Insana cabeça fresca

Insana cabeça fresca

Atualizado em 24/02/2010 às 12:02, por Silvia Dutra.

Eu detesto Mary Robbins. Por causa dela vivi ontem uma das mais aterrorizantes sensações de minha vida: a de estar presa num pesadelo, perdendo meu contato com a realidade, ficando louca, imaginando coisas, tendo alucinações visuais e auditivas.
Tudo começou às sete da manhã. O cheiro do café que meu marido tinha preparado interrompeu meu sono e desci as escadas guiada pelo aroma. Ao passar pela sala, vejo na TV a cara sorridente de Mary Robbins e escuto uma história que em menos de um minuto me provocou essa avalanche de sensações apavorantes, acabando não só com minha vontade de tomar café, bem como com a minha já abalada crença na racionalidade humana.
Explico: Mary, como outros americanos, embarcou nas promessas de uma companhia chamada (Fundação Alcor para Extensão da Vida), que existe desde 1972. Tal companhia se diz líder mundial na pesquisa e tecnologia sobre a Crioconservação, ou preservação de tecidos humanos em baixíssimas temperaturas.
Toda a existência da Alcor se baseia sobre a esperança das pessoas de driblarem a morte. Seus cientistas prometem que doenças hoje incuráveis serão facilmente tratadas no futuro, e oferecem a chance da pessoa ter seu corpo congelado esperando o dia em que tais curas e tratamentos estarão disponíveis. O corpo poderá então ser descongelado, tratado, curado e, voilà, a pessoa voltará à vida.
Estatística de 30 de janeiro deste ano, divulgada no site da companhia, revela que 915 pessoas já tomaram todas as medidas legais e financeiras para serem congeladas após a morte e esperarem pelo dia em que poderão ser trazidas de volta a esse planeta de doidos. E nos laboratórios da Alcor em Scottsdale, no Arizona, já existem 90 pacientes congelados. Alguns inteiros, outros pela metade, ou menos da metade, com as cabeças separadas do corpo. Parece script de filme de horror/ficção científica, não parece?
Mary Robbins morreu no dia 9 de fevereiro, em Colorado Springs, Colorado, depois de uma batalha contra um câncer cervical que se espalhou por quase todo seu corpo, mas não atingiu o cérebro. Acontece que em 2006 ela assinou um contrato com a Alcor em que atestava seu desejo de ser preservada após a morte. E reservava um fundo de 50 mil dólares do seguro de vida para cobrir as despesas com a preparação e manutenção de seu corpo nas geladeiras da empresa.
Em dezembro de 2009, aos 71 anos, ao se descobrir com câncer, já internada num hospital para doentes terminais, Mary contactou a Alcor. Foi informada que deveria se mudar para Phoenix, no Arizona, para ficar mais próxima dos técnicos da companhia. Ela recusou.
A Alcor então enviou para o hospital uma lista de procedimentos que deveriam ser seguidos pelos médicos e enfermeiros de maneira a preparar o corpo para o congelamento. Entre as medidas recomendadas constava a administração de um coquetel de medicamentos e massagens de ressuscitação cardio-respiratória após a morte para manter a oxigenação dos tecidos. O que pra mim, totalmente leiga em assuntos médicos, não faz o menor sentido. Entendem porque me senti tendo alucinações auditivas?
O hospital se recusou dizendo que tais exigências saiam do limite de suas práticas normais, que é garantir que as pessoas morram em paz e com dignidade. Dois dias antes de morrer Mary mudou novamente seu testamento, colocando seus familiares como os beneficiários dos 50 mil dólares anteriormente prometidos à Alcor. Por essas e por outras é que eu tenho bronca de gente indecisa, verdadeiros criadores de problemas.
Darlene Robbins, filha de Mary, contactou a Alcor para informar que a mãe havia mudado de idéia e manifestado o desejo de ter um funeral tradicional. Diz ela que a deixaram falando sozinha. Dias depois, quando a família se preparava para o enterro, receberam a notícia surreal de que a Alcor entrara na Justiça para retirar e congelar a cabeça de Mary, única parte do seu corpo não atingida pelo câncer.
Clifford Wolff, advogado da Alcor, disse que a empresa solicitou à família provas por escrito de que Mary havia mudado de idéia. Disse ainda que como não houve um cancelamento por escrito, somente verbal - embora corroborado por várias testemunhas - o que vale pelas leis do Colorado e do Arizona é o contrato que foi assinado por Mary. "Queremos garantir que os desejos de Mrs. Robbins sejam cumpridos". A família acredita que o que a Alcor quer mesmo são os 50 mil dólares.
O caso já entrou no sistema de Justiça. Enquanto isso o corpo de Mary está sendo preservado numa geladeira, mas sua cabeça foi envolta num bloco de gelo pelos funcionários da Alcor. O advogado disse que embora as técnicas aconselhadas não tenham sido seguidas nas primeiras horas após a morte, os cientistas da companhia acreditam que a cryopreservação ainda é possível. Nesse momento tive certeza que eu estava tendo alucinações auditivas, a esquizofrenia batia à minha porta...toc toc toc.
Agora me digam: é ou não é uma notícia daquelas da gente balançar a cabeça desiludida e duvidar da própria sanidade? Francamente, é por causa de gente como Mary Robbins que gente como eu acaba tendo que tomar calmantes. Ou Margaritas, ao invés de café, logo pela manhã.