Internautas encontram nas redes ambientes para registrar suas memórias póstumas

Atualizado em 09/01/2013 às 15:01, por Danubia Paraizo.

"Morrer deve ser uma grande aventura”, lembra o autor James Matthew Barrie, criador de Peter Pan, no começo do século XX. Mesmo ditas há tanto tempo, as palavras eternizadas pelo menino que não queria crescer nunca fizeram tanto sentido como hoje diante das possibilidades do mundo virtual. Com a popularização de aplicativos como o If I Die ou Dead Soci.al, que permitem ao internauta agendar vídeos e mensagens de texto póstumas, morrer tornou-se mais subjetivo do que julga nossa vã filosofia.
Para o sociólogo Sérgio Coutinho, a preocupação de deixar um registro de memórias após a morte faz cada vez mais sentido. “No começo do século XXI, havia ainda a tentativa de separar o que é estar conectado e estar desconectado. As pessoas cumprimentavam amigos e familiares pessoalmente no velório, mas hoje isso já mudou.”

Jacob Pinheiro Segundo o especialista, desde o início da humanidade o ser humano tem registrado sua passagem pela vida com o objetivo de marcar sua singularidade. Com a chegada da tecnologia e suas inúmeras possibilidades, tornou-se também necessário o chamado “velório virtual”, uma vez que ele passa a ser uma extensão da vida, ainda que esta vida seja digital.
Não é à toa que muitos fazem questão de se despedir de amigos e familiares por meio das redes sociais. “Quando os amigos ficam sabendo de uma morte, não são raras as vezes que escrevem no perfil do falecido mensagens como ‘sinto falta de você’, como se o outro estivesse lendo.” Para Coutinho, essas são formas de perpetuar a memória de quem se ama na internet.
Esta também é a opinião de Jacob Pinheiro Goldberg, mestre em psicologia e autor de livros como “A Clave da Morte”, que discute o tabu dos seres humanos com a morte. Para ele, a internet oferece uma nova concepção de amplitude da existência. “A nossa cultura quer nos convencer de que temos de ficar submissos a ordens limitantes. É como se, por lei, se estabelecesse: ‘sossega no caixão, fique enterrado e ponto’. Só que o ser humano não vai sossegar enquanto não tentar atravessar a barreira da morte.”
Eternidade a qualquer preço
Lançado em 2010 pela empresa israelense Willook, o aplicativo If I Die já conquistou mais de 200 mil usuários e dispõe de uma dinâmica bastante simples. Basta procurá-lo no Facebook, permitir que o programa tenha acesso às suas configurações – afinal, vai ser ele o responsável por postar as mensagens póstumas do internauta – e escolher três amigos para confirmarem sua morte no futuro. Quando achar mais adequado, o usuário deve deixar suas últimas palavras gravadas em um vídeo de até cinco minutos ou em texto. A empresa se encarregará de publicar a mensagem de forma privada aos amigos e familiares na internet ou de forma pública.

Sérgio Coutinho Para os que desejam mandar mensagem em vídeo superior a cinco minutos, o aplicativo dispõe do plano básico, em que cobra cinco dólares anualmente ao usuário. Em breve, os pacotes Premium e Eternal prometem um número maior de mensagens e maior duração dos vídeos. Outro serviço que tem dado o que falar no aplicativo é o concurso If I Die 1st, voltado para aqueles que desejam popularidade eterna na internet. Lançada em agosto de 2010 pela empresa em parceria com o Mashable, maior site de notícias sobre mídias digitais do mundo, a disputa visa conceder fama póstuma ao internauta que falecer primeiro. Apesar de a ideia parecer mórbida, até o momento quase 70 mil pessoas já se inscreveram no desafio.
Segundo o vídeo de divulgação do concurso, para participar basta acessar o aplicativo If I Die no Facebook, escolher a página do desafio e gravar um vídeo com suas últimas palavras. Em seguida “é só aguardar que o destino cumpra seu papel”. Segundo seus criadores, esta é a chance de um internauta alcançar a tão sonhada imortalidade. Caso seja o primeiro entre os inscritos a morrer, a empresa se compromete a divulgar o vídeo para a imprensa internacional, além de publicá-lo no Mashable, que conta atualmente com 20 milhões de visualizações únicas.
Com funcionalidade semelhante figura o Dead Soci.al, um mix de rede social e aplicativo que expande para o Twitter, Google + e Facebook seus serviços de postagens póstumas. Como vantagem ele permite o agendamento de mensagens, programando- as para serem publicadas em diversas datas especiais de acordo com a preferência do usuário. Segundo James Norris, fundador da startup, que apresentou sua empresa durante o evento London Web Summit 2012, “a plataforma permite estender nosso legado digital, criando uma ponte entre a vida, a morte e a tecnologia”.
Disponível por enquanto apenas para os Estados Unidos e Reino Unido, o serviço de agendamento de mensagens póstumas é gratuito e tem como objetivo “amplificar a voz de quem faleceu de forma que sua memória permaneça viva”.
In Memorian
O sucesso de serviços como o If I Die e o Dead Soci.al revela a preocupação de muitos internautas com a sua imagem mesmo após a morte. “Nossa vida não é mais composta apenas pelas atividades cotidianas, mas pela imagem do que elas representam também na internet. Essa representação é mantida até o final da vida, e agora, além dela”, explica Coutinho.
Esta também é a visão de Goldberg, que defende o caráter perene como uma das grandes conquistas da internet. “A web já cria uma nova realidade virtual que reúne a instantaneidade e a singularidade. Com as redes sociais póstumas, as pessoas agora estão também tentando ter a perenidade”, justifica.
A busca pela vida eterna na web vai ao encontro da popularidade de serviços como o da Entrustet, empresa que auxilia amigos e familiares a acessarem, transferirem ou deletarem contas de e-mail, blogs e redes sociais de pessoas falecidas. Segundo dados da empresa, 2,8 milhões de usuários do Facebook morreram em todo o mundo só em 2012, o que justifica a preocupação dos internautas com seus dados sigilosos após sua morte.
Para evitar constrangimentos, como receber do Facebook a sugestão de um amigo falecido ou ainda que dados como e-mail e telefone apareçam no perfil de pessoas mortas, a própria rede social disponibiliza desde 2009 um serviço de tornar os perfis póstumos em memoriais. Para isso, é preciso que um parente ou amigo reporte a morte ao Facebook, preenchendo um requerimento.
Basta procurar o termo “Memorialization Request” no Google e acessar o primeiro link disponível. Na página será solicitada uma comprovação do falecimento do usuário para evitar equívocos, como obituário ou artigo de jornal. Após a comprovação da morte, o Facebook elimina informações pessoais do internauta falecido, permitindo apenas que familiares e amigos previamente selecionados tenham acesso ao mural. A ideia é que as pessoas possam deixar mensagens e se recordem de seus entes queridos. “É muito comum os usuários anunciarem que estão de luto nas redes sociais. Deixar mensagens no momento da perda, ainda que de forma virtual, é cumprimentar parte da existência do outro”, afirma o sociólogo.
Para finalizar, Goldberg desmistifica a ideia do isolamento social e explica que nas redes sociais são encontradas novas formas para se lidar com situações como o luto. “Nós temos de superar o tabu da morte. O medo dela reflete uma crise de cultura que nós vivemos. A boa notícia é que as pessoas estão tentando se defender disso. As redes sociais vêm para somar nesse sentido.”