“JN” completa 45 anos em meio a mudanças e tentativa de aproximação com a audiência
Ele usa pijamas listrados. Acorda às 5h55 para levar seus filhos à escola e frequenta religiosamente o mesmo cabeleireiro argentino há um tempão.
Aquele senhor chamado “Jornal Nacional”, com 45 anos recém-completados, de fato vem se modernizando, mesmo que de maneira comedida. Mas, como dizem por aí, ser conservador não significa “conservar” tudo como está. Bonner, aliás, é fruto dessas mudanças. Em 1996, ele e a jornalista Lillian Witte Fibe substituíram os apresentadores que foram a cara do programa por mais de duas décadas. Saíam de cena Cid Moreira e Sérgio Chapelin.
“Essa foi a primeira mudança realmente marcante e, ao mesmo tempo, brusca, pois foi de um dia para o outro. Isso deu um choque do ponto de vista formal. Eu teria mudado de maneira mais conservadora e ter deixado, por exemplo, o Chapelin com o Bonner”, confessa José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-diretor geral da TV Globo. “Em relação ao conteúdo, foi correto substituir locutores por jornalistas. Foi uma evolução muito grande. De resto, como cenário, aconteceram pequenas modificações ao longo desse período”.
Crédito:João Cotta/ TV Globo Patrícia Poeta deixará em novembro a bancada do "JN". Renata Vasconcellos assumirá o lugar ao lado de William BonnerA reviravolta na bancada trouxe aos poucos apresentadores mais envolvidos no processo de produção da notícia, e, de quebra, mais proximidade com o público. Recentemente, ao postar uma selfie com o jornalista Heraldo Pereira, Bonner contou que, por causa de uma gripe, não teria condições de comandar a atração. “O tio tá gripaldo. ‘JN é com Heraldo. Só consigo editar. Ele vai apresentar. Amigo é pra essas coisas. Heraldo salva o #tiogripaldo”, dizia na legenda.
Mais de cinco milhões de pessoas acompanham as atualizações do “tio” pelo Twitter. Tamanha descontração, sem dúvida, surpreende Cid Moreira. “Eu vivi uma fase analógica, mais circunspecta. Não era essa coisa descontraída como acontece hoje. O máximo que fiz foi espantar uma mosquinha durante o programa que estava tentando entrar no meu nariz”, brinca o narrador, que esteve à frente da atração por 28 anos.
O jornalista Flávio Ricco, colunista de televisão do UOL, destaca que, se antes as notícias eram apenas lidas e ilustradas por imagens – e a ditadura brasileira foi um fator decisivo para o cenário –, hoje o mundo mudou e o “JN” acompanhou esse progresso. “Perceberam que não deve existir aquele distanciamento com o público como havia no passado. A partir dos anos 2000, a mudança foi acontecendo de forma mais gradativa. Os olhares entre os apresentadores, o diálogo mais ameno e o Bonner se dirigir ao telespectador para explicar algo ou mesmo para abrir um problema pessoal, como a gripe, são formas de mudar um pouco a cara em relação ao que existia no passado”, afirma Ricco.
Para Cristina Padiglione, colunista de televisão de O Estado de S. Paulo , todas as viradas do programa acontecem lentamente. Para ela, há um cuidado para não afastar o público mais tradicional que comparece em frente à TV naquele horário. “A conversa com o telespectador é buscada com mais liberdade nos demais telejornais da casa, já no ‘JN’ tem que ser feito com mais sutileza para não espantar quem está acostumado com o formato”.
Mesmo assim, o noticiário definitivamente já mostrou sinais de leveza. Durante a Copa do Mundo deste ano, Patrícia Poeta, acompanhada por Galvão Bueno, fez uma careta sem perceber que já estava no ar. No dia seguinte, Bonner explicou ao vivo o motivo da tão comentada “bufada”. “Além de grande mulher, mãe e ótima profissional, queria dizer que você também é uma mulher de sorte. De todos aqueles exercícios que vocês fazem de fonoaudiologia, você foi flagrada fazendo o menos esquisito deles, e ficou ótimo”, esclareceu. A chegada de Patrícia no lugar de Fátima Bernardes – que entrou no lugar de Witte Fibe, em março de 1998 –, foi outro marco no jornalístico. Após 14 anos de bancada, a jornalista anunciou sua saída do “JN” em 2011, sendo substituída pela atual âncora e editora-executiva.
Na última segunda-feira (15/09) o “JN” anunciou mais uma troca de cadeiras, com a saída de Patrícia em novembro para a chegada de Renata Vasconcellos, que deixará o “Fantástico”. “Quando aceitei com muita alegria o convite para ancorar o ‘JN’, propus esse prazo. Acreditava, então, que estar na bancada do mais importante telejornal brasileiro seria uma experiência única, enriquecedora, algo que me aprimoraria de uma maneira sem igual”, disse Patrícia em nota.
Conservador x ousado
Para Flávio Porcello, professor de telejornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador da Rede de Pesquisa em Telejornalismo da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPjor), o “JN” consegue ser ousado e conservador ao mesmo tempo. Em uma época em que a televisão tinha apenas 17 anos de existência, o “JN” estreou ao vivo diretamente de três praças (RJ, SP e DF).
“Para ser um jornal de fato é necessário ser rede. Isso a Globo sempre teve”. Essa foi a primeira missão do ex-diretor geral da TV Globo. Segundo Boni, tendo em mãos o modelo norte-americano de telejornalismo, só faltava o elemento principal: a rede de distribuição. Com a constituição da Empresa Nacional de Telecomunicações (Embratel), foi possível dar início ao processo. “A dificuldade em adaptar para o Brasil foi convencer os afiliados a abrirem mão daquele horário. Foi a maior luta de todas.
A princípio, o noticiário era praticamente um jornal impresso adaptado para a TV. Tínhamos que fazer algo mais dinâmico”. Desde o começo, o programa pôde ser efetivamente chamado de “Nacional” pela quantidade de repórteres espalhados pelo Brasil e pelo mundo todo. Primeira correspondente da Globo na Europa, a jornalista Sandra Passarinho cobriu episódios marcantes da década de 1970 e 1980, como a Revolução dos Cravos, em Portugal; a morte do General Franco, na Espanha; e entrevistou líderes políticos, como a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.
“O ‘JN’ foi o primeiro telejornal de rede no país, e essa inovação depois foi adaptada pelos demais telejornais brasileiros. Gerar um programa em rede era um desafio operacional que criou na empresa, em minha opinião, uma cultura de investimento permanente em tecnologia para manter o produto atualizado, ao mesmo tempo em que se aperfeiçoa o conteúdo jornalístico”, opina Sandra.
Já sobre o aspecto conservador, Porcello enfatiza que mesmo havendo uma predominância de mulheres nas redações, isso não se refletia na atração. “Demorou muito tempo para admitirem que uma mulher sentasse à bancada. Penso que por uma questão de absoluto conservadorismo. Hoje mudou e há uma rotatividade bastante grande”, pontua. De fato mudou. Pela primeira vez em sua história, no dia 8 de março desse ano, Dia Internacional da Mulher, o jornal foi comandado por Patrícia Poeta e Sandra Annenberg.
Guerra pela audiência
Se até os anos 1980, o “JN” oscilava entre o primeiro e segundo lugar no ranking de popularidade junto ao público, com o passar do tempo o programa não ficou imune à temida queda de audiência. Em abril deste ano, a atração bateu seu recorde negativo, 18,3 pontos, segundo o Ibope. Em dez anos, perdeu quase um terço de sua audiência. Além do poderio da internet, a hegemonia da Globo se viu afetada pelo crescimento da concorrência, mas que ainda se baseia no bom e velho modelo do “JN”.
Essa queda, no entanto, não é um fator que deve gerar tanta preocupação, defende Ricco. O jornalista explica que a perda de público é calculada por meio da média de audiência, o que, segundo ele, é um erro. “O que deve ser considerado em relação à TV aberta é a participação, ou seja, aquilo que o programa obtém a partir do número de televisores ligados. Hoje temos novas mídias e as formas de lazer são outras. As pessoas têm outras opções, como a TV a cabo e serviços on demand. É evidente que a audiência de uma novela das 20h há quarenta anos era bem diferente da de hoje. Mas, a participação do telespectador não mudou tanto”, destaca.
Aliás, esse formato “sanduíche” – novela intercalada com jornal – sempre foi uma aposta de Boni. A lógica é simples: tanto o público fiel à novela anterior ao jornal como o que faz “sala de espera” para a que vem a seguir, significa uma entrega muito grande de audiência para o jornal. Mas, de acordo com o ex-diretor da TV Globo, para surtir efeito, é necessário que a novela seja atraente. “É fundamental que a emissora reveja a questão da dramaturgia. Novelas são elementos mais populares e puxam o resto.
A Globo tem competência e recursos para mexer, e acredito que estão atentos. O jornalismo está bem feito, mas, com toda tecnologia disponível hoje, dá para avançar mais”.
Opinião
Existe um consenso ao dizer que o “Jornal Nacional” ditou tendências para telejornais de outras emissoras. Como diz o velho ditado: “Não se mexe em time que está ganhando”. Quer dizer, em pelo menos uma coisa eles mexeram. Seja pela presença de comentaristas ou pelo próprio âncora, outros canais apostam em um formato opinativo. E, de acordo com Ricco, essa é a única coisa que falta ao “JN”.
“Todo jornal tem, por exemplo, uma entrevista. O ‘JN’ raramente coloca alguém em sua bancada, apenas em período eleitoral ou na mudança de técnico da Seleção Brasileira. Raramente há um editorial. Tem como ser imparcial e ter opinião”, ressalta o colunista. Mas Cristina Padiglione acredita que dificilmente isso irá acontecer, pois a opinião do jornal naturalmente existe e está exposta durante o tempo em que se dá a cada assunto.
“Acho que eles nunca serão opinativos a ponto de o âncora expor sua posição. Mas sempre vai haver um tratamento diferenciado para certos assuntos. Esses detalhes acabam determinando a linha editorial do veículo. Como a Globo é muito vista e sempre vigiada, acho difícil que exponham suas ideias claramente. No ‘JN’ tem esse temor de ser janela de vidro, de a opinião não estar balizada de forma muito informativa e a emissora ser acusada de ser tendenciosa”, diz Cristina.
Há exatos cinco anos, William Bonner, em entrevista à IMPRENSA, afirmou categoricamente: “O que faz do ‘JN’ o telejornal de maior audiência do Brasil (e uma das maiores do mundo) é que as pessoas podem não saber o que vão encontrar lá. Mas elas têm certeza daquilo que não vão encontrar de jeito nenhum: sensacionalismo, não verão nenhuma apelação, não serão desrespeitadas, não serão traídas em sua confiança”.
Ainda hoje, essa afirmação se faz válida e, com toda certeza, daqui a cinco anos, quando o telejornal virar um cinquentão, ainda será.






