IMPRENSA comemora os 85 anos de Ruth Rocha; confira o perfil da escritora

A escritora Ruth Rocha completa 85 anos de vida nesta quarta-feira (2/3). A edição 307 da Revista IMPRENSA, de dezembro de 2014, traz u

Atualizado em 02/03/2016 às 16:03, por Vanessa Gonçalves e Alana Rodrigues.

Há 40 anos, a escritora Ruth Rocha decidiu contar histórias para crianças e transformou-se na companheira perfeita para aprender a gostar de ler

A escritora Ruth Rocha completa 85 anos de vida nesta quarta-feira (2/3). A edição 307 da Revista IMPRENSA , de dezembro de 2014, traz um perfil da autora que transformou suas histórias nas aventuras de crianças mundo afora.

Crédito:Alf Ribeiro Ruth Rocha posa ao lado de seus livros em casa
Senta que lá vem história

Era uma vez uma menina chamada Ruth Machado Lousada Rocha. Mais velha de cinco irmãos, teve uma infância comum como toda criança nascida nos anos 1930, no bairro de Vila Mariana, em São Paulo, onde a diversão era encontrada nas coisas mais simples da vida.

Sem a interferência da TV, internet, tablets e smarthphones, que na época não passavam de sonhos distantes, ela descobriu ainda pequena o gosto pela leitura e pelas aventuras contadas por seu avô que, segundo ela, era um magnífico contador de histórias. “Sou de uma família onde se contava muitas histórias. Meu avô era um grande contador de histórias.”

Crescendo acompanhada das aventuras de Grimm, de Andersen, e do Barão de Münchhausen, Ruth tomou gosto pelas palavras quase sem perceber. Depois, sob a influência de sua mãe, teve contato com a obra de Monteiro Lobato e conheceu o mundo fantástico do Sítio do o professor de literatura, a futura escritora fez um trabalho sobre “A cidade e as serras”, de Eça de Queirós, sem completar a obra. Por sorte, ou talento nato, acabou tirando a maior nota da sala. Envergonhada, devorou a obra do escritor português e se apaixonou, tanto é que ainda hoje, vez ou outra, se rende a rever suas páginas.

Moça dos livros Esse encontro com a chamada literatura séria levou a jovem Ruth a se inscrever na Biblioteca Municipal. Ao entrar naquele salão enorme, cheio de livros, pensou: “Gente, eu tenho que ler todos eles!”. “Comecei a ler na estante. Lia um, depois o outro, e outro, e outro.

Eu lia a estante do Eça [de Queirós] todinha. Só depois vi que não era assim e comecei a procurar os autores pelas citações nos livros”, conta. Entre as obras que marcaram sua trajetória e influenciaram seu futuro, Ruth Rocha destaca “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre. Por causa desse livro, decidiu cursar a faculdade de Sociologia e Política. “Na verdade sociologia não é o que eu mais gosto. Gosto muito de política. Fiz o curso, mas não era o que eu mais gostava”, revela.

Ao concluir a universidade, Ruth percebeu que era quase impossível arrumar emprego como socióloga, especialmente em tempos de ditadura. Após fazer alguns trabalhos, entre eles uma pesquisa para a Standard Oil, na época da campanha “O Petróleo é nosso”. A ideia da companhia americana era explorar petróleo no Brasil.

Porém, ao fim do estudo constatou que 90% dos entrevistados diziam: “O petróleo é nosso”. Com esse resultado, a empresa mudou de ideia e o governo aprovou a lei de criação da Petrobras. Como não encontrava emprego na área de formação, Ruth Rocha foi trabalhar na biblioteca do tradicional Colégio Rio Branco. “Eu atendia o pessoal que ia tirar livros. Mas as crianças começaram a me cercar, pois eu tinha lido aqueles livros todos e sabia indicar aquilo que cada um tinha vontade de ler”, relembra.

O diretor da escola logo reparou nesse poder de atração de Ruth com as crianças e a convidou para ser orientadora educacional, onde ficou até “trombar” com o ex-orientando Carlos Alberto Fernandes, que dirigia a revista Cláudia, da Editora Abril, e a convidou para escrever sobre educação no veículo.
Flerte com o jornalismo
Durante três anos, Ruth escreveu artigos sobre educação na revista, exercitando a escrita, pela qual já era apaixonada, e falando de um tema que lhe era muito caro. O sucesso desses textos fez com que fosse convidada por Sônia Robatto para participar do projeto da revista Recreio.

“A ideia da revista Recreio era ter um conto e uma tirinha ao lado, que seria uma brincadeira. Mas ela queria que essa brincadeira fosse uma coisa educativa.” A então socióloga-educadora tinha acabado de aplicar no jardim da infância do Colégio Rio Branco uma tese sobre a educação durante a alfabetização, através de um artigo, que segundo ela, muito bem ilustrado, chamou a atenção de Sônia, que a convidou para ser coordenadora pedagógica da revista.

A partir daí, nascia aos poucos a escritora Ruth Rocha. De início, sua função era criar aquelas tirinhas educativas, que preparavam os pequenos leitores para a alfabetização, utilizando um método pouco conhecido, criado pela professora Ana Maria Popovic. A fórmula deu certo e garantiu o reconhecimento da publicação perante o público. “A revista fez um enorme sucesso. Nós vendíamos um milhão de exemplares por mês. Vendíamos 250 mil por semana. Era um sucesso”, lembra com orgulho.

Sônia, que já tinha descoberto os talentos de Ruth para criar aquelas brincadeiras educativas, queria explorar ainda mais as qualidades da amiga e passou a insistir para que ela também passasse a escrever contos para a publicação. A Recreio tinha lançado importantes escritores e a colega de redação poderia ser mais uma. Relutante, a orientadora pedagógica dizia que não sabia “escrever histórias”.

O despertar das palavras

Embora nunca tivesse colocado suas histórias no papel, Ruth Rocha já fazia sucesso entre as crianças, entre elas sua filha Mariana, ao inventar roteiros alternativos. “A minha filha queria histórias diferentes. Não era da ‘Gata Borralheira’ ou da ‘Chapeuzinho Vermelho’. Ela olhava e dizia: ‘eu quero a história dessa bola’. E eu me virava!”, relembra.

Sônia dizia que bastava a Ruth colocar no papel aquelas histórias como contava para a pequena Mariana. “Eu não queria. Mas numa ocasião fui à chácara da Sônia para nadar em sua piscina e ela me pegou na sala, botou um monte de papel e uma máquina de escrever na minha frente e disse: ‘Agora você vai escrever uma história’. E me trancou, literalmente, no lugar”, conta.

Sem escapatória (ou quase), ela resolveu contar uma história que vivia contado para sua filha, sobre uma borboleta azul e uma amarela, que não podiam ser amigas porque eram de cores diferentes. O conto foi publicado no número dez da revista e fez grande sucesso. “Aí abriu a tampa da minha cabeça e eu comecei a escrever. Escrevi mais de cinquenta histórias para a Recreio.”

O ilustrador Alberto Linhares conheceu Ruth quando começou a fazer freelancer para a editora nos anos 1970 e conta que essa transformação dela em escritora de livros infantis aconteceu naturalmente. “A Ruth se tornou escritora praticamente sem querer. Ela tem esse dom de secomunicar com o leitor infantil, uma das faixas etárias mais difíceis de fazer. Por trabalhar numa redação de revistas dirigidas ao público infantil, acabou surgindo essa vocação.”

Entusiasmada com a nova função, Ruth Rocha já pensava em publicar um livro. Porém, como tinha contrato de exclusividade com a Editora Abril, estava de mãos atadas. Mas não por muito tempo. Com a chegada de um novo editor na empresa, surgiu a possibilidade da Abril comercializar para o governo cinco livros de histórias, mas que tinham um prazo curtíssimo para serem entregues.

A solução foi simples: ela juntou textos dela, Sônia Robatto, Joel Rufino, Ana Maria Machado e Elenice Machado de Almeida que tinham sido divulgados na revista e produziu as quatro obras. A coisa foi crescendo e a segunda leva da encomenda resultou em 12 novos livros, que acabaram se transformando numa coleção.
Histórias para o mundo

O sucesso dos livros dos autores da Recreio abriu as portas para Ruth Rocha e seus amigos escritores ganharem asas para voar. A Editora Abril apostou na publicação de obras que seriam vendidas em bancas. A princípio, coube a Ruth apenas completar uma coleção importada da Western Company com algumas obras. Sem muitas pretensões, seu livro sobre letras acabou ganhando um prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e, em apenas um ano, a nova escritora já tinha 13 obras publicadas.

Segundo a autora, a Abril queria que os livros vendidos em banca atingissem as mesmas vendas das revistas, o que não ocorreu. Porém, isso não significa que tenha sido um fracasso. A obra “Marcelo, Marmelo, Martelo”, um dos principais títulos de Ruth Rocha, no primeiro mês vendeu 5 mil exemplares. Um fenômeno, mas que não satisfazia aos interesses da empresa.

O resultado é que aquele volume imenso de livros acabou sendo levado para um depósito e vendido, veja só, como sucata! Afinal, a editora só aceitava vendê-los para as livrarias caso comprassem 500 exemplares. Como os autores eram novatos no mercado editorial, acabou que foram comercializados a troco de banana.
O fenômeno Marcelo

Se Ruth Rocha já era um fenômeno editorial com suas histórias na Recreio e com os livrinhos vendidos em banca, quando “Marcelo, Marcelo, Martelo” foi publicado pelo Círculo do Livro a escritora ganhou ainda mais visibilidade e um espaço nas estantes de crianças do Brasil e do mundo. Em apenas seis meses a obra vendeu 150 mil exemplares e, posteriormente, foi traduzida para várias línguas. Até hoje a obra faz sucesso, tendo vendido mais de 2 milhões de exemplares.

Daí pra frente a escritora ganhou terreno na literatura infantil e começaram a surgir personagens que fizeram – e fazem – parte do inconsciente das crianças, como o Reizinho Mandão, Nicolau, Catapimba, Pedrinho, Terezinha, Gabriela e tantos outros.
Até 1981 Ruth Rocha administrou o trabalho na revista com seus livros. Com a saída de Sônia Robatto da Abril, ela resolveu investir apenas na carreira de escritora, dedicando-se a trazer ao mundo “palavras, muitas palavras...”.

Para se ter uma ideia da profusão de histórias e o impacto delas na educação infantil, basta ressaltar que no período de 1977 a 1988 a escritora lançou nada menos que 67 títulos e vendeu um milhão de cópias.
Criatividade premiada Sem planejar, Ruth Rocha se transformou numa das principais autoras de obras infantis. Para a também escritora Eliana Sá, isso aconteceu porque ela é uma “escritora franca, aberta, alegre, cheia de vida, que trata o seu leitor com a sedução de uma boa história, convence-o sem chamá-lo de ‘pequeno’, mas justamente por raciocinar com a grandeza do pensamento de uma criança”.

Para a amiga e ex-cunhada Ana Maria Machado, outro grande nome da literatura infantil nacional, o diferencial de Ruth é fazer histórias sobre coisas comuns, dando vida a objetos e elementos que passam despercebidos por outros. Na opinião dela, a escritora acabou por fazer “a história da cultura”, pois “criou a história do barro, da terra, da água, do fogo e do ar”.

Esse jeito fácil e honesto de lidar com os leitores, que tem uma grande influência da formação em sociologia, contribuiu para que sua obra fosse amplamente premiada. Ao longo da carreira recebeu prêmios da Câmara Brasileira de Letras, da Fundação do Livro Infantil e Juvenil, da Associação dos Críticos de Arte de São Paulo, da Academia Brasileira de Letras, da fundação Conrad Wessel, da ONU, além da Comenda da Ordem do Mérito Cultural. E não é pouco, ela acaba de ganhar o sétimo prêmio Jabuti com uma coletânea de poesias.

Os amigos são unânimes em destacar a importância de Ruth para a literatura nacional. “É uma escritora importantíssima pelo seu papel no estabelecimento de uma qualidade literária da literatura infantil brasileira. Com seu senso de humor, sua lucidez, sua respeitável bagagem cultural, seu espírito crítico, sua certeza de que se pode falar de tudo com crianças desde que se encontre a abordagem adequada, contribuiu enormemente para a consolidação do excelente nível de qualidade do gênero entre nós”, destaca Ana Maria Machado.
Para aquela menina que tinha como objetivo ler “todas” as obras das estantes da biblioteca circulante, o segredo de todas essas conquistas e infindáveis histórias se resume em duas coisas. “As conversas são as que mais dão assuntos [para novas histórias]. Conversas e livros”, garante. Incansável contadora de histórias, Ruth Rocha garante que nem a tecnologia e os livros digitais serão capazes de “sepultar” a curiosidade das crianças por contos, fábulas e histórias. Ela acredita que há sempre espaço para boas e incríveis aventuras. O fato é que com uma escritora como essa vale sempre a máxima: “Entrou por um lado, saiu pelo outro... Quem quiser, que conte outro!”.
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