"Imprensa tem responsabilidade na cobertura sobre direitos humanos", afirma a iraniana Roxana Saberi
"Imprensa tem responsabilidade na cobertura sobre direitos humanos", afirma a iraniana Roxana Saberi
| Divulgação |
| Roxana Saberi |
Para muitos jornalistas não existe desafio maior do que estar em campo e aprofundar-se num tema, conhecendo a realidade das fontes e da cultura de outros países. Já para a irano-americana , esta experiência foi muito mais intensa e lhe custou a liberdade. Filha de pai iraniano e mãe japonesa, Roxana nasceu em Fargo, na Dakota do Norte. Ela chegou ao Irã em 2003 com o objetivo de conhecer o país de seu pai e escrever um livro sobre a realidade local. O que seria somente um período de apuração para a publicação virou uma vida dedicada ao país que lhe rendeu diversos trabalhos para emissoras estadunidenses como NPR, BBC, ABC Radio e Fox News.
Mas com a chegada de Ahmadinejad em 2005, tudo mudou. A jornalista perdeu sua credencial de correspondente, ainda que seguisse no país apurando para o livro - e correndo riscos. "Eu nunca havia ido para o Irã, não sabia nada sobre a cultura daquele país. Mas fui e trabalhei para vários veículos dos Estados Unidos, Cingapura e Nova Zelândia", lembra. Seu contato com a cultura e a vida local foi intenso, começou uma relação com um cineasta iraniano e fez várias amizades. Apesar de todas as notícias falando de uma sociedade machista, a jornalista lembra que no Irã as mulheres possuem muitos direitos civis e desfrutam de certa liberdade em alguns aspectos. Por outro lado, vivem muitas limitações. "As mulheres têm direito que em outros países elas não teriam. O primeiro e único esquadrão de bombeiras do Oriente Médio, por exemplo, é iraniano", ilustra.
A prisão
A situação se complicou para Roxana em 31 de janeiro de 2009, quando foi presa e passou cem dias encarceirada. "Quatro homens vieram ao meu apartamento me prenderam, disseram que eu era espiã e meu livro era uma forma de levantar informações secretas para os Estados Unidos. Fui levada a prisão de Ervin, onde estão presos de consciência política, blogueiros, jornalistas, reformistas e oposicionistas". Ela conta que no momento que tomou ciência de que iria para lá, entrou em pânico, já que em 2003 uma jornalista irano-canadense morreu com um golpe na cabeça no mesmo presídio. "Ninguém tinha me visto sendo presa. Tinha muito medo de morrer, além disso, na prisão vi inúmeras pessoas sendo torturadas. Eu estava com os olhos vendados e ouvia gritos de que eu era uma espiã e de que deveria confessar", conta.
Roxana conta que precisava se defender na prisão, mas tudo era muito difícil, tendo de conviver com um jogo de mentiras e tortura. "Pedi um advogado e eles disseram que eu não podia ter um advogado, pedi uma ligação e eles queriam que eu mentisse, tentei dar uma dica a meu namorado por telefone, mas não funcionou". A jornalista foi sentenciada a oito anos de prisão, mas conseguiu ser libertada em maio de 2009, após uma enorme comoção internacional, envolvendo os Estados Unidos e até o Japão.
A responsabilidade da mídia
Roxana aponta que a imprensa tem muita responsabilidade em sua cobertura em casos de reféns e presos políticos e muitas vezes troca esse tipo de cobertura por outros assuntos menos importantes. "Depois que fui libertada e voltei aos Estados Unidos, começaram as eleições no Irã, fiz várias matérias sobre questões de direitos humanos. Mas muitas delas caíram em função da morte de Michael Jackson. Os editores alegavam que a cobertura era prioritária, eu até concordo com a relevância do tema. Mas a cobertura permaneceu prioritária por meses. Falta equilíbrio".
Depois da prisão, Roxana escreveu inúmeros artigos e emplacou matérias sobre defesa dos direitos humanos em veículos como The Washington Post , Wall Street Journal e Chicago Tribune ; além de FOX News, ABC, NBC, CBS, BBC, CNN, PRI, NPR, e C-SPAN. Roxana esteve no Brasil no final do ano passado para lançar o livro "Entre Dois Mundos - Minha Vida de Prisioneira no Irã" pela Editora Larousse.
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