Indignação obrigatória

Crédito:Léo Garbin O motor do carro já estava ligado. Uma menina de olhos claros, seus 7 anos em média a tirar pela estatura, pele avermelhada, cabelo longo desgrenhado e franja mal aparada se encostou à porta de trás da caminhonete em que eu estava.

Atualizado em 05/12/2013 às 14:12, por Silvia Bessa.

carro já estava ligado. Uma menina de olhos claros, seus 7 anos em média a tirar pela estatura, pele avermelhada, cabelo longo desgrenhado e franja mal aparada se encostou à porta de trás da caminhonete em que eu estava. Pensei que era curiosidade de criança, que queria ver malas, gravador ou puxar um assunto qualquer. Desatenta naquele instante, fui pega de surpresa quando notei que o olhar dela procurava alimento.
Não havia nada atrativo como a menina esperava. Tinha somente duas garrafas médias de água mineral – suprimento que tenho o cuidado de carregar quando preciso me aventurar pela zona rural durante apuração de matérias para as quais não se tem horário para voltar.
Os olhos claros dela pareciam estatelados. Imóveis. Fitavam uma das garrafas suada pelo sol. A menina não pediu, mas vi que estava sedenta pela água. Ofereci. Nem respondeu se queria. Pegou as duas garrafinhas acomodando-as nos antebraços e saiu correndo para mostrar ao pai, morador no Sertão de Itaíba, em Sergipe. Ali, a água era tão turva quanto à da praia de Boa Viagem.
No meio do caminho, a garota se deparou com uma caravana de outros meninos; acho que eram vizinhos. Tentaram freá-la, cercando-a. Não conseguiram, mas foram rápidos ao vistoriar o que ela carregava. Nenhuma palavra trocada. Perceberam, no entanto, a água na mão dela. Depressa, vieram até nossa direção. Enfiavam a cabeça no carro, disputando espaço na janela. Os rostos empalideceram. Acabaram-se as duas garrafinhas d´água que lhes animavam. Os meninos saíram para o lado, acabrunhados.
A sequência de cenas dessas que a gente vê no Nordeste entristece. Não costumo procurar esses episódios, mas eles aparecem. Faz parte do Nordeste que se agarra a programas de convivências com o semiárido e de combate à pobreza. O problema é secular, todo mundo diz.
Quando vejo ou leio um colega narrando matéria sobre seca, me ocorrem esse quadro e outros que presenciei. Acho necessário lembrar. No dia que a imprensa perder a inquietação, esses cidadãos se tornarão ainda mais isolados e menos desprovidos. Segundo o IBGE, 10,6 milhões de pessoas foram atingidas, de 1.484 municípios nordestinos e do norte de Minas Gerais que entraram em situação de emergência por causa da estiagem este ano. Em 2012, houve uma perda de 4 milhões de animais, sendo somente de bovinos 1,3 milhão.
Os números exigem inquietação. Esse é o tipo de reflexão que não pode ficar de fora no balanço de 2013 e no traçado de 2014. Não dá para se deparar – ao vivo ou em fotografias – com cabeças de gado esqueléticas e achar que é mais do mesmo. E só. No dia que perdermos a capacidade de indignação com mazelas sociais, ficaremos menores enquanto jornalistas.