IMPRENSA inicia série sobre jornalistas que trabalham na madrugada
IMPRENSA inicia série especial sobre profissionais que fazem da madrugada o seu dia de trabalho e não deixam que nenhuma notícia passe despercebida.
Atualizado em 05/07/2011 às 11:07, por
Luiz Gustavo Pacete.
inicia série especial sobre profissionais que fazem da madrugada o seu dia de trabalho e não deixam que nenhuma notícia passe despercebida. Na estreia, a rotina de quem passa a noite conversando com fiéis ouvintes É uma atípica noite de abril para Adriano Barbiero. O apresentador adiantou seu expediente na Rádio Capital AM 1040 em uma hora. O motivo foi o atentado ocorrido no colégio Tasso da Silveira, localizado no Realengo (RJ), no dia anterior, notícia que já se desdobra em toda a imprensa nacional e internacional. Nesta madrugada, a jornada do radialista, que diariamente é da 1h às 8h, deve dobrar. Nas três primeiras horas do "dia", Barbiero repercute o assunto no "Acorda São Paulo", programa que mescla música, notícia e bate-papo com ouvintes da capital paulista. Depois repete, no hard news "Verdade Capital", atração destinada a um público que está saindo de casa para o trabalho. Amiga do café, a reportagem de IMPRENSA também madruga ao lado do radialista.
Crédito: Adriano Barbiero A pasta branca em cima da mesa de Barbiero guarda as notas que foram produzidas por uma equipe de repórteres e produtores que trabalhou durante a noite e o dia anterior. No período da madrugada, dos seis profissionais que se dedicam a mas, somente três estão trabalhando no estúdio de fato: Barbiero na apresentação, Jonny Santos na mesa de áudio e Leonardo Oliveira, da central técnica. "Às vezes, montamos uma dinâmica que dá a impressão de que uma grande equipe de repórteres está ao vivo. Mas na verdade tudo foi gravado antes", diz. O radialista dá início ao programa com um bordão característico de apresentadores populares: "Eeeeuuu tô aqui!".
Não é qualquer estúdio este em que Barbiero comanda os jornalísticos da madrugada. Nele, grandes nomes do rádio trabalham durante o dia, como Paulinho Boa Pessoa, José Carlos Gomes e Eli Correa, campeão de audiência da emissora. Barbiero está na rádio Capital há cinco anos. Antes, passou pela Rádio América de São Paulo, Rádio Trianon AM e Rádio 9 de Julho. Na atual emissora, ele começou como repórter, mas, após o apresentador titular da madrugada ter passado por um sério problema de saúde, foi escalado para assumir o comando do horário.
Além de radialista por formação, Barbiero também é músico, o que ajuda no repertório na hora de comandar o "Acorda São Paulo". "Sou filho de radialista e convivi com esse ambiente. Acho que foi natural ter optado por essa profissão, acho muito interessante poder interagir com o ouvinte e esse é um perfil importante dos nossos programas", avalia. Seu pai, o jornalista paranaense Altieris Barbiero, já atuou em rádios como Cultura e Globo e, muitas vezes, é lembrado pelos próprios ouvintes do filho, que associam os sobrenomes.
ATENÇÃO NO AR Ao revisar as matérias separadas, as notícias sobre o atentado no Rio de Janeiro tomam quase todo o espaço do espelho do programa. Mas além das factuais, outras notas equilibram o noticiário. Entre elas, a informação de que o governo do Mato Grosso do Sul estava distribuindo "valepeixe"; outra diz que, em Fortaleza (CE), uma rede de cinemas foi obrigada a indenizar uma gestante que não teve preferência na fila. "Não podemos deixar de dar atenção ao Nordeste, pois grande parte de nossa audiência em São Paulo é composta por pessoas daquela região", afirma.
Barbiero aponta também que sua audiência é especial e muito particular, formada de profissionais noturnos. O programa, inclusive, tem até uma vinheta especial para homenageá-los: "É roibido cochilar, você que é porteiro, faxineiro, borracheiro, médico, plantonista, motoboy, taxista, frentista, síndico, jornaleiro, cozinheiro e segurança fique ligado na Rádio Capital e não cochile", lê o locutor à 1h25.
Como seu público não é muito ligado e familiarizado com a internet, Barbiero conta que recebe muitos e-mails de ouvintes redigidos por seus filhos ou netos. "A interação é mais por telefone. Dificilmente nosso ouvinte está na frente do computador durante a madrugada",explica. Nesse momento, seu celular toca e ele mostra a mensagem SMS que acaba de receber do ouvinte Sérgio Braga, 50 anos, fiscal de ônibus da Viação Itaim. O apresentador liga de volta. Em poucos minutos, Braga fala também com IMPRENSA: "Eu acompanho sempre o programa. Gosto muito de rádio, sempre quis trabalhar na área, fiz até um curso para ser locutor, mas acabou não dando certo", diz. Barbiero aproveita para contar que o fiscal já trouxe para ele uma feijoada no meio da madrugada. "Ele e mais um colega passaram aqui e deixaram a marmita. Eu comi mesmo sendo 4h da manhã", diz rindo.
Para o apresentador, o horário da madrugada pega o ouvinte em um momento que ele está sozinho. Logo, a identificação e o senso de proximidade acabam sendo maiores. "As histórias são muitas. Uma vez uma senhora pediu para eu pagar uma conta de luz dela. Não paguei, mas disse 'não' com muito jeito. Em outra ocasião, uma ouvinte do Japão que escuta a rádio pela internet me mandou uma blusa", lembra. Há, inclusive, ouvintes que ligam na esperança de encontrar um parceiro, quem sabe? O senhor Gilvan Pereira, 50 anos, por exemplo, liga à 1h55 e diz que está carente. "Eu até concordo que no programa do início da manhã, em que o foco é notícia, fica mais difícil você dar maior atenção aos ouvintes. Agora, no começo da noite já é mais tranquilo", conta. Apesar da audiência cativa e fiel, Barbiero afirma que a rádio AM demorou para se reciclar. "Eu sou um dos locutores mais jovens do rádio AM. Acho que essa frequência se renova, mas de forma muito lenta", analisa o radialista. Com 30 anos, seu jeito jovem, simpático e o bom papo que tem com os ouvintes o levaram a realizar encontros anuais em São Paulo. O último reuniu 300 pessoas. Ele lembra que o contato com o público ultrapassa barreiras. "Apesar de a emissora estar em São Paulo, temos audiência em diversos estados". Nesse instante liga um ouvinte de Santa Rita do Sapucaí (MG).
CARANDIRU O relógio digital no alto do estúdio marca 3h30 e a vinheta anuncia o início do programa "Verdade Capital". A chamada é diferente. O clima sai do aconchego da madrugada e parte para a agitação do início da manhã. "Agora é a vez do hard news", lembra Barbiero. Às 4h10 chega o repórter Cid Barbosa, 51 anos, que vai direto ao telefone ver o que está acontecendo: "Na hora em que eu chego tudo já está bombando,é assalto, acidente, prisões etc. Bato meu cartão e já entro ao vivo. Dependendo da encrenca que está acontecendo na cidade, já vou direto,nem passo na redação", conta. O experiente repórter já passou por grandes rádios de notícias,como a CBN. Foi lá que ele furou vários jornalistas e deu em primeira mão o Massacre do Carandiru, em 1992. "Esse furo, um trunfo da minha carreira, foi justamente por trabalhar de madrugada. Eu consegui ter acesso às informações na redação e fui para a rua, antes mesmo de muitos outros colegas acordarem", brinca.
Após a primeira entrada por telefone, Barbosa liga para a Polícia Militar. Conversa com um sargento que, de forma rotineira, já lhe passa as informações do que aconteceu durante a noite. Com as atualizações da polícia, o repórter faz uma nova entrada e anuncia a detenção de um homem pego com cocaína. "Acabei virando um cara da noite, apesar de ser pauleira, gosto do trabalho", conta. Olhando para o relógio, Barbosa diz apressadamente: "Já era para eu ter saído! Agora vou ligar para a CET e ir para a rua".
Nessa hora, a equipe de IMPRENSA se despede de Barbosa e encerra o "expediente". Ao descer o elevador rumo à porta de saída, ali está o motorista da rádio lendo o jornal e aguardando o repórter.
Nas próximas seis horas, eles serão uma dupla inseparável. Às 5h30, Barbiero deixa o estúdio. É o único momento em que consegue parar e tomar um café. Sobe para a redação e, com o sol no horizonte, inicia mais uma jornada de trabalho, agora como apurador. Também sem cochilar.
*Matéria publicada na edição de julho (269) da Revista IMPRENSA
Crédito: Adriano Barbiero A pasta branca em cima da mesa de Barbiero guarda as notas que foram produzidas por uma equipe de repórteres e produtores que trabalhou durante a noite e o dia anterior. No período da madrugada, dos seis profissionais que se dedicam a mas, somente três estão trabalhando no estúdio de fato: Barbiero na apresentação, Jonny Santos na mesa de áudio e Leonardo Oliveira, da central técnica. "Às vezes, montamos uma dinâmica que dá a impressão de que uma grande equipe de repórteres está ao vivo. Mas na verdade tudo foi gravado antes", diz. O radialista dá início ao programa com um bordão característico de apresentadores populares: "Eeeeuuu tô aqui!".
Não é qualquer estúdio este em que Barbiero comanda os jornalísticos da madrugada. Nele, grandes nomes do rádio trabalham durante o dia, como Paulinho Boa Pessoa, José Carlos Gomes e Eli Correa, campeão de audiência da emissora. Barbiero está na rádio Capital há cinco anos. Antes, passou pela Rádio América de São Paulo, Rádio Trianon AM e Rádio 9 de Julho. Na atual emissora, ele começou como repórter, mas, após o apresentador titular da madrugada ter passado por um sério problema de saúde, foi escalado para assumir o comando do horário.
Além de radialista por formação, Barbiero também é músico, o que ajuda no repertório na hora de comandar o "Acorda São Paulo". "Sou filho de radialista e convivi com esse ambiente. Acho que foi natural ter optado por essa profissão, acho muito interessante poder interagir com o ouvinte e esse é um perfil importante dos nossos programas", avalia. Seu pai, o jornalista paranaense Altieris Barbiero, já atuou em rádios como Cultura e Globo e, muitas vezes, é lembrado pelos próprios ouvintes do filho, que associam os sobrenomes.
ATENÇÃO NO AR Ao revisar as matérias separadas, as notícias sobre o atentado no Rio de Janeiro tomam quase todo o espaço do espelho do programa. Mas além das factuais, outras notas equilibram o noticiário. Entre elas, a informação de que o governo do Mato Grosso do Sul estava distribuindo "valepeixe"; outra diz que, em Fortaleza (CE), uma rede de cinemas foi obrigada a indenizar uma gestante que não teve preferência na fila. "Não podemos deixar de dar atenção ao Nordeste, pois grande parte de nossa audiência em São Paulo é composta por pessoas daquela região", afirma.
Barbiero aponta também que sua audiência é especial e muito particular, formada de profissionais noturnos. O programa, inclusive, tem até uma vinheta especial para homenageá-los: "É roibido cochilar, você que é porteiro, faxineiro, borracheiro, médico, plantonista, motoboy, taxista, frentista, síndico, jornaleiro, cozinheiro e segurança fique ligado na Rádio Capital e não cochile", lê o locutor à 1h25.
Como seu público não é muito ligado e familiarizado com a internet, Barbiero conta que recebe muitos e-mails de ouvintes redigidos por seus filhos ou netos. "A interação é mais por telefone. Dificilmente nosso ouvinte está na frente do computador durante a madrugada",explica. Nesse momento, seu celular toca e ele mostra a mensagem SMS que acaba de receber do ouvinte Sérgio Braga, 50 anos, fiscal de ônibus da Viação Itaim. O apresentador liga de volta. Em poucos minutos, Braga fala também com IMPRENSA: "Eu acompanho sempre o programa. Gosto muito de rádio, sempre quis trabalhar na área, fiz até um curso para ser locutor, mas acabou não dando certo", diz. Barbiero aproveita para contar que o fiscal já trouxe para ele uma feijoada no meio da madrugada. "Ele e mais um colega passaram aqui e deixaram a marmita. Eu comi mesmo sendo 4h da manhã", diz rindo.
Para o apresentador, o horário da madrugada pega o ouvinte em um momento que ele está sozinho. Logo, a identificação e o senso de proximidade acabam sendo maiores. "As histórias são muitas. Uma vez uma senhora pediu para eu pagar uma conta de luz dela. Não paguei, mas disse 'não' com muito jeito. Em outra ocasião, uma ouvinte do Japão que escuta a rádio pela internet me mandou uma blusa", lembra. Há, inclusive, ouvintes que ligam na esperança de encontrar um parceiro, quem sabe? O senhor Gilvan Pereira, 50 anos, por exemplo, liga à 1h55 e diz que está carente. "Eu até concordo que no programa do início da manhã, em que o foco é notícia, fica mais difícil você dar maior atenção aos ouvintes. Agora, no começo da noite já é mais tranquilo", conta. Apesar da audiência cativa e fiel, Barbiero afirma que a rádio AM demorou para se reciclar. "Eu sou um dos locutores mais jovens do rádio AM. Acho que essa frequência se renova, mas de forma muito lenta", analisa o radialista. Com 30 anos, seu jeito jovem, simpático e o bom papo que tem com os ouvintes o levaram a realizar encontros anuais em São Paulo. O último reuniu 300 pessoas. Ele lembra que o contato com o público ultrapassa barreiras. "Apesar de a emissora estar em São Paulo, temos audiência em diversos estados". Nesse instante liga um ouvinte de Santa Rita do Sapucaí (MG).
CARANDIRU O relógio digital no alto do estúdio marca 3h30 e a vinheta anuncia o início do programa "Verdade Capital". A chamada é diferente. O clima sai do aconchego da madrugada e parte para a agitação do início da manhã. "Agora é a vez do hard news", lembra Barbiero. Às 4h10 chega o repórter Cid Barbosa, 51 anos, que vai direto ao telefone ver o que está acontecendo: "Na hora em que eu chego tudo já está bombando,é assalto, acidente, prisões etc. Bato meu cartão e já entro ao vivo. Dependendo da encrenca que está acontecendo na cidade, já vou direto,nem passo na redação", conta. O experiente repórter já passou por grandes rádios de notícias,como a CBN. Foi lá que ele furou vários jornalistas e deu em primeira mão o Massacre do Carandiru, em 1992. "Esse furo, um trunfo da minha carreira, foi justamente por trabalhar de madrugada. Eu consegui ter acesso às informações na redação e fui para a rua, antes mesmo de muitos outros colegas acordarem", brinca.
Após a primeira entrada por telefone, Barbosa liga para a Polícia Militar. Conversa com um sargento que, de forma rotineira, já lhe passa as informações do que aconteceu durante a noite. Com as atualizações da polícia, o repórter faz uma nova entrada e anuncia a detenção de um homem pego com cocaína. "Acabei virando um cara da noite, apesar de ser pauleira, gosto do trabalho", conta. Olhando para o relógio, Barbosa diz apressadamente: "Já era para eu ter saído! Agora vou ligar para a CET e ir para a rua".
Nessa hora, a equipe de IMPRENSA se despede de Barbosa e encerra o "expediente". Ao descer o elevador rumo à porta de saída, ali está o motorista da rádio lendo o jornal e aguardando o repórter.
Nas próximas seis horas, eles serão uma dupla inseparável. Às 5h30, Barbiero deixa o estúdio. É o único momento em que consegue parar e tomar um café. Sobe para a redação e, com o sol no horizonte, inicia mais uma jornada de trabalho, agora como apurador. Também sem cochilar.
*Matéria publicada na edição de julho (269) da Revista IMPRENSA






