Internet põe jornais no divã / Por Diego Espíndola, Ronaldo Araújo e Natália Albuquerque - Cásper Líbero (SP)
Internet põe jornais no divã / Por Diego Espíndola, Ronaldo Araújo e Natália Albuquerque - Cásper Líbero (SP)
Atualizado em 12/07/2005 às 13:07, por
Diego Espíndola, Ronaldo Araújo e Natália Albuquerque e estudantes da Faculdade Cásper Líbero.
Por O estouro da Internet como a mídia que oferece a notícia em primeira mão coloca em xeque o atual papel noticioso do jornalismo impresso. Diferentemente do rádio e da tevê, a Internet é mais democrática para
produção de notícias. É mais simples e barato ter um site ou um blog do que uma emissora, o que amplia o leque de fontes.
Soma-se a isso, a velocidade de transmissão, o crescimento exponencial (somos 11 milhões de internautas, com avanço nas classes C, D e E, e vice-líderes em tempo de navegação, segundo o Ibope), o forte uso da palavra
escrita como ferramenta básica de expressão, bem como o acesso gratuito à informação, para a rede mundial de computadores assumir o posto de maior rival dos jornais atualmente.
Rapidez versus confiança
Se a Internet cresce e já é o terror dos jornais com relação à transmissão das notícias encurtando o trajeto da informação até o leitor, no tocante à confiança das informações é que a rede ainda tem seu calcanhar de Aquiles. Tanto no que diz respeito ao permitir que pessoas não especializadas na área de comunicação se tornem produtores de notícias, como na exigência da notícia em tempo real das publicações online, a credibilidade das informações na rede tem pontos vulneráveis.
"É preciso cuidado, já que muitas das informações jogadas na Internet não são confiáveis, são mentirosas, equívocos, ilusões", alerta Carlos Eduardo Lins e Silva, ex-diretor de redação do jornal 'Valor Econômico', do qual
saiu para tocar projetos pessoas, entre os quais palestras sobre o futuro da imprensa.
Segundo ele, a falta do compromisso e ética do 'comunicador amador' pode levar a distorções, inconscientes ou formatadas por interesse na contramão de qualquer processo jornalístico profissional que tem como base a visão
crítica e independente na busca pela verdade. "E isso não é só ruim para o processo jornalístico como para toda sociedade", frisa.
Já com relação ao jornalismo profissional na rede, o imperativo da 'notícia em tempo real', o famoso 'breaking news', força os veículos de Internet a muitas vezes beber da mesma fonte e a atropelar processos de apuração
prejudicando a exatidão dos fatos. De acordo com Eduardo Scolese, repórter de política da sucursal de Brasília da 'Folha de S. Paulo', a exigência da velocidade na difusão da informação provocada pelo avanço tecnológico é
péssima para o bom jornalismo. "As informações estão cada vez menos trabalhadas, com o noticiário online pautando os veículos impressos", ressalta.
Mudar para sobreviver
Independentemente do debate acerca da qualidade do conteúdo jornalístico online é fato que os jornais estão acossados pela Internet. Os impressos estão numa encruzilhada, que exige mudanças. O maior dilema é o que fazer para sobreviver reduzindo o estigma de serem na manhã seguinte um retrato requentado das notícias já publicadas no dia anterior na rede.
Para o jornalista Leão Serva, assessor de imprensa da Prefeitura de São Paulo, ex-'Folha de S. Paulo', 'Jornal da Tarde', 'iG', entre outros veículos, além de autor de 'Jornalismo e desinformação (Senac 2001)' e palestrante do recente seminário 'Jornalismo brasileiro em tempos de globalização', promovido pelo Memorial da América Latina, a única saída para os jornais é se tornarem mais detalhados, reflexivos e interpretativos.
Segundo afirma, os jornais ainda são noticiosos. "Eles precisam ver o que está por trás da notícia. Em outros países do mundo isso já é regra, no Brasil ainda não, embora as empresas jornalísticas já saibam disso", diz.
Opinião semelhante tem Lins e Silva, que condiciona o futuro dos jornais a publicações mais enxutas, segmentadas, com conteúdo analítico e direcionadas a um público mais intelectual, formado basicamente por formadores de opinião e tomadores de decisão.
Crescer sem depender
A concorrência da Internet traz aos jornais o desafio de equilibrar a mudança do foco editorial com a manutenção de leitores. No começo dos anos 90, os jornais investiram pesado em tecnologia, em especial em novos parques gráficos, com o objetivo de aumentar a circulação. Entretanto, a nova mídia freou este crescimento, provocando dívidas e dispensas nos jornais.
Este cenário de crise deixou os jornais mais vulneráveis à pressão de anunciantes, lobbies e grupos alheios à comunicação. Mas, ao contrário do que possa parecer, abrir janelas no editorial em troca de recursos
financeiros é dar um tiro no pé.
"A credibilidade é o principal insumo para saúde financeira dos jornais", afirma Serva. Segundo diz, a receita é depender mais da circulação do que da publicidade e isso só se consegue com a confiança do leitor. "Desta forma, o jornal passa a depender menos de anunciantes alimentando sua independência."
Para Scolese, no seu dia-a-dia, o jornalista não deve se preocupar com isso. "Ele deve fazer o seu trabalho. A pressão comercial, se existir, deve atingir e partir dos proprietários do veículo de comunicação, e não do
jornalista."
Além da pressão comercial, ideológica, partidária, entre outras, a credibilidade dos jornais tem no espiral de concentração das empresas jornalísticas outra ameaça. "Eu defendo a pulverização do controle das
empresas de mídia", diz Serva. "Só assim será possível quebrar o processo de concentração."
Serva vê com bons olhos a entrada de empresários de outros ramos na comunicação e questiona: "Por que a mídia deve ser dominada somente pelos grupos que tradicionalmente já a controlam?"
Lins e Silva pensa diferente. Destaca que por piores que sejam os patrões tradicionais da mídia, eles ao menos entendem do negócio comunicação. "Têm um mínimo de respeito pela dimensão sócio-política do jornalismo", completa.
produção de notícias. É mais simples e barato ter um site ou um blog do que uma emissora, o que amplia o leque de fontes.
Soma-se a isso, a velocidade de transmissão, o crescimento exponencial (somos 11 milhões de internautas, com avanço nas classes C, D e E, e vice-líderes em tempo de navegação, segundo o Ibope), o forte uso da palavra
escrita como ferramenta básica de expressão, bem como o acesso gratuito à informação, para a rede mundial de computadores assumir o posto de maior rival dos jornais atualmente.
Rapidez versus confiança
Se a Internet cresce e já é o terror dos jornais com relação à transmissão das notícias encurtando o trajeto da informação até o leitor, no tocante à confiança das informações é que a rede ainda tem seu calcanhar de Aquiles. Tanto no que diz respeito ao permitir que pessoas não especializadas na área de comunicação se tornem produtores de notícias, como na exigência da notícia em tempo real das publicações online, a credibilidade das informações na rede tem pontos vulneráveis.
"É preciso cuidado, já que muitas das informações jogadas na Internet não são confiáveis, são mentirosas, equívocos, ilusões", alerta Carlos Eduardo Lins e Silva, ex-diretor de redação do jornal 'Valor Econômico', do qual
saiu para tocar projetos pessoas, entre os quais palestras sobre o futuro da imprensa.
Segundo ele, a falta do compromisso e ética do 'comunicador amador' pode levar a distorções, inconscientes ou formatadas por interesse na contramão de qualquer processo jornalístico profissional que tem como base a visão
crítica e independente na busca pela verdade. "E isso não é só ruim para o processo jornalístico como para toda sociedade", frisa.
Já com relação ao jornalismo profissional na rede, o imperativo da 'notícia em tempo real', o famoso 'breaking news', força os veículos de Internet a muitas vezes beber da mesma fonte e a atropelar processos de apuração
prejudicando a exatidão dos fatos. De acordo com Eduardo Scolese, repórter de política da sucursal de Brasília da 'Folha de S. Paulo', a exigência da velocidade na difusão da informação provocada pelo avanço tecnológico é
péssima para o bom jornalismo. "As informações estão cada vez menos trabalhadas, com o noticiário online pautando os veículos impressos", ressalta.
Mudar para sobreviver
Independentemente do debate acerca da qualidade do conteúdo jornalístico online é fato que os jornais estão acossados pela Internet. Os impressos estão numa encruzilhada, que exige mudanças. O maior dilema é o que fazer para sobreviver reduzindo o estigma de serem na manhã seguinte um retrato requentado das notícias já publicadas no dia anterior na rede.
Para o jornalista Leão Serva, assessor de imprensa da Prefeitura de São Paulo, ex-'Folha de S. Paulo', 'Jornal da Tarde', 'iG', entre outros veículos, além de autor de 'Jornalismo e desinformação (Senac 2001)' e palestrante do recente seminário 'Jornalismo brasileiro em tempos de globalização', promovido pelo Memorial da América Latina, a única saída para os jornais é se tornarem mais detalhados, reflexivos e interpretativos.
Segundo afirma, os jornais ainda são noticiosos. "Eles precisam ver o que está por trás da notícia. Em outros países do mundo isso já é regra, no Brasil ainda não, embora as empresas jornalísticas já saibam disso", diz.
Opinião semelhante tem Lins e Silva, que condiciona o futuro dos jornais a publicações mais enxutas, segmentadas, com conteúdo analítico e direcionadas a um público mais intelectual, formado basicamente por formadores de opinião e tomadores de decisão.
Crescer sem depender
A concorrência da Internet traz aos jornais o desafio de equilibrar a mudança do foco editorial com a manutenção de leitores. No começo dos anos 90, os jornais investiram pesado em tecnologia, em especial em novos parques gráficos, com o objetivo de aumentar a circulação. Entretanto, a nova mídia freou este crescimento, provocando dívidas e dispensas nos jornais.
Este cenário de crise deixou os jornais mais vulneráveis à pressão de anunciantes, lobbies e grupos alheios à comunicação. Mas, ao contrário do que possa parecer, abrir janelas no editorial em troca de recursos
financeiros é dar um tiro no pé.
"A credibilidade é o principal insumo para saúde financeira dos jornais", afirma Serva. Segundo diz, a receita é depender mais da circulação do que da publicidade e isso só se consegue com a confiança do leitor. "Desta forma, o jornal passa a depender menos de anunciantes alimentando sua independência."
Para Scolese, no seu dia-a-dia, o jornalista não deve se preocupar com isso. "Ele deve fazer o seu trabalho. A pressão comercial, se existir, deve atingir e partir dos proprietários do veículo de comunicação, e não do
jornalista."
Além da pressão comercial, ideológica, partidária, entre outras, a credibilidade dos jornais tem no espiral de concentração das empresas jornalísticas outra ameaça. "Eu defendo a pulverização do controle das
empresas de mídia", diz Serva. "Só assim será possível quebrar o processo de concentração."
Serva vê com bons olhos a entrada de empresários de outros ramos na comunicação e questiona: "Por que a mídia deve ser dominada somente pelos grupos que tradicionalmente já a controlam?"
Lins e Silva pensa diferente. Destaca que por piores que sejam os patrões tradicionais da mídia, eles ao menos entendem do negócio comunicação. "Têm um mínimo de respeito pela dimensão sócio-política do jornalismo", completa.






