Imprensa argentina dá exemplo

Imprensa argentina dá exemplo

Atualizado em 29/09/2005 às 10:09, por Renato Barreiros e  de Buenos Aires.


Quando estourou a crise argentina no final de 2001, boa parte dos meios brasileiros transformou o sofrimento dos argentinos em entretenimento, tentando usar, de maneira sensacionalista, o grave problema pelo qual passava o país para aumentar o faturamento.

Abrir um jornal e ler notícias sobre o quanto os argentinos haviam empobrecido ou assistir na TV imagens de "panelaços" ou mesmo entrevistas com desempregados que diziam ter perdido tudo já tinha virado rotina.

Parte do nosso jornalismo parecia ter esquecido seu papel e adotado uma postura de comemorar a desgraça de nosso principal sócio regional, a idéia propagada parecia ser "quanto pior para a Argentina, melhor para o Brasil".

Os nossos políticos, que, no ano de 2002, já estavam em plena campanha, adotaram abertamente essa idéia. Vem daí a frase de Lula "O Brasil não é uma republiqueta qualquer, não é a Argentina. Este país não vai quebrar" ou mesmo a peça publicitária da campanha de Serra que dizia de forma irônica "Olha a lição da Argentina".

Apesar de a crise ter aberto espaço para que bons correspondentes se instalassem na Argentina e começassem a cobrir as notícias daqui com muita seriedade, a pauta, principalmente na televisão, era de mostrar que ao lado do Brasil havia nascido uma nova Somália.

Passado algum tempo, os meios argentinos parecem não ter guardado rancor ou cultivar chicanas de como seu país foi tratado por grande parte de nosso jornalismo. A eleição de Lula foi saudada com muita alegria aqui nas redações e recebeu comentários muito favoráveis nos canais de televisão, rádios, jornais e revistas.

Agora, quando um mar de lama tomou conta de Brasília, talvez fosse o momento de as redações argentinas irem à forra, mostrando detalhadamente, com o mesmo sensacionalismo usado pelos brasileiros para noticiar a crise deles, todos os meandros do esquema de corrupção que cada dia cresce mais em nosso país.

No entanto, não é isso que se vê nos meios locais. A crise brasileira está tendo uma cobertura muito sóbria e respeitosa, sem lugar para manchetes fantásticas ou matérias inspiradas na imprensa marrom.

Os jornais e revistas são os meios que mais noticiam a crise brasileira e têm a difícil tarefa de explicar para os seus leitores o que é o mensalão ou mesmo de fazê-los entender quem são personagens como Severino Cavalcanti e Roberto Jefferson.

Embora as notícias sejam dadas com muito resguardo, os próprios fatos já comprovados chegam a assustar nossos "hermanos". Há algum tempo, quando entrevistei um experiente deputado federal argentino, ele me perguntou se era mesmo verdade que o assessor do líder do PP na Câmara de Deputados havia sacado mais de um milhão de reais. Quando confirmei o fato, a reação do deputado argentino foi automática: "Che! Pero quanta plata, eh!".

Apesar da austeridade demonstrada pelos jornalistas argentinos na cobertura da nossa crise, não se pode negar que o Governo Lula deteriorou imensamente a imagem do Brasil aqui na Argentina, já que antes éramos vistos e dados como exemplo de país na América Latina, e agora só aparecemos em notícias dignas das páginas policiais.

A última notícia que desgasta ainda mais a imagem do nosso país está publicada hoje nos principais jornais locais e trata da eleição do deputado Aldo Rebelo para presidente da Câmara, acompanhada de toda a história que envolve a liberação de verbas públicas em troca de votos. Será que até o final do Governo Lula ainda veremos nosso país ser elogiado na imprensa Argentina?