Imprensa a pão e água, por Renato Barreiros, de Buenos Aires
Imprensa a pão e água, por Renato Barreiros, de Buenos Aires
A "onda vermelha" que vem tomando conta da América Latina com a eleição de governantes pertencentes à chamada "esquerda light", já foi alvo de diversas análises a fim de constatar se os antigos princípios e ideais de Karl Marx foram preservados ou se o que resta apenas é uma bandeira vermelha, algumas vezes já rosada, por trás de partidos que representam apenas os interesses do "companheiro mercado".
O assunto voltou à tona no começo do mês de março com a posse de Tabaré Vázquez a presidência do Uruguai, onde os presidentes Nestor Kirchner, Luís Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez se encontraram para dar mais uma mostra da sinergia que permeia o grupo de presidentes afinados com a nova esquerda.
Embora cada um dos presidentes tenha atitudes diferentes ante assuntos como dívida externa, reforma agrária, disciplina fiscal do Estado e etc, existe uma característica comum que é encontrada no perfil de todos presidentes que se elegeram na "onda vermelha": um latente desprezo pela imprensa em geral.
No caso brasileiro não é preciso dizer muito, a ausência por completo de entrevistas coletivas e a tentativa de criar o Conselho de Jornalismo para policiar os jornalistas que não fizessem coro ao governo, dão a pauta da péssima relação que Lula vem mantendo com a mídia em terras tupiniquins.
Na Argentina a denúncia de que o Presidente Kirchner vem tratando a pão e água os jornalistas e os meios que fazem críticas ao seu governo não é nova, e agora, também ganhou o apoio da Sociedade Interamericana de Imprensa que em sua última observação feita para avaliar liberdade de imprensa no país, constatou que o governo argentino vem exercendo forte pressão para que não haja vozes críticas entre os nosso "hermanos periodistas". Entre outros fatos, cita a falta de critério com que a verba publicitária do governo é distribuída.
No Uruguai, o recém empossado Tabaré também não tem um histórico muito favorável na sua relação com a imprensa.. Mesmo antes da campanha presidencial, eram raras as entrevistas dadas por Tabaré, pois sua assessora de imprensa, a temida Laura Cabrera, alegava falta de tempo para atender os jornalistas que requisitavam entrevistas, isso quando retornava as solicitações. Um jornalista enviado brasileiro de um grande jornal acostumado a cobrir o Uruguai, confidenciou que a única entrevista conseguida com o então candidato Tabaré, foi agendada via o Assessor de Relações Exteriores do governo brasileiro Marco Aurélio Garcia, já que suas solicitações não eram sequer respondidas.
A situação na Venezuela é sem dúvida a pior de todas, no país a mídia é classificada em contra ou pró Hugo Chavez, aconteça o que acontecer. Assim os jornalistas venezuelanos são taxados de soldados já que tem que escolher um trincheira onde se posicionar, perdendo a oportunidade de fazer um jornalismo com senso crítico.
O que aconteceu para que governos taxados como "progressistas" tenham tanta resistência em aceitar uma imprensa moderna e independente? Seria resquício da idéia bolchevista de que a imprensa controlada por privados é a "imprensa burguesa" cuja não representa os interesses da população? Teriam esses novos presidentes de esquerda como ideal de imprensa o famoso Gramna de Cuba?
Infelizmente, parece que embora tenham sido eleitos governantes que participaram da luta pela redemocratização da América Latina, estamos vivendo um retrocesso na liberdade de imprensa, tão necessária para construir a ainda jovem democracia de nossos países.






