“Inteligência Orgânica x Inteligência Artificial: o falso paradoxo”, por Flavio Ferrari

O acesso no formato “chat” (bate-papo) nos dá a impressão de estarmos conversando com um interlocutor (ou interlocutora) inteligente e de bo

Atualizado em 06/05/2023 às 09:05, por Flavio Ferrari.

Opinião

O novo PopStar da tecnologia, o ChatGPT da Open AI, vem gerando uma comoção capaz de abalar até o Elon Musk. Essa espécie inorgânica dos Transformadores generativos pré-treinados, da família dos Algoritmos, escreve razoavelmente bem (acima da média nacional) e é capaz de responder sobre qualquer assunto sobre o qual existam informações disponíveis em sua base de consulta.


Diferencia-se dos espécimes das gerações anteriores, que apenas reproduziam textos prontos ou combinações simples, por gerar novos textos a partir da combinação das informações disponíveis, associando-as de forma probabilística e respeitando a sintaxe da língua na qual deve apresentar sua resposta.


a educação. Profissionais, cuja natureza do trabalho seria reunir informações, analisá-las, combiná-las e gerar um novo conteúdo, sentiram-se ameaçados.


Mas nem todos. Alguns consideram que a nova ferramenta pode facilitar muito seu trabalho, e já estão explorando seu potencial. Outros se divertem procurando erros nas respostas (sim, nossa estrela reproduz os erros existentes na sua base) ou tentando contornar os bloqueios de resposta com prompts (perguntas) criativos.


Enquanto professores se preocupam com o uso que será dado por seus alunos, os analistas, redatores e gestores de redes sociais se preocupam com seus empregos, os oportunistas se preocupam em vender cursos sobre como utilizar as IAs e os programadores se preocupam em acasalar essa espécie com seus primos mais distantes. O grande debate se dá em torno da ética.


Os poucos espécimes GPT acessíveis parecem oferecer respostas preconceituosas, em algumas situações, e informações inverídicas, em outras. Há que se legislar e regulamentar sua conduta, para a segurança da sociedade e da democracia, e seria melhor enjaulá-los enquanto resolvemos isso.


A grande imprensa vem dando ampla cobertura ao assunto, em geral enfatizando os problemas e dando suporte para a turba de revoltados. Já a imprensa especializada, que estuda e convive com a família dos Algoritmos há décadas, costuma ir pelo caminho inverso, entusiasmada com as possibilidades, mas consciente das limitações. Esse pessoal sabe que, apesar do nome pomposo (Inteligência Artificial Generativa), a nova espécie não passa de um programa de computador.


Acredito que livros, filmes e séries distópicas, sobre inteligências artificiais que se voltam contra a humanidade, tenham contribuído para esse clima geral de antagonismo. Somos nós (humanos) contra elas (as inteligências artificiais).


Mas, enquanto muitos esperneiam apavorados, outros tantos, cientes de que estamos falando apenas de mais uma ferramenta tecnológica, investem em aproveitá-la em suas atividades, melhorando a performance, reduzindo custos, aumentando receitas ou, simplesmente, simplificando suas tarefas.


Crédito:Reprodução


Nesse caso, a Inteligência Orgânica (tomei a liberdade de batizar-nos assim) é ampliada pela Inteligência Artificial (usando o termo padrão, sem entrar no mérito da definição de inteligência). Mas e as questões éticas?


Tenho duas respostas para isso.


A primeira é que essas questões antecedem os algoritmos que, produzidos por humanos e utilizando bases de conhecimento geradas por humanos, são apenas o nosso reflexo.


A segunda é que os vieses preconceituosos e as informações distorcidas ou tendenciosas estão em todas as partes, distribuídos de forma massiva pela imprensa, por influenciadores e pelos cidadãos de bem em suas redes sociais.


É salutar, embora me pareça uma tarefa praticamente impossível, investir no desenvolvimento de um algoritmo capaz de oferecer respostas neutras e objetivas, porque ele será sempre criado por humanos.


E se fosse possível eliminar todos os traços de humanidade desse algoritmo, estaríamos diante de algo similar à Skynet (Exterminador do Futuro), um sistema de defesa que conclui que a maior ameaça para o planeta e a humanidade é ela própria, e decide exterminá-la.


Crédito:Arquivo Pessoal

* é Professor na ESPM e Sócio da SocialData