Imprensa foi "preguiçosa" nas pautas sobre acordo ortográfico, diz Professor Pasquale

Grupo Técnico de Trabalho (GTT) promove debates para aperfeiçoar as normas do acordo ortográfico. Pasquale defende uma “reforma na reforma”

Atualizado em 26/08/2014 às 16:08, por Christh Lopes*.

Nas últimas semanas, a educação foi um tema bastante discutido na imprensa brasileira após vir à tona supostas propostas do Senado em promover mudanças que simplifiquem o emprego das regras gramaticais no país.


Crédito:Divulgação Para Pasquale Cipro Neto, imprensa foi preguiçosa em apurar projeto de revisão da ortografia


Com a polêmica instalada e seu nome envolvido no caso, o professor de português e colunista da Folha de S.Paulo Pasquale Cipro Neto revela que uma comissão de parlamentares criou um grupo técnico para aperfeiçoar o novo acordo ortográfico, cuja finalidade é corrigir os erros até sua implantação.


Crítico à mudança determinada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o docente reitera que não há nenhuma mudança na regra gramatical em tramitação no Senado e ainda criticou parte da mídia por fazer alarde sobre isso.


“Não há nenhuma proposta em andamento, não há nada. Tudo para variar, resulta de parte ‘preguiçosa’ da imprensa que não lê, que atira para qualquer lado e que sai divulgando bobagens. Agora está plantada essa coisa horrorosa, até o meu nome está envolvido nisso. A história é completamente diferente”, destaca.


Segundo Pasquale Cipro Neto, tudo começou com o decreto assinado por Lula em setembro de 2008, que colocava em vigor as novas normas no ano seguinte, com carência de quatro anos para ser efetivamente implantada.


A medida visava resgatar o acordo feito nos meados dos anos 90, em que os países lusófonos se comprometeram a trabalhar pela unificação da língua portuguesa. Com destaque às imperfeições que poderiam ser empregadas a partir do uso destas normas, o docente escreveu uma série de artigos criticando o projeto. Em 2012, ele foi chamado pelo Senado para apresentar sua visão.


“Eu fui ao Senado e disse o que pensava. Mostrei todos os problemas, as incoerências, as adequações e, diante disso, a comissão [de educação do Senado] se sensibilizou e levou a questão até a Casa Civil, ou seja, passando do Poder Legislativo para o Executivo. No fim das contas, a presidente Dilma assinou, no final de 2012, uma lei que prorrogou a entrada em vigor definitiva da nova norma”.


Na ocasião, a presidente Dilma definiu que deveriam ser feitos debates e propostas para que o texto oficial fosse aperfeiçoado. Em razão disso, a comissão de Educação criou um Grupo Técnico de Trabalho, chamado de GTT, integrado e coordenado por Pasquale Cipro Neto e Ernani Pimentel, idealizador do “Simplificando a Ortografia”.


A ideia deste GTT é coordenar os trabalhos apresentados que discutam maneiras de aperfeiçoar o acordo. “Nós vamos receber as propostas de quem quiser, as quais serão debatidas em audiências públicas transmitidas pela TV Senado”, afirma.


“Não há nada tramitando e a imprensa já diz que [Pimentel] apresentou um projeto eliminando o 'h', o 'ch', o 'c' com cedilha, ou seja, o galo cantou. Onde ele cantou? A gente não sabe. (...) O senador Cyro Miranda não apresentou projeto de lei nenhum”, destaca Pasquale.


O professor explica que, embora teoricamente a nova norma seja para todos os países lusófonos, na prática, só o Brasil colocou em vigor. Na avaliação de Pasquale Cipro Neto, a finalidade da comissão é justamente tentar disciplinar o acordo, dar um norte à convenção. “Vamos limpar o texto das barbaridades e criar uma linguagem compreensível, porque o que existe lá é uma mentira. Aquilo lá é inensinável - pois há uma contradição atrás da outra. Vamos a discussão e aperfeiçoar o texto”, garante.



Cobertura “preguiçosa”


O erro da cobertura do caso ocorreu, segundo o colunista da Folha , porque diversos veículos divulgaram apenas uma das propostas que devem ser apresentadas no Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, realizado em Brasília nos dias 10, 11 e 12 de setembro. De autoria do professor Ernani Pimentel, o projeto prevê mudanças mais “radicais” na ortografia, para simplificar seu uso.


A relevância do projeto de Pimentel se dá por ele ser um dos coordenadores do Grupo Técnico de Trabalho (GTT) da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado. Assim, os jornalistas atribuem sua proposta como se fosse a do GTT. Ao lado de Pasquale, o docente está encarregado de avaliar todas as propostas colocadas em debate, bem como promover suas ideias para que sejam discutidas.


Como trata-se de um simpósio internacional, Pasquale também deve apresentar uma ideia para a língua portuguesa no Brasil. “A minha proposta básica é transformar o texto do acordo [ortográfico] racional, em algo que não contenha contradições”, afirma.


Embora defenda uma revisão das normas empregadas no novo acordo, Pasquale garante que está aberto ao diálogo e ouvirá com atenção todos os projetos apresentados no simpósio. “Se alguém tiver outra proposta, provar que é possível simplificar o passo 'x', a gente coloca em debate. Mas a minha proposta básica é reformar a reforma. Pelo jeito que está, hoje é impossível alguém ensinar ortografia no Brasil”, salienta.


Sobre a cobertura deste episódio, o professor considera que parte da mídia fez uma cobertura “preguiçosa”, agindo de maneira semelhante ao das pessoas nas redes sociais. “Não leem tudo. Eu já vi isso. No texto, o sujeito lê uma ponta e sai escrevendo aquela bobajada. A imprensa foi mais uma vez, nesse aspecto, irresponsável”.


Em comunicado, o senador Cyro Miranda (PSDB-GO), presidente da Comissão, também fez questão de desmentir os boatos de que o projeto será apresentado como uma nova proposta de reforma da língua portuguesa. O que o grupo de trabalho tem feito no Senado é apenas discutir as mudanças, sem ainda oficializar qualquer proposta de lei.


Simplificar é uma questão complexa


Na avaliação de Pasquale, a ideia de simplificar a ortografia é uma questão extremamente delicada, uma vez que as pessoas se opõem a qualquer ideia pelo simples fato de representar uma mudança. “As pessoas se esquecem de que a grafia mudou ao longo da história. Particularmente, acho que quanto mais se muda, mais problema a gente agrega para quem já está alfabetizado, o sujeito que fica no meio do meio do caminho”, diz.


“A reforma ortográfica é mais ou menos como garrafa pet, você sabe que ela jogada na natureza leva aproximadamente cem anos para se decompor e acontece algo semelhante na reforma ortográfica. O sujeito cria e depois convive. Não é a toa que até hoje restaurante de comida chinesa com 'z'”, ressalta Pasquale.


Por fim, o professor acredita que a reforma ortográfica deve ser resolvida de tal maneira que não volte mais ser discutida. “Que a faça uma de vez e esqueça o assunto. Nunca mais mexa nisso. É preciso um estudo rigoroso, para que não se caia na tentação barata de simplificar apenas por simplificar. Trocar seis por meia dúzia, um problema por outro”, conclui.


* Com supervisão de Vanessa Gonçalves