Imprensa, ética e empurroterapia
Imprensa, ética e empurroterapia
Atualizado em 13/08/2008 às 20:08, por
Wilson da Costa Bueno.
O cenário é aparentemente magnífico. Uma mesa farta, repleta de alimentos apetitosos mas transbordando de gordura, bebida à vontade e pessoas reunidas, com jeito de festa da família, sorridentes, despreocupadas.
Não, não se trata de uma cena real, mas de uma propaganda de remédio, que culmina sempre com a sugestão alimentarmente incorreta: faça o que tenha vontade, apenas tome um comprimido antes e outro depois (vale também tomar um líquido esverdeado de flaconetes mágicos!).
As pergunta óbvia que decorre da contemplação deste quadro nocivo é: mas o medicamento funciona mesmo? Pode encher a cara e o estômago que o remedinho resolve o problema?
A resposta, também óbvia, é: não caia nessa porque, se você se "empanturrar" como a propaganda sugere, estará com a saúde terrivelmente comprometida nas horas seguintes. Provavelmente, tomará um pileque daqueles porque ainda não inventaram comprimidinho ou flaconete para salvar os pinguços eventuais ou contumazes. Fosse assim, os que gostam de beber além da conta (seguindo a sugestão também nociva da indústria de bebidas) teriam arrumado um antídoto, uma vacina para enfrentar a bem sucedida Lei Seca.
Bom, mas se é propaganda enganosa, se não funciona, e ainda pode induzir os cidadãos a comportamentos não saudáveis por que ninguém proíbe que ela continue no ar?
Meu amigo, minha amiga. Eu, você e muita gente, pode crer, repete esta mesma pergunta o tempo todo, mas, ao que parece, por aqui não há alma viva que consiga dar uma explicação plausível para esta omissão imperdoável.
Não é um caso isolado, embora possa parecer acintoso demais, tamanha a desfaçatez da indústria farmacêutica, com a cumplicidade de muita gente, inclusive dos veículos de comunicação que, neste caso, são capazes de levantar a velha tese da "liberdade de expressão". A legislação é frouxa, não tem ninguém olhando para esses problemas, considerados talvez de menor importância. Como diz o ditado, o cão ladra e a caravana passa.
Sabe o que agências de propaganda, entidades de auto-regulação (a raposona esperta tomando conta do galinheiro), veículos e sobretudo anunciantes podem ainda complementar em defesa da sua tese libertária? O argumento é: os colegas que estão nos assistindo da poltrona têm o poder de discernimento e não vão engolir uma baboseira dessas. Será verdade? Se fosse verdade e se ninguém estivesse acreditando nessa farsa eletrônica, porque as empresas gastam tanto dinheiro anunciando soluções milagrosas em pleno horário nobre?
Trata-se de uma irresponsabilidade social levada a grau elevado, com a conivência de muita gente, das autoridades, e inclusive de todos nós que não botamos a boca no trombone para coibir tais abusos.
A empurroterapia é uma doença grave em nossa sociedade e é alimentada tanto pela indústria farmacêutica não responsável (isso significa que deve haver a responsável escondida em algum nicho) como pela mídia, pelas agências de comunicação/propaganda, pelos donos de farmácia (sabia que existe mais farmácia no Brasil do que padaria?) e mesmo por profissionais de saúde inescrupulosos (lógico, há felizmente muitos médicos comprometidos efetivamente com o nosso bem-estar) que estabelecem relações promíscuas com a indústria da saúde.
A sociedade brasileira toma remédio demais, sem ou com prescrição médica. Por isso, segundo recente reportagem de capa da Revista da Semana, as vendas cresceram 9% em 2007, com um faturamento de 10,3 bilhões de dólares. É mole?
O que muita gente não sabe, porque acredita no discurso grandiloquente dos laboratórios, é que eles investem mais em marketing do que em pesquisa, em sua maior parte voltado para os médicos, incluindo ações suspeitas, éticamente condenáveis como brindes, viagens e outras benesses.
Segundo dados do Centro de Controle e Prevenção para Doenças dos Estados Unidos, também citados na mesma Revista da Semana, 70% das consultas médicas terminam com a prescrição de algum medicamento, quando não pela recomendação de uma bateria imensa de exames de laboratório que geralmente têm resultado negativo mas engordam os bolsos do sistema, ávido por pessoas doentes (ou que pelos são convencidas a se imaginarem desta forma).
Na verdade, você já percebeu como cada vez mais as pessoas estão se sentindo doentes? Há uma hipocondria generalizada aqui e lá fora, fruto deste bombardeio promovido por interesses excusos, comandado por parcela significativa da indústria, respaldado por agências de comunicação, com a cumplicidade dos veículos, ansiosos por anúncios e parcerias, e jornalistas cada vez menos investigativos.
Os acidentes domésticos causados pela automedicação crescem a olhos vistos e eles se originam desta falta de perspectiva critica, da ausência de uma política pública (o atual governo tem sofrido pressão insuportável dos laboratórios, das empresas de agrotóxicos, das gigantes dos alimentos, de bebidas etc) que consiga reduzir bastante os indicadores negativos relacionados com a qualidade de vida. A Anvisa tem feito um excelente trabalho de monitoramento da propaganda de medicamentos e concluído pela recorrente burla à legislação, ao mesmo tempo em que tem se associado à Fiocruz para avaliar a toxidade dos agrotóxicos. Mas o lobby é poderoso, proporcional aos ganhos incalculáveis da indústria que aposta sempre na nossa doença.
Não é razoável - há até jornalista ou profissional de saúde que pensa assim -imaginar que a culpa é do cidadão, mesmo argumento utilizado pela indústria do tabaco e do álcool que prefere criminalizar o consumidor de seus produtos, lavando a mão literalmente depois do empenho em torná-lo viciado, bêbado etc. A culpa é de quem permite os abusos, de quem veicula os abusos e de quem paga para que os abusos estejam no ar, invadindo predadoramente a nossa sala de visita.
A responsabilidade social passa, necessariamente, pela propaganda ética, pela informação qualificada, pela intenção legítima de esclarecer e não de ludibriar o leitor, telespectador, radiouvinte ou internauta.
Talvez seja mesmo pedir demais para quem raciocina com o bolso e tem compromisso apenas com os seus lucros. Mas que estava na hora de dar um basta nessa "liberdade de expressão " às avessas, não há dúvida. Vamos coibir estes abusos eletrônicos e enquadrar o charlatanismo? Não esperemos que as entidades de auto-regulação tomem a iniciativa porque elas andam sempre a reboque dos grandes interesses (elas os representam) e só agem cosmeticamente quando percebem que o Governo ou a sociedade estão para colocar ordem no galinheiro.
Setores mobilizados e esclarecidos da sociedade é que precisam arregaçar as mangas e exigir dos que lucram à custa das fragilidades e das doenças alheias (algumas causadas pelos produtos vendidos sem controle) responsabilidade. Convenhamos, para alguns destes vilões, as algemas continuam sendo recomendadas. Ética já.

Não, não se trata de uma cena real, mas de uma propaganda de remédio, que culmina sempre com a sugestão alimentarmente incorreta: faça o que tenha vontade, apenas tome um comprimido antes e outro depois (vale também tomar um líquido esverdeado de flaconetes mágicos!).
As pergunta óbvia que decorre da contemplação deste quadro nocivo é: mas o medicamento funciona mesmo? Pode encher a cara e o estômago que o remedinho resolve o problema?
A resposta, também óbvia, é: não caia nessa porque, se você se "empanturrar" como a propaganda sugere, estará com a saúde terrivelmente comprometida nas horas seguintes. Provavelmente, tomará um pileque daqueles porque ainda não inventaram comprimidinho ou flaconete para salvar os pinguços eventuais ou contumazes. Fosse assim, os que gostam de beber além da conta (seguindo a sugestão também nociva da indústria de bebidas) teriam arrumado um antídoto, uma vacina para enfrentar a bem sucedida Lei Seca.
Bom, mas se é propaganda enganosa, se não funciona, e ainda pode induzir os cidadãos a comportamentos não saudáveis por que ninguém proíbe que ela continue no ar?
Meu amigo, minha amiga. Eu, você e muita gente, pode crer, repete esta mesma pergunta o tempo todo, mas, ao que parece, por aqui não há alma viva que consiga dar uma explicação plausível para esta omissão imperdoável.
Não é um caso isolado, embora possa parecer acintoso demais, tamanha a desfaçatez da indústria farmacêutica, com a cumplicidade de muita gente, inclusive dos veículos de comunicação que, neste caso, são capazes de levantar a velha tese da "liberdade de expressão". A legislação é frouxa, não tem ninguém olhando para esses problemas, considerados talvez de menor importância. Como diz o ditado, o cão ladra e a caravana passa.
Sabe o que agências de propaganda, entidades de auto-regulação (a raposona esperta tomando conta do galinheiro), veículos e sobretudo anunciantes podem ainda complementar em defesa da sua tese libertária? O argumento é: os colegas que estão nos assistindo da poltrona têm o poder de discernimento e não vão engolir uma baboseira dessas. Será verdade? Se fosse verdade e se ninguém estivesse acreditando nessa farsa eletrônica, porque as empresas gastam tanto dinheiro anunciando soluções milagrosas em pleno horário nobre?
Trata-se de uma irresponsabilidade social levada a grau elevado, com a conivência de muita gente, das autoridades, e inclusive de todos nós que não botamos a boca no trombone para coibir tais abusos.
A empurroterapia é uma doença grave em nossa sociedade e é alimentada tanto pela indústria farmacêutica não responsável (isso significa que deve haver a responsável escondida em algum nicho) como pela mídia, pelas agências de comunicação/propaganda, pelos donos de farmácia (sabia que existe mais farmácia no Brasil do que padaria?) e mesmo por profissionais de saúde inescrupulosos (lógico, há felizmente muitos médicos comprometidos efetivamente com o nosso bem-estar) que estabelecem relações promíscuas com a indústria da saúde.
A sociedade brasileira toma remédio demais, sem ou com prescrição médica. Por isso, segundo recente reportagem de capa da Revista da Semana, as vendas cresceram 9% em 2007, com um faturamento de 10,3 bilhões de dólares. É mole?
O que muita gente não sabe, porque acredita no discurso grandiloquente dos laboratórios, é que eles investem mais em marketing do que em pesquisa, em sua maior parte voltado para os médicos, incluindo ações suspeitas, éticamente condenáveis como brindes, viagens e outras benesses.
Segundo dados do Centro de Controle e Prevenção para Doenças dos Estados Unidos, também citados na mesma Revista da Semana, 70% das consultas médicas terminam com a prescrição de algum medicamento, quando não pela recomendação de uma bateria imensa de exames de laboratório que geralmente têm resultado negativo mas engordam os bolsos do sistema, ávido por pessoas doentes (ou que pelos são convencidas a se imaginarem desta forma).
Na verdade, você já percebeu como cada vez mais as pessoas estão se sentindo doentes? Há uma hipocondria generalizada aqui e lá fora, fruto deste bombardeio promovido por interesses excusos, comandado por parcela significativa da indústria, respaldado por agências de comunicação, com a cumplicidade dos veículos, ansiosos por anúncios e parcerias, e jornalistas cada vez menos investigativos.
Os acidentes domésticos causados pela automedicação crescem a olhos vistos e eles se originam desta falta de perspectiva critica, da ausência de uma política pública (o atual governo tem sofrido pressão insuportável dos laboratórios, das empresas de agrotóxicos, das gigantes dos alimentos, de bebidas etc) que consiga reduzir bastante os indicadores negativos relacionados com a qualidade de vida. A Anvisa tem feito um excelente trabalho de monitoramento da propaganda de medicamentos e concluído pela recorrente burla à legislação, ao mesmo tempo em que tem se associado à Fiocruz para avaliar a toxidade dos agrotóxicos. Mas o lobby é poderoso, proporcional aos ganhos incalculáveis da indústria que aposta sempre na nossa doença.
Não é razoável - há até jornalista ou profissional de saúde que pensa assim -imaginar que a culpa é do cidadão, mesmo argumento utilizado pela indústria do tabaco e do álcool que prefere criminalizar o consumidor de seus produtos, lavando a mão literalmente depois do empenho em torná-lo viciado, bêbado etc. A culpa é de quem permite os abusos, de quem veicula os abusos e de quem paga para que os abusos estejam no ar, invadindo predadoramente a nossa sala de visita.
A responsabilidade social passa, necessariamente, pela propaganda ética, pela informação qualificada, pela intenção legítima de esclarecer e não de ludibriar o leitor, telespectador, radiouvinte ou internauta.
Talvez seja mesmo pedir demais para quem raciocina com o bolso e tem compromisso apenas com os seus lucros. Mas que estava na hora de dar um basta nessa "liberdade de expressão " às avessas, não há dúvida. Vamos coibir estes abusos eletrônicos e enquadrar o charlatanismo? Não esperemos que as entidades de auto-regulação tomem a iniciativa porque elas andam sempre a reboque dos grandes interesses (elas os representam) e só agem cosmeticamente quando percebem que o Governo ou a sociedade estão para colocar ordem no galinheiro.
Setores mobilizados e esclarecidos da sociedade é que precisam arregaçar as mangas e exigir dos que lucram à custa das fragilidades e das doenças alheias (algumas causadas pelos produtos vendidos sem controle) responsabilidade. Convenhamos, para alguns destes vilões, as algemas continuam sendo recomendadas. Ética já.






