IMPRENSA acompanhou os bastidores da gravação do programa "Café Filosófico"

Em abril, equipe de IMPRENSAacompanhou os bastidores da gravação de um episódio do programa "CaféFilosófico", cujo tema era Tribos

Atualizado em 23/05/2011 às 16:05, por Flávio Costa*.

Sã Filosofia

Em abril, equipe de IMPRENSA acompanhou os bastidores da gravação de um episódio do programa "Café Filosófico"

Em abril, equipe de IMPRENSA acompanhou os bastidores da gravação de um episódio do programa "Café Filosófico" cujo tema era Tribos sem terra: juventude 2.0, matéria publicada na edição 267, pág. 68. Nessa noite, o jornalista e musicólogo Zuza Homem de Melo participou como convidado. Confira a entrevista que IMPRENSA fez com o jornalista.

Como você se preparou para fazer a palestra?
Eu me preparei em 1950. É assim que a gente se prepara [risos].

O"Café Filosófico" trata de temas muito profundos, com uma linguagem palatável parao público. Como você trata essa questão?
Quem tem a prática de falarem aulas, como é o meu caso, e também de dar entrevistas com muita freqüência,acaba adquirindo um certo expertise. Isso é válido também quando você fala numdiálogo, sempre acrescenta. É uma questão de experiência que lapida a sua formade se apresentar com clareza e tendo em vista que você tem um determinadotempo. Acho que isso é um fator que pesa muito na balança. Quando a pessoa nãotem a prática, ela se perde no tempo, ela fala só metade do que preparou prafalar. Você tem que estar sempre controlando o tempo.

Crédito:Gabriel de Oliveira "Café Filosófico" com Zuza Homem de Melo
















É como quando você tem um determinado número de toques num texto...
Exatamente. É exatamente a mesma coisa. Quando vou escrever um texto, a primeira pergunta é prazo etamanho, depois é que vem o custo [risos]. E não é que o tamanho é empecilho, élimitativo. Num caso como hoje, temos um determinado espaço e tem que ficardentro daquilo, não pode ir além, se não você fica divagando e foge do tema eterminou.

Eu fui presidente daassociação dos pesquisadores, há muito tempo, e eu fazia o papel de mediador ecomo mediador eu sentia muito que determinadas pessoas que começavam, no casoeram pessoas que queria mostrar trabalho, um pouco da sua vida, ansiosamente, levantavame começavam: "Porque eu me dedico...", aí eu pensava "Bom, vai começar em RobsonCrusoé". Então de cara eu já falava "Escuta, qual a pergunta, qual o tema?",direto. E isso é importante.

Qual o norte da palestra de hoje?
O norte é mostrar aparticipação de temas políticos na música popular, que teve na chamada era dosfestivais um papel importantíssimo, porque os universitários e os compositoresfalavam a mesma língua. Eu quero lembrar a vocês que não eram os operários, eraa classe universitária que tinha empatia com as canções da era dos festivais.Por isso a força desse movimento de canções, a ponto de o governo começar aficar incomodado e a censura entrar pesado. Aquilo era mais forte que uma armade guerra. Eles não sabiam aonde ia acabar. Quando você tem uma arma, depoisque acabou a munição, a arma para de funcionar. Ali não tinha isso. Consequentemente,a ditadura militar começou a ficar incomodada e esse incômodo foi crescendo demaneira a tentar, primeiro, explorar isso, que eles tentaram, e depois, vendoque não dava certo exterminar. E foi o que eu eles tentaram. Mas, para fechar oassunto que vai ser tratado hoje, é que a classe universitária se mostra cadavez mais passiva, sem aquela participação.

Existem coisas que sãoinacreditáveis. A ausência total de percepção do que acontece no Brasil, dasinjustiças sociais. O artista tem obrigação de levantar esses assuntos. Por quê?Porque ele tem uma sensibilidade mais a flor da pele do que um banqueiro. Não émesmo? É de se supor. Então, essa ausência, essa falta de participaçãocaracteriza os dias de hoje na área da música popular. Você tem referênciasisoladas em alguns casos e nada mais, mas a grande maioria dos jovens e dosjovens universitários não está nem aí. Está interessada em outras coisas.

E quanto ao programa, você acompanha pela televisão?
Com uma certa frequência,mas não assiduamente como deveria. De qualquer forma, eu sinto que o programatem uma penetração numa área que a televisão precisa mais do que tudo. Vocêprecisa ter um contraponto ao "Big Brother Brasil". E o "Café Filosófico" é umbom contraponto a isso. São dois pólos totalmente opostos: um, só fala mentirae não diz nada, o outro tem conteúdo. E um conteúdo que existe no Brasil.Prova-se que existem pessoas que pensam. E que o publico vê.

Como jornalista, como você vê o jornalismo musical hoje?
Eu acho que a doação dojornalismo à musica deve ser primordialmente nos veículos de comunicação e nãonos releases, embora eu tenha feito muito release [risos]. Eu acho que ascoisas mais importantes que eu fiz não foram no release, foi na área de análise,de conteúdo, mostrar o conteúdo. Acho que isso é mais importante e continuasendo. Agora, bons e maus sempre existiram e sempre vão continuar existindo. Ojornalismo de música tem uma coisa curiosa. Quando um jornalista fala semsinceridade, ou seja, você falar mal de um disco que é bom ou falar bem de umdisco que é mau, também vale pra show, pra tudo, a verdade acaba aparecendo. Aío leitor pensa "Nunca mais leio esse cara, ou ele está comprometido... Ou algumacoisa está acontecendo". A música acaba prevalecendo como elemento que é a provados nove, do quão bom ou ruim é aquele jornalista.

*Com Laura Canta l