IMPRENSA presta homenagem a Armando Nogueira e republica sua primeira coluna à revista

IMPRENSA presta homenagem a Armando Nogueira e republica sua primeira coluna à revista

Atualizado em 29/03/2010 às 17:03, por Redação Portal IMPRENSA.

O jornalista e cronista esportivo Armando Nogueira, na manhã desta segunda-feira (29), no Rio de Janeiro (RJ), deixou um grande legado ao jornalismo brasileiro. Nogueira foi um dos criadores do "Jornal Nacional" e "Globo Repórter" e cobriu todas as Copas do Mundo desde 1954, seja como fotógrafo, repórter ou comentarista.

Durante a década de 1990, o jornalista foi colaborador da revista IMPRENSA e, em 1994, estreou como colunista da publicação. Confira a seguir o texto inaugural da coluna "Prosa e verso", publicado em setembro de 1994.

Não tem salário. Culpa da rainha Elizabeth

Agua-marinha para Sua Majestade causa revolta nos Associados

Por Armando Nogueira

Fernando Morais conta, no excelente livro Chatô, o rei do Brasil, que Assis Chateaubriand assustou a imprensa internacional quando deu, de mão beijada, a seus empregados, um império de 90 empresas : entre elas, jornais, revistas, rádios, televisões, agências de notícias o diabo . O mínimo que se dizia, lá fora, então, é que o homem era um milionário excêntrico, doido varrido. Coisa nenhuma. Chateaubriand era, sim, um homem de exceção. Uma força da natureza. Tinha o gosto da aventura e jamais traiu essa vocação.

Conheci-o nos anos 50 . Eu, repórter, ele, já cidadão do mundo, montado numa biografia de mil caras, cada qual mais fascinante que a outra. Era querido e odiado com igual veemência -e com espantosa intermitência, também. Era de impressionar o fragor com que Chateaubriand entrava no coração das pessoas. Entrava e saía, sempre tempestuosamente. Quem chegasse perto dele dificilmente resistia a seus encantos. Seduzia Deus e o mundo com o talento de seus gestos e, sobretudo, de seu verbo. Tinha o dom do mandachuva em tudo e com todos. Ele próprio, no topo da glória, crismou-se o "cacique da taba Tupi".

Chateaubriand, ou melhor, o doutor Assis, como gostava de ser chamado pelos mais chegados, provocou em mim um sábado de cão que, hoje, relembro sem travo algum, mas que, na época, quase me mata de indignação. A mim e a redação inteira do Diário da Noite: por sinal, o vespertino mais irreverente da cadeia associada. Popularesco até na cor: era impresso num extravagante papel verde-garrafa que, por si só, já degradava a notícia. Um dia, o papa Pio XII, à morte, uma perna gangrenada, o jornal me sai com a manchete: "O Pé do Papa Está Podre!".

Tracei um breve perfil do jornal apenas pra não perder a chance de relembrar uma das manchetes mais despudoradas do jornalismo vespertino brasileiro. Minha história, porém, é outra.

Na época, os jornais preferiam pagar os empregados semanalmente. Todo sábado, de manhã, a redação fervilhava: repórteres, fotógrafos, redatores, gráficos, todo mundo na fila do guichê pra receber sete dias de salário. Ganhava-se uma miséria, mas era melhor que nada. A maioria dos jornais do Rio, então, atrasava o pagamento meses a fio. Alguns pagavam em mercadoria. Eu mesmo, no Diário Carioca, andei recebendo, alguns meses, o valor do meu salário em liquidificadores, colchões de mola, poltronas e até bugigangas que o departamento comercial permutava com os anunciantes...

Num fim-de-semana do ano de 1953, o guichê do Diário da Noite amanheceu fechado. Coisa estranha, pensamos todos. Em pouco tempo, a redação estava lotada; e já fermentando. Explicação, nenhuma. Eis que, a certa altura, entra pelo salão, ventando fogo, Fernando Chateaubriand, diretor do jornal e filho do patrão. Era um rapaz de 30 anos, se tanto. Atlético, sanguíneo . Cara fechada, Fernando sobe numa cadeira pra ser visto por todos. Bate palma, pede um minuto de atenção.

- Quero avisar que não tenho dinheiro para pagar o salário de vocês. Eu tinha o dinheiro, até ontem. Acontece que meu pai passou por aqui, de noite, e raspou o cofre do jornal. Levou o dinheiro de vocês e comprou uma água marinha para dar de presente à princesa Elizabeth que acaba de ser coroada rainha da Inglaterra. Achei isso um a molecagem. Não ponho mais meus pés aqui. Acabo de me demitir da direção do jornal.
Perdoei o dr. Assis, mas não perdôo a rainha Elizabeth . Até hoje Sua Majestade não agradeceu o presente que lhe mandei, com o coração sangrando...

Jogo de palavras
Só conheço um sentimento mais forte que o amor-próprio : o próprio amor.

Os ossos do ofício
Pergunta-me um estudante de jornalismo se o ofício de escrever me dá prazer. Escrever, não; ter escrito, sim . O ato em s i
é penoso . Quem tem apreço pela palavra, como eu tenho, sofre muito. A busca da palavra que seja, ao mesmo tempo, exata e musical, é um parto . Dói muito. O sangue ferventa. Ao fim de cada texto, mesmo um reles bilhete, dou um suspiro de alívio . Sinto-me como Julio Cortázar, para quem o ofício de escrever é esticar o arco até o limite máximo ; disparada a flecha, vai-se tomar vinho com os amigos . . . Por sua vez, o doutor Johnson dizia que só um desmiolado escreve por prazer. . .Um dia, Paul Valéry passeava com André Gide, no jardim botânico de Montpellier.
- A mim - confessa Gide - se me impedissem de escrever, eu me mataria.
- Pois a mim - responde Valéry se me obrigassem a escrever, eu me mataria.


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