Internacional: O que leva os industriais franceses a se interessarem tanto pelos jornais?

Internacional: O que leva os industriais franceses a se interessarem tanto pelos jornais?

Atualizado em 31/08/2007 às 16:08, por Cristina Palmeira e  de Paris.

A imprensa francesa desponta como uma exceção no mundo da mídia dos países desenvolvidos, onde, geralmente, os grandes jornais pertencem a famílias ou conglomerados de comunicação. Na terra da "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", os principais diários estão nas mãos de potentes grupos econômicos - uma das principais exceções é o Le Monde . Os fabricantes de aviões, de produtos de luxo e banqueiros são seduzidos pelo poder da imprensa. Eles incorporam às suas holdings os jornais franceses, colocando em risco a independência dos veículos.

Em junho, o homem mais rico do país, Bernard Arnault, fez uma proposta de compra do principal diário econômico francês ( Les Echos ). A operação envolveria cerca de 240 milhões de euros (algo como 670 milhões de reais), valor alto mesmo para os franceses. Arnault é dono do segundo maior jornal de economia, o La Tribune - que está à venda. Segundo a revista francesa Challenges , o patrimônio do empresário soma 23 bilhões de euros (64 bilhões de reais). Arnault preside o grupo LVHM, número um da indústria do luxo, com grifes como Louis Vuitton e os perfumes Christian Dior. O império de Arnault é tentacular e inclui empresas de agroalimentação, imobiliária, turismo e finanças.

A proposta de Arnault caiu como uma bomba. O diário econômico, com tiragem de 116 mil exemplares, é um dos raros casos na imprensa francesa de saúde financeira. O grupo fechou 2006 com um lucro na ordem de 10 milhões de euros (cerca 30 de milhões de reais).

A redação do Les Echos já fez três greves desde o início das negociações entre LVMH e o grupo britânico Pearson - dono do jornal francês e do Financial Times - contra a venda. A paralisação é raríssima neste jornal, que comemora 100 anos em 2008. Arnault tem um acordo de exclusividade nas negociações até novembro, mas especula-se que uma decisão poderá ser anunciada em setembro, na volta dos franceses das férias de verão.

Recentemente, surgiu um novo personagem: Marc Ladreit de Lacharrière, presidente do grupo Fimalac - leia-se a agência de classificação de risco Fitch Ratings. Os jornalistas do Les Echos apóiam em coro a proposta da Fimalac, que oferece 245 milhões de euros. Eles argumentam que Lacharrière preenche todas as condições exigidas pelo grupo Pearson: preço, manutenção do emprego (o Les Echos tem 220 jornalistas) e independência editorial.

A jornalista Leïla de Comarmond, secretária da Sociedade dos Jornalistas do Les Echos , explica que o grupo Pearson nunca influiu na linha editorial e salienta que um dos principais fatores do sucesso do jornal é a sua credibilidade. Leïla argumenta que sua aquisição, por um vasto conglomerado industrial, poderia colocar em jogo a independência do jornal - apesar das garantias que LVMH têm dado.

A história de Arnault não ajuda a dissipar os temores. Dono do La Tribune há 14 anos, o empresário não conseguiu transformar o diário numa firma rentável. E parece misturar negócios e amigos influentes - ele é padrinho de casamento do presidente Nicolas Sarkozy e sua atual esposa Cecilia.

Em setembro de 2006, o La Tribune dispunha de uma pesquisa mostrando que, em termos econômicos, os franceses confiavam mais em Ségolene Royal (candidata socialista derrotada nas eleições) do que em Sarkozy. A matéria foi redigida e paginada mas no dia seguinte a informação tinha desaparecido das páginas.

O que leva os industriais franceses a se interessarem tanto pelos jornais? Os analistas argumentam que eles buscam se mostrar não apenas como homens de negócios bem sucedidos mas também como personalidades influentes.

Talvez este seja o caso de Serge Dassault, dono do Le Figaro , bastião da direita francesa. O empresário adquiriu o título em 2004 com a intenção de dispor de um veículo no qual ele poderia apresentar "idéias sãs". Dassault preside o grupo homônimo - um gigante da indústria aeronáutica, fabricante, entre outros, do caça Mirage.

O glamour da imprensa não se restringe aos jornais conservadores. O Libération , que teve entre seus fundadores o filósofo Jean-Paul Sartre, foi comprado, há dois anos, pelo banqueiro Edouard de Rothschild.

Astérix

Em meio a este mar de tubarões, se destaca o Le Monde . O jornalista Eric Van Kote, membro da sociedade de redatores do jornal, compara o vespertino ao herói dos quadrinhos franceses "Astérix". O personagem vive numa pequena aldeia na Gália, nos idos de 50 A.C. e luta para manter sua autonomia face ao Império Romano.

O Le Monde tem uma organização original: a Sociedade de Redatores, com 400 jornalistas. Eles detém 30% do direito de voto, 21% do capital e o título de principais acionistas da holding .

Em 2005, o Le Monde fez uma ampla reforma gráfica e agora colhe os frutos: desde o início do ano as vendas cresceram 10% frente a igual período de 2006. Assim, e empresa conseguiu estancar a queda nas vendas, fenômeno que atinge em cheio a imprensa francesa. Daniel Psenny, jornalista do Le Monde, comenta que nos últimos anos, os jornais têm sofrido com a concorrência da imprensa gratuita.