Império questiona “jornalismo de celebridades”, por Fabio Maksymczuk

Os blogueiros ganham, cada vez mais, espaço nas telenovelas. Os autores tentam inserir elementos da comunicação online nos folhetins. A interatividade propiciada pelas redes sociais é um elemento importante para a disseminação da história contada pelos novelistas.

Atualizado em 05/09/2014 às 18:09, por Fabio Maksymczuk.

Em “Vitória”, produção da Rede Record, a jornalista Matilde (Luciana Braga) sempre divulga as ações dos neonazistas em seu blog. Já em “Império”, novela das nove da TV Globo, Téo Pereira representa o mundo da blogosfera. Paulo Betti interpreta o personagem que explora a vida íntima dos famosos e celebridades da alta sociedade. Através desta história paralela, o autor Aguinaldo Silva tenta discutir a ética jornalística e o direito à privacidade das pessoas públicas. Porém, o resultado é desanimador. Betti aparece completamente estereotipado. O veterano ator explora a caricatura em sua interpretação. Soa extremamente artificial. Em “Fina Estampa”, Marcelo Serrado deu show ao viver o mordomo Crô. Mesmo com elementos alegóricos, Serrado conseguiu humanizar o “servo da rainha do Nilo”. E também o personagem entrava no clima da produção da novela. Fato que não ocorre em “Império”, folhetim que aposta mais no drama. Betti, com seus trejeitos e bocas, cria um ruído em toda a obra. Téo Pereira seria uma mistura de Léo Dias com Leão Lobo. Até os enigmas dos “fuxicos” já foram utilizados. “Famoso fulano vive um caso amoroso arrebatador com outro galã”. Mantras do jornalismo aparecem nos diálogos. “Uma mentira repetida muitas vezes se torna uma grande verdade”. “Jornalismo é só aquilo que não quer ser publicado. O resto é publicidade”. Téo já afirmou que não é muito adepto da verdade. Portanto, na minha visão, não é jornalista. Porém, as revistas das celebridades também fogem (e muito) do caráter jornalístico. Muitos atores, atrizes, cantores e outros VIPs (vipões e vipinhos) utilizam esses espaços em benefício próprio. Incrementar o “produto”. Embelezar a imagem. Atores aparecem com supostas namoradas. Atrizes afirmam viver enlaces amorosos com outros atores. Cantores falam maravilhas do casamento e passam a imagem de pais de família. Verdadeira publicidade para capturar mais atenção da mídia e elevar os cachês em eventos. Na vida real, a verdade é outra. E é aí que reside o dilema do jornalista que cobre o meio artístico: conta a verdade real ou explora as “fantasias” contadas pelos famosos? Não é esse ponto o abordado em “Império”. A série “A Vida Alheia” até explorou tal aspecto. Segundo a novela de Aguinaldo Silva, o blogueiro Téo conta histórias escabrosas apenas para conquistar mais cliques. Ou para se vingar de seus desafetos. Betti aparece superficial. A abordagem do “jornalismo de celebridades” captura um lado fundamental: até que ponto pode se interferir na vida privada do indivíduo? Mas há também o outro lado: o caráter publicitário dos produtos (ou melhor, atores, atrizes, vipões e vipinhos) que cria ilusões ao leitor.
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