Internet com cheiro
Internet com cheiro
Uma antiga lenda japonesa conta que, em Edo, hoje Tóquio, o dono de um pequeno restaurante se queixava de um de seus funcionários, que roubava o cheiro da sua comida. Na verdade, nenhum dos funcionários tinha direito às refeições que o restaurante oferecia aos convivas. Enquanto os clientes se fartavam de peixe, de bolinhos de legumes, de frituras muito saborosas, os funcionários deviam se contentar apenas com o puro, branco e simples arroz. Engenhoso, um dos empregados tomou uma decisão, enquanto comia o insosso arroz, sentava-se num lugar privilegiado de onde poderia sentir o saboroso aroma dos pratos especiais a que não tinha acesso. Dia após dia, diante do arroz, ele se fartava com o delicioso cheiro das caras iguarias. Ao saber disso, o proprietário do restaurante enfureceu-se, pois acreditava que se a comida que exalava o aroma era dele, o cheiro, por extensão, também o era.
***
No dia 11 de setembro desse ano, o Portal IMPRENSA publicou, sob o título " ", nota anunciando uma manifestação organizada pelo Movimento dos Sem-Mídia, em frente à sede da Folha de S.Paulo , no centro da capital paulista. Na ocasião, o fundador do movimento, Eduardo Guimarães, comentou a notícia agradecendo o espaço dado pelo Portal para seu movimento e elogiando o trabalho da repórter. Quatro dias depois, como era de se esperar, Portal IMPRENSA registrou a prometida manifestação, com a nota " ". A presença dessas duas notícias, contudo, não significam, em hipótese alguma, que institucionalmente o Portal IMPRENSA comunga no movimento. Ele apenas o registra porque, como notícia, acredita que ele seja legítimo e abre um campo de discussão importante sobre temas que interessam à IMPRENSA e seus leitores, como parcialidade e imparcialidade do jornalismo, propriedade dos meios de comunicação de massa e movimentos sociais ligados à comunicação. O terceiro e nefasto ato dessa ópera se deu com a publicação da notícia " ".
Com essa nota, em que se lê que José Dirceu reproduz um trecho de artigo escrito sob encomenda por Guimarães para o blog do ex-ministro, o Portal IMPRENSA foi acusado de deturpar as palavras do fundador do movimento, a intenção de José Dirceu e, a reboque, de partidarizar a ONG criada por Eduardo Guimarães. O estopim foi dado porque, em outros sites, como Adnews e da Associação Riograndense de Imprensa, a nota do Portal foi reproduzida com o título alterado para "José Dirceu encabeça Movimento dos Sem-Mídia". Eduardo Guimarães, em conversa telefônica com a repórter Cristiane Prizibisczki, queixou-se do título esparramado pelo vento digital, acusando o Portal IMPRENSA de tê-lo alterado oportunamente. Argüida por sua chefia, Cristiane confirmou que o título não foi alterado em momento algum. Recaía sobre a equipe do Portal, em notas e posts difundidos nos blogs de Eduardo Guimarães e do jornalista Luiz Carlos Azenha, a acusação de teríamos "mentido", o que, do ponto de vista institucional, é muito grave, visto que o patrimônio mais valioso de uma equipe jornalística é sua credibilidade.
Que Eduardo Guimarães e os adeptos de seu movimento discordem das posições editoriais dos meios de comunicação de maneira geral, e do Portal IMPRENSA, no particular, não há problema algum. A mídia se alimenta (ou deveria se alimentar) do contraditório, do plural e do divergente. A internet, aliás, é um espaço privilegiado para a manifestação dos vários e diversos pontos de vista, inclusive os não-hegemônicos e ignorados pelo que se convencionou chamar de "grande mídia". Afetou profundamente o espírito coletivo de trabalho, da repórter aos seus encarregados, o fato de estarmos sendo responsabilizados, publicamente, por ato feito por outro, já que, no rastro do "copia e cola" típico da web, localizamos o autor da mudança do título da nota e ele mesmo reconheceu a sua ação.
***
As conversas da redação, ontem e hoje, foram permeadas pelo acontecido, de maneira muito positiva. Questionamo-nos em tópicos como "autoria na web", "responsabilidade individual e compartilhada", e, sobretudo, pelo que chamo aqui de "cheiro na internet". Livre, ampla, democrática e potencialmente plural, a web exala muitos odores. Alguns bons como iguarias, outros ruins como esgoto. Mas, sobretudo, a experiência digital abriu à sociedade civil - e essa é, sem dúvida, sua maior contribuição - a possibilidade de expressão por meio de ferramentas de fácil acesso e compartilhamento, excluindo dos grandes grupos empresariais de comunicação e dos chamados "jornalistas profissionais" o privilégio da informação. É isso que, inclusive, permite uma mobilização organizada como o "Movimento dos Sem-mídia" se expressar livremente e, eventualmente, até pautar os outros meios de comunicação, institucionalizados e comerciais, como aconteceu com o Portal IMPRENSA.
Individual e particularmente, lamento apenas que, por motivos da própria natureza da internet - fluída, expansiva, incontrolável e fugidia - a plataforma digital ainda permita a transmissão em progressão geométrica de equívocos; na mesma medida em que possibilita a difusão positiva de causas, notícias e de interessantíssima produção anônima espalhada por todo o planeta.
***
Em Edo, na mesma cidade onde viviam o proprietário do restaurante e o "ladrão" do cheiro da boa comida, também morava um notável juiz, Ôoka Tadasuke. O caso dos dois chegou ao seu tribunal e ele, por mais absurdo que parecesse o fato de alguém ser acusado por "roubar" o aroma, decidiu que julgaria e daria um veredicto, acusando ou inocentando o pobre empregado da acusação impetrada pelo seu patrão. Depois dos procedimentos usuais, Tadasuke determinou que o empregado era culpado e que ele deveria pagar pelo cheiro consumido durante todo o tempo. Para isso, solicitou que ele mostrasse o dinheiro que tinha, algo como umas poucas moedas. Jogando as moedas de uma mão a outra, o juiz perguntou ao patrão se ele tinha ouvido o tilintar dos metais. Diante da resposta positiva, afirmou: "o preço do cheiro da comida pode ser pago com o som das moedas".
***
Suponho que os militantes do "Movimento dos Sem-Mídia", os mesmos que nos elogiaram pelo espaço aberto pela publicação da primeira nota, no dia 11/09, decerto agora menosprezarão a decisão editorial de não mais cobrir suas ações, que avaliamos, sempre, por critérios puramente jornalísticos e não ideológicos ou políticos. Se jornalisticamente entendemos que o assunto interessa aos leitores do Portal IMPRENSA, abrimos mão dele em nome do bom senso. Como Diretor Editorial, lamentavelmente torno pública essa decisão, esclarecendo não se tratar de boicote ao movimento ou à causa dele. Não cobrimos esses eventos de maneira personalista, por isso também não nos submeteremos a nenhum tipo de avaliação que utilize essa abordagem, desabonando tanto um trabalho de equipe como a figura de um ou outro profissional contratado da redação, acusados de má-fé, incompetência ou manipulação. Quando erramos, assumimos, retratamo-nos e abrimos o espaço editorial ao contraditório. Não é possível, no entanto, responder por equívocos alheios a nós e ao nosso controle.
***
Da história toda, a redação trabalha sob um ensinamento: o cheiro da comida só pode ser pago com o som das moedas.






