Imprensa laboratório: Um jornal para chamar de seu
Imprensa laboratório: Um jornal para chamar de seu
Mais que preparar os alunos para o mercado de trabalho, os jornais laboratórios são o cartão de visita das faculdades de comunicação. Em muitos casos, a produção dos estudantes é referência para a comunidade e circula na praça em pé de igualdade com publicações profissionais.
A primeira reportagem a gente nunca esquece. Ainda mais quando ela é publicada em um jornal de verdade, com periodicidade regular e boa distribuição. Com a expansão acelerada das faculdades de jornalismo - já existem 245 no Brasil, segundo dados do MEC - os jornais laboratórios se tornaram o cartão de visitas dos cursos. Mais que preparar os alunos para o mercado de trabalho, os veículos produzidos na sala de aula estão cada vez bem acabados e inseridos na comunidade. Pelo menos nas instituições que levam a sério a premissa de ensinar na prática, o investimento na produção laboratorial extrapola as determinações burocráticas do Ministério da Educação, que exige a publicação, dentro de determinada periodicidade, de um produto impresso.
"Para cumprir um papel pedagógico e cientifico, o jornal - laboratório precisa se constituir como um processo. Precisa legitimar formatos inovadores no campo gráfico e editorial, estimulando a experimentação e a criatividade", afirma a declaração final do I Encontro dos Jornais Laboratório dos Cursos de Jornalismo de Santa Catarina, realizado em maio último. E por falar em Santa Catarina, vem de lá um dos exemplos mais bem sucedidos de jornal laboratório do país, o Zero . Produzido por alunos da Universidade Federal de Santa Catarina desde 1982, Zero é uma das publicações mais antigas e premiadas do gênero. Durante a maior parte dos seus vinte e dois anos de existência, o jornal foi executado sem qualquer ligação com a grade curricular, o que possibilitava que os alunos, mesmo na fase inicial do curso, pudessem participar de sua elaboração. Esse era o diferencial em relação à maioria dos cursos de jornalismo, onde, em geral, os alunos só podiam participar do jornal-laboratório nos anos finais da faculdade. Outra marca de Zero é a total independência em relação as instâncias superiores e até mesmo ao departamento de jornalismo da universidade.
Atualmente o jornal é vinculado á grade curricular e equivale a uma disciplina para os alunos do 5º semestre. Mas todos os estudantes interessados podem participar, independente do ano. "Foi aqui que aprendi a fazer jornal. Acredito que, depois do Zero , estou preparado para encarar qualquer redação", diz Wendel Martins, estudante do penúltimo semestre e coordenador do jornal. Com periodicidade mensal, a tiragem do Zero é de 5.000 exemplares, distribuídos por mala direta para universidades e diretórios acadêmicos de todo país.
Estilos e tiragens
Pelas regras do MEC toda faculdade de jornalismo deve Ter, pelo menos, um jornal laboratório produzido por alunos e com oito edições anuais de circulação. Não existe uma punição direta para quem não cumprir a regra, mas, na hora da avaliação do ministério para definir o conceito do curso, o quesito jornal laboratório conta pontos preciosos.
O estilo e a relação acadêmica do jornal com a grade curricular varia muito dependendo da instituição. Na Faculdade Cásper Líbero, a primeira do país em jornalismo, a menina dos olhos dos alunos é a revista Esquinas de São Paulo , com quase dez anos de estrada, mas que raramente consegue cumprir as oito edições anuais. Apesar de não circular com uma periodicidade definida, Esquinas já ganhou diversos prêmios jornalísticos, como o Expcom e o Orgulho Gay. E é considerada em encontros e congressos uma referência para alunos de comunicação. Quando foi criada, em 1995, Esquinas tinha apenas 12 páginas e uma temática repetitiva, voltada para moradores de rua. Em 1996, sob a batuta do professor Marcos Faerman, a revista passou por uma reformulação geral: aumentou o número de páginas e ampliou o leque de pautas. No seu auge, Esquinas chegou a Ter triagem de 5.000 exemplares, mas atualmente, por problemas financeiros, está rodando 2.000.
Apesar da revista não fazer parte da grade curricular, é grande o interesse do alunado em participar da produção. "Na última "reunião de tema", 70 alunos apareceram. Decidimos, em assembléia, qual será a temática da próxima edição. Mesmo não valendo nota, a participação dos alunos tem crescido a cada novo número", conta o professor responsável da revista, Igor Fuser.
Com estilo oposto, o jornal laboratório da Universidade Metodista, o Rudge Ramos Jornal está há 20 anos na praça e concorre em pé de igualdade com outras publicações locais. Para viabilizar a tiragem semanal de 25 mil exemplares, o jornal conta com um departamento comercial independente do curso. E com uma redação fixa, formada por estudantes que recebem uma ajuda de custo de R$ 4,24 e se revezam a cada semestre. "No Rudge os alunos vivem a experiência real de uma redação. A comunidade cobra, interage, reclama e elogia. E os estudantes se deparam com situações chaves do jornalismo, como relação com fonte, responsabilidade social e checagem da apuração", afirma o professor Rodolfo Martino, diretor do jornal.
Outra experiência digna de nota é a da UNISANTA, de Santos, que produz, á oito anos, mensalmente, o jornal Primeira Impressão . Com 16 páginas e capa colorida, o periódico santista vai na mesma linha do Rudge e é entregue nas bancas da cidade, onde é distribuído gratuitamente. "Se Faculdade de Medicina tem que Ter hospital, de jornalismo tem que Ter um jornal", sentencia o professor Robsom Bastos, coordenador do Primeira Impressão .
Afinal, nada melhor que um jornal para chamar de seu.






