Investigações da imprensa mostram falhas do Estado

Investigações da imprensa mostram falhas do Estado

Atualizado em 29/12/2009 às 10:12, por Silvia Dutra.

É fato no mundo inteiro, que as empresas que publicam jornais e revistas estão tendo que repensar e reinventar suas práticas editoriais e comerciais para se adaptar à avalanche digital. Cada vez mais, a Internet está remodelando todo esse segmento e forçando jornalistas, editores, pessoal do setor gráfico e empresários do ramo a buscar meios de adaptação e sobrevivência.

Em colunas passadas, já falei sobre algumas experiências interessantes que estão acontecendo no Jornalismo americano nesses tempos de mudanças. Hoje vou mostrar mais uma, criada por um jornal daqui do sul da Flórida, o Sun Sentinel , que seria impensável há alguns anos atrás, mas deixa claro que, longe de ser uma ameaça, a Internet pode fazer uma parceria maravilhosa com o Jornalismo responsável. E que ambos podem prestar serviços inestimáveis a toda a sociedade e exercer uma influência positiva e transformadora sobre outras instituições.

Graças ao trabalho de repórteres e editores, o Jornal descobriu que quase 9 mil pessoas com antecedentes criminais - algumas por delitos sérios como tráfico de drogas, pedofilia e até assassinato -- conseguiram licença do governo da Flórida para trabalhar como cuidadores de crianças em creches e deficientes físicos ou mentais e idosos em asilos e casas de repouso. Mais: a extensa e detalhada investigação demonstrou falhas terríveis no sistema de Justiça do estado e nos órgãos que teoricamente deveriam vigiar a performance e segurança dos estabelecimentos que abrigam indivíduos nesses grupos mais vulneráveis a abusos de toda natureza.

Em sua versão online, o Sun Sentinel disponibiliza um banco de dados sobre quais estabelecimentos -- em todos os 67 condados da Flórida -- já contrataram pessoas com antecedentes criminais e ainda quais asilos e casas de repouso violaram direitos básicos de seus clientes e em alguns casos causaram prejuízos financeiros e até a morte de alguns deles.

É uma ferramenta importante, disponibilizada gratuitamente, para qualquer pessoa responsável que precise deixar seus filhos ou pais idosos sob o cuidado de terceiros.

O Sun Sentinel descobriu que uma lei aprovada pelos legisladores da Florida em 1985 estava sendo mal aplicada e que isso estava colocando em risco toda a população. Chamada de Lei da Isenção ( Exemption Law ) a lei foi criada para dar uma segunda chance no mercado de trabalho para indivíduos que tivessem cometido atos anti-socias de menor gravidade, como infrações de trânsito, vandalismo ou pequenos furtos sem o uso de armas ou qualquer tipo de violência. Até então esses antecedentes criminais poderiam barrar alguém de conseguir um emprego e os legisladores entenderam que essa discriminação levaria os indivíduos à reincidência.

O problema é que o estado da Flórida começou a beneficiar com essa lei criminosos de carreira, alguns com fichas criminais longas e várias passagens por penitenciárias. E pior: justamente para que eles trabalhem cuidando de pessoas indefesas. Para conseguir o benefício basta o indivíduo se apresentar na frente de um juiz e se declarar reabilitado, expressando remorso pelos erros do passado, prometendo que será bonzinho dali pra frente e apresentando cartas de recomendação, que facilmente podem ser fabricadas e falsificadas. Na maioria dos condados em média 82 por cento de todos que passam por esse processo recebem o benefício e estão autorizados pela Justiça a trabalhar em creches e asilos. No condado onde eu moro, Broward, essa taxa chega aos 98 por cento.

A investigação do Sun Sentinel descobriu que na Florida é mais difícil uma pessoa com antecedentes criminais conseguir uma licença para trabalhar como balconista num bar do que para abrir uma creche ou uma casa de repouso para cuidar de deficientes e idosos. Descobriu ainda que 21 por cento das pessoas que foram beneficiadas pela Lei da Isenção acabaram voltando para a cadeia, algumas por crimes como estupro, estelionato, crueldade contra crianças e até assassinatos.

"Eu não estou dizendo que as pessoas não merecem uma segunda chance, mas não nesse campo de trabalho" declarou Dan Reiter, que trabalha como Ombudsman no programa de Tratamento de Longo Prazo do condado de Broward. Os repórteres do jornal descobriram histórias inacreditáveis, como a de Lúcia Rivera, que em 1999 espancou a namorada de seu ex-marido e incentivou um cúmplice a esfaquear o rosto da vítima.

Apesar da gravidade do crime, em 2005 ela conseguiu ser beneficiada pela Lei da Isenção e ano passado, trabalhando como gerente numa casa de repouso em St Cloud, uma cidade no centro da Florida, roubou 36 mil doláres da conta bancária de vários pacientes, alguns que estavam até em coma, completamente incapacitados. Outra mulher, Maritza Carril, abriu uma casa de repouso chamada Centro para Aposentados Cuidado e Amor ( Care and Love Retirement Center ) em Hialeah, uma cidade ao norte de Miami.

Apesar de ter em sua ficha criminal pequenos furtos, uso fraudulento de cartões de crédito, falsificações e até a provocação de incêndios, Maritza conseguiu estabelecer o negócio com a aprovação da Agência para Administração do Sistema de Saúde (Agency for Health Care Administration). E, em 2006, levou um de seus pacientes, Miguel Tejera, de 81 anos, para uma concessionárias de veículos de luxo e o fez assinar documentos e cheques comprando 2 Mercedes Benz e um Porsche Cayenne, num total de 183 mil dólares.

Nos meses subsquentes, a saúde de Tejera piorou e ele morreu, uma semana antes de Maritza Carril ser presa. Ela se declarou culpada, recebeu uma pena de três anos que está cumprindo em liberdade condicional e prometeu para o Juiz que jamais se envolverá novamente com o negócio de cuidar de velhos ricos e aposentados. Não é incrível?

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