Imprensa, meio ambiente e belo monte de porcarias

Imprensa, meio ambiente e belo monte de porcarias

Atualizado em 04/05/2010 às 20:05, por Wilson da Costa Bueno.

A previsão é catastrófica: se o vazamento do petróleo no Golfo do México não puder ser contido, cerca de 15 milhões de litros serão despejados na costa da Louisiana, provocando um dos maiores desastres ambientais do planeta, talvez inferior apenas ao de 21 anos atrás, no Alasca, com o navio Exxon Valdez, que poluiu 1,6 mil quilômetros de costa.
Em tempos de sustentabilidade, nada poderia ser pior. Mas, como sempre, tragédias como essa têm um sentido pedagógico e ajudam a compreender alguns fenômenos, alguns desvios de conduta e sobretudo deixam claro que corremos riscos efetivos com alguns processos industriais. O petróleo, que contribui decisivamente, pelo seu uso, para o aquecimento global também incorpora, em seu processo de produção e distribuição, riscos reais e quase sempre de conseqüências dramáticas. O mesmo se aplica à agroquímica (que emporcalha nosso solo, ar e água), ao amianto (vamos bani-lo rapidamente daqui como já fizeram muitas países) ao tabaco (que provoca a poluição interior e mata milhões sem dó), à mineração (que cava buracos e esgota, muitas vezes, gananciosamente, os recursos naturais) e por aí vai, num desfilar de setores que são, por excelência, insustentáveis, predadores, inimigos contumazes da natureza e da saúde.
O acidente da BP (British Petroleum) também escancara o relacionamento espúrio entre grandes corporações e o poder político. A legislação americana limita, por exemplo, em 75 milhões de dólares a indenização total paga pelas companhias em caso de problemas como esse, num claro favorecimento aos que predam o meio ambiente, visto que, pelos cálculos iniciais, as perdas econômicas devem chegar a bilhões de dólares. Ou seja, de novo a conta vai recair sobre o bolso dos cidadãos que custearão a besteira da petrolífera.
Nada de novo, se a gente extrapolar este fato para outros setores, porque, na prática, o SUS, que é pago por todos nós, acaba tendo um prejuízo imenso pelas internações provocadas pelo tabaco, pelos agrotóxicos, pelo combustível sujo (será que a Petrobras vai resolver logo o problema ou vamos continuar morrendo nas metrópoles por causa da sua gasolina, uma das mais sujas do mundo?) e pela falta de saneamento e de água limpa etc etc.
Mas é importante que a gente não fique - a imprensa brasileira adora ser pautada por agências internacionais - a reboque do que acontece lá fora, tapando por aqui o sol com a peneira. Há problemas não menos graves ocorrendo à nossa frente e é odioso perceber que empresas e autoridades fecham os olhos para não contemplarem outros desvios, outros abusos, outros crimes ambientais.
Sabemos, por exemplo, que os frigoríficos não cumpriram a meta ambiental acertada com os órgãos de fiscalização e ainda estão longe de rastrear todos os seus fornecedores, muitos dos quais desmatando ilegalmente na Amazônia. Pedem mais tempo, sempre mais tempo, a mesma toada cínica da bancada parlamentar que protege latifundiários e detona a legislação ambiental (você vai votar nessa gente que dá as costas ao meio ambiente para proteger seus lucros?).
Estamos ainda assistindo ao desenrolar desta novela mal cheirosa da hidrelétrica de Belo Monte, que, com a alegação de resolver o problema energético brasileiro ( o que não é verdade), estará comprometendo área imensa, afrontando a biodiversidade e a sóciodiversidade, penalizando minorias em detrimento de interesses políticos e empresariais.
A gente sabe, todo mundo sabe (você leu sobre a denúncia - mais uma - de escândalo nas licitações da Petrobrás, envolvendo construtoras conhecidas?) que a implantação de grandes obras gira bilhões de reais e que esse processo costuma ser nada transparente, com denúncias e suspeições fervilhando a cada momento. E a gente que gosta da Petrobras, orgulho nacional e a marca mais valiosa do país, só pode ficar triste com tanta denúncia girando em torno dela, mas ninguém duvida da interferência política e da gestão nem sempre competente que a tem caracterizado nos últimos anos.
Belo Monte parece ser um elefante branco bancado pelo Governo que, nos próximos anos, terá que conviver com ele, assim como terá bancar outros elefantes brancos como os estádios e a estrutura para a Copa do Mundo e as Olimpíadas que, pelas primeiras estimativas, tenderão a custar n vezes mais do que o previsto. De novo, vem chumbo grosso no bolso dos cidadãos, agora nós mesmos, que pagaremos esta conta com impostos e mudança de prioridades. Afinal de contas, arquibancadas de futebol valem mais do que escolas, ensino de qualidade, hospitais, moradia digna e saneamento?
A encrenca não para por aí: as grandes cidades brasileiras não têm mais onde jogar o seu lixo e estão deslocando os seus resíduos tóxicos, sua sujeira para municípios vizinhos, criando lixões a céu aberto, tentando esconder uma realidade que está flagrante porque toneladas de porcaria cheiram muito e não é possível escondê-las sob o tapete, como a corrupção na capital brasileira.
A política de saneamento, apesar do discurso oficial, continua tímida, insuficiente para dar conta das necessidades prementes das comunidades que vêem suas crianças ainda morrendo pela exposição franca ao esgoto e à ausência de água potável. Mesmo em época eleitoral, a situação não se modifica porque para os políticos o mais importante é construir em cima da terra, com placas douradas, que facilitam as fotos e imagens que irão enfeitar os programas tediosos durante a campanha de final de ano.
Nesse cenário nada confortável não surpreendem as notícias de que a indústria da mineração deverá ter investimentos de 54 bilhões de dólares até 2014, de que as montadoras esperam aumentar em muito a sua capacidade de produção, de que a China e outros países estão louquinhos para implantar por aqui suas plantas industriais insustentáveis e de que a indústria de biotecnologia e da saúde avançam ferozmente sobre a terra brasileira.
É preciso avaliar estas notícias, muitas vezes assumidas como positivas - as editoras de economia dos nossos veículos vêem sempre cifrões e nunca o impacto socioambiental dos grandes projetos industriais - porque, no fundo, elas prenunciam desastres futuros, riscos inimagináveis para o meio ambiente.
Em artigo anterior, defendemos a politização do jornalismo ambiental que continua ainda tratando de temas sérios com pouca seriedade, abrindo mão de sua capacidade investigativa e muitas vezes pautado por fontes oficiais, sejam elas dos governos ou das empresas. Há exceções, e reconhecemos isso, mas a falta de formação adequada em nossos cursos de Jornalismo acaba contribuindo para essa visão cosmética da questão ambiental, essa mania de tratar feridas amplas com band-aid e merthiolatte, quando a situação exige bisturi afiado.

Que o crime ambiental da BP (Bela Porcaria, hein?) nos deixe mais espertos por aqui (também já tivemos plataformas que afundaram, com vítimas fatais inclusive, e é possível resgatar a tragédia humana e ambiental da Vila Socó - alguém já esqueceu?) e que as autoridades reforcem a vigilância sobre setores potencialmente perigosos.
Está na hora de tomarmos medidas sérias para evitar que milhares de caminhões, transportando produtos químicos inflamáveis e explosivos, continuem cruzando o coração de nossas cidades, uma ameaça ambulante que ninguém consegue (ou quer) evitar.
A imprensa precisa exercer o seu papel e não pode, como parece irá fazer mais uma vez diante deste tenebroso crime ambiental, deixar a peteca cair depois que aparentemente o espetáculo se encerrar (desastres ambientais como este provocado pela BP não acabam nunca e deixam seqüelas para toda a vida do planeta).
O negócio é pegar duro contra os predadores, repudiar o marketing verde (como acabou a interdição dos agrotóxicos pela ANVISA nas fábricas da Bayer, Basf e Syngenta, hein?), obedecer ao princípio da precaução (diga sim à rotulagem dos transgênicos!) e aplicar multas pesadas que deverão ser pagas de verdade ( no Brasil, elas prescrevem com a Justiça lenta e falha).
Sustentabilidade já. Espírito investigativo já. Chega de passar a mão na cabeça de empresários inescrupulosos e de dar voto para políticos e autoridades que, com sua omissão e cumplicidade, contribuem para a agressão recorrente contra o meio ambiente.