“Imprensa brasileira precisa nos informar sobre a África”, por Wagner de Alcântara Aragão
Se a gente for depender do noticiário dos grandes veículos de comunicação do Brasil, ficaremos sem saber o que se passa na África – exceto e
Opinião
m caso de alguma catástrofe, conflito, ou crise fitossanitária. Desde que a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) deixou de ter correspondente em Moçambique, em meados da década passada, estamos órfãos de informações cotidianas, aprofundadas, sob nosso olhar, a respeito do que ocorre no continente africano.
O que é inadmissível.
Afinal, somos – toda nação brasileira - afrodescendentes. Temos o direito de saber da vida na terra dos nossos ancestrais, onde estão raízes da nossa cultura. A luta contra o racismo estrutural passa por um processo de “decolonizar” nossa mídia.
Por que vemos todos os dias imagens nos telejornais de Nova Iorque, Londres e Paris, mas não somos informados sequer sobre como está a vacinação contra a covid-19 em Angola? Por que sabemos dos lançamentos de Hollywood, mas não somos apresentados a Nollywood, a indústria cinematográfica da Nigéria?
Por que, ainda, vira e mexe nos contam sobre bastidores da monarquia britânica, no entanto ignoramos fatos importantes da África do Sul? De Cabo Verde, Senegal, República do Congo, Etiópia, Quênia, quando algo nos chega, é sob o ponto de vista das agências internacionais. Ficamos alheio à vida dessa região do planeta da qual temos ligação umbilical.
Se as empresas brasileiras de mídia dispõem de gente em todos os cantos da Europa, em várias cidades do Estados Unidos, e não raro até no Extremo Oriente, o que as impede de manter equipes em pelo menos uma nação africana?
Tivemos experiências recentes. Uma delas, já mencionada, a EBC, entre o início e meados dos anos 2010. Com a representação em Moçambique, havia produção de conteúdo para a TV Brasil e para Agência Brasil, noticiário que se replicava por jornais e sites de notícias. No entretenimento, tivemos em 2014 a exibição, pela TV Brasil propriamente dita, da novela angolana “Windeck – Todos os Tons de Angola”, indicada ao Emmy Internacional.
Agora em 2022, a Band exibiu para o Brasil jogos da Copa das Nações Africanas, com excelente repercussão. Que as próximas edições desse torneio continental de futebol sejam transmitidas também.
A reparação pela dívida ética, moral, cultural e social que temos para com os povos africanos passa por nos religarmos ao lado de lá do Atlântico, papel que cabe, em boa medida, aos meios de comunicação. Comecemos.
* é doutorando em Comunicação (UFPR), jornalista e professor da rede estadual de educação profissional do Paraná. Mantém um veículo de mídia alternativa (www.redemacuco.com.br), ministra cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e realiza projetos culturais.





