o comando da Central Globo de Jornalismo deve enxergar em Burnier também um grande guerreiro, um legítimo “seal” da informação, desses que miram e acertam bem na testa dos fatos. Tanto que vestiram nele um aparente colete à prova de balas e um capacete militar, para cobrir a marcha das centrais sindicais e movimentos sociais em São Paulo, em 13 de março. Assim fardado, Burnier foi visto no “Jornal Nacional” e posteriormente execrado nas redes sociais.
A mera imagem de um repórter usando uniforme de combate num ato de protesto popular, no qual desfilaram operários, trabalhadores rurais, professores, servidores públicos e vários outros segmentos sociais, prescinde de qualquer palavra dita na cobertura, para se configurar como uma grotesca aberração. Ela sugere ao telespectador que se trata de uma guerra civil, um conflito armado, e não de uma manifestação democrática, convocada para defender direitos trabalhistas e a soberania nacional.
A leitura de quem vê não pode ser outra: luta social é coisa de gente violenta. Se ameaça jornalistas, ameaça a liberdade. A questão social, que já era caso de polícia no mantra conservador, agora já é logo para exército.
A roupa de combate certamente foi uma precaução de segurança, de uma emissora bastante contestada pela editorialização e unilateralismo de seu noticiário. A radicalidade política que vivemos, e que a própria Globo insufla o tempo todo, vem gerando, de fato, alguma violência de jovens mais radicais, violência que não é exatamente retórica. Mas se a ideia era apenas reforçar a defesa do repórter, acabou se constituindo em pesado ataque simbólico aos movimentos populares. Uma provocação descabida.
Certamente a Globo prefere manifestantes que fazem selfies com policiais, enquanto pedem o fim do governo que ela também quer ver encerrado. Já gostou muito, no passado, de intervenção militar e ajudou-a a acontecer, pelo que foi regiamente retribuída. Agora, parece querer militarizar-se ela mesma, para narrar os conflitos sociais no Brasil. Veste farda e manda chumbo, mas quem sai ferido é um bom repórter – e a credibilidade do telejornalismo.






