Jornal japonês pede desculpas por citar termo “escravo sexual” em reportagens do passado

Publicados entre 1993 e 2013, os artigos retratam histórias de mulheres que foram obrigadas a trabalhar em bordeis de militares japoneses.

Atualizado em 28/11/2014 às 16:11, por Redação Portal IMPRENSA.

Nesta sexta-feira (28/11), o jornal japonês de maior circulação no país teve que publicar um pedido de desculpas aos leitores por publicar matérias citando o termo "escravos do sexo" em relatos sobre mulheres raptadas para trabalhar em bordeis de militares antes e durante a II Guerra Mundial.

O Asahi ressalta que o termo e outras expressões "enganosas" estão em 97 artigos sobre mulheres forçadas a prestar serviços sexuais publicados em sua edição inglesa entre 1992 e 2013. Além disso, o veículo diz que fez notas para cada um dos textos em seu acervo para explicar que eram "inapropriados".
A utilização destes rótulos é um dos grandes problemas nas relações externas e comerciais entre o país e a Coreia do Sul. Segundo a Bloomberg, os coreanos pedem uma ação efetiva no combate a crimes sexuais. Neste caso, por exemplo, o Japão menciona o termo "mulheres de conforto".
"A recusa do Japão de usar o termo 'escravos do sexo', tentando forçar a comunidade internacional a usar o termo ambíguo 'mulher de conforto' distorce o cerne do problema e só pode ser visto como um esforço para encobrir os seus erros do passado", disse um funcionário do Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul, que pediu para não ser identificado.
Pedido de desculpas
A retratação do jornal foi publicada após um concorrente, o Yomiuri , fazer uma reportagem em que contesta uma série de histórias sobre o suposto rendimento forçado de mulheres coreanas aos militares japoneses. Os textos teriam sido baseados em falsos testemunhos. O Asahi rebateu, assim como outros nacionalistas japoneses, que defendem a tese de que elas foram forçadas a servir.
"A expressão 'mulheres de conforto' é difícil de ser entendida pelos que não são japoneses e que não detêm um conhecimento sobre o assunto", alega o jornal, em artigo publicado tanto na versão em inglês como em japonês. No inglês, explica que há a mudança sobre o consentimento do termo, como "mulheres que foram forçadas à escravidão sexual", em artigos traduzidos ao japonês.
Enquanto o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, defende um pedido de desculpas pelos casos mencionados pelo jornal, ele também afirma que a cobertura do Asahi tem ferido a imagem do país. O chefe de gabinete, Yoshihide Suga, disse, no entanto, que o termo "escravos do sexo" é, de fato, uma descrição inapropriada. A declaração do secretário foi dada à imprensa em setembro.
"O governo de Abe vem tentando conseguir usar uma retratação do jornal Asahi como uma maneira de reescrever a história, com a venda do argumento de que no Japão a história sobre as 'mulheres de conforto' é algo fabricado por este veículo de comunicação", disse Koichi Nakano, professor de ciências políticas da Universidade de Sophia, (Sophia University, em inglês), em Tokyo, no Japão.
Desculpas ajudam disputa eleitoral
O pedido de desculpas publicado pelo jornal Asahi foi divulgado antes do início oficial das eleições nacionais previstas para o próximo dia 14 de dezembro, descadeada após a decisão de Abe de dissolver o parlamento para buscar um novo mandato visando implementar políticas econômicas.
O departamento de relações públicas do jornal alega que não analisa a cobertura do periódico. Os textos com o termo "escravo sexual" na versão inglesa vieram à tona durante uma investigação sobre o efeito do impresso Asahi na formação da opinião pública sobre os bordeis militares do país.
Primeiramente, autoridades japonesas ofereceram compensação aos sobreviventes, mas o plano foi rejeitado pelas vítimas coreanas porque os fundos vieram de doadores privados e não do governo.