Igrejas barulhentas, jornalismo idem

Igrejas barulhentas, jornalismo idem

Atualizado em 06/04/2010 às 22:04, por Igor Ribeiro.

A emissora com conexões neopentecostais não ia deixar barato o caso dos padres pedófilos. É um dever de toda a mídia, aliás, repercutir e fiscalizar denúncias sérias como essa. Mas ninguém escarafunchou tanto o assunto como a TV do bispo, sempre mais empenhada em investigar as falhas dos católicos do que as contas offshores do próprio quintal.
Nenhuma surpresa. Mas quando vejo a grande mídia chafurdando na própria parcialidade religiosa, me dá vontade de ver o circo pegar fogo. As empresas que investem em matérias questionadoras - ainda que inócuas - da onipresença de símbolos cristãos em repartições públicas são as mesmas que fazem de assuntos como "aborto" e "casamento homossexual" pautas socialmente delicadas por conta do que pensa o Vaticano. Dois meses depois lá estão jornais, revistas, rádios, sites e telejornais a condenar em uníssono os padres tarados, desde a Bahia até a Irlanda. Já que todos se afundam em toneladas de culpa enlameada, por que a emissora líder não leva o padre Quevedo numa sessão do filme "Chico Xavier", como costumava fazer nas noites de domingo para questionar fenômenos paranormais? Porque o filme é do Daniel Filho, claro. Além disso, toda grande mídia brasileira, sem exceção, é especialista em criar critérios muito peculiares de imparcialidade.
Misturar religião com jornalismo é um ponto tão ou mais complicado do que trazer esse assunto para perto do Estado. Uma nação baseada em preceitos étnico-culturais pode não legitimar a construção de um governo de cunho religioso, mas é algo ao menos compreensível. O jornalismo, por outro lado, deve ser como a ciência: um instrumento em busca da verdade. Alcançá-la de fato nunca será mais importante que persegui-la. Mas essa é uma travessia cuja validade depende de uma tentativa honesta de desprendimento dogmático.
Uma cena emblemática a respeito desse tema ocorreu recentemente durante o velório do pai de um amigo meu. A ocasião reuniu camaradas de velhos tempos, gente que conheço desde a adolescência, muitos deles com os quais mantenho contato há 17, 18 anos. A maioria de nós estudou em colégios católicos, ainda que em instituições diferentes. Muitos dos laços que mantiveram esse contato por todos esses anos se relacionam com uma espécie de atitude pouco subserviente de nossa parte quanto a paradigmas sociais, inclusive doutrina religiosa. Não posso dizer, seja por mim ou pelos outros, que éramos ateus ou agnósticos, mas sei que a religiosidade era uma coisa muito particular e independente de missas, rotinas e orações. Não nos parecia algo coletivo, como o colégio e a família nos queriam fazer crer.
Não éramos, de modo algum, desrespeitosos com o que nos era imposto. Éramos tolerantes e de vez em quando moleques: adolescentes que, como quaisquer outros, deixavam escapar algum traço de rebeldia que soava, aos olhos dos adultos, desrespeito. Mas não saíamos cantando Ramones em missa do colégio nem vandalizávamos o presépio de Natal. Respeitávamos e conhecíamos a liturgia - só não nos convencíamos dela.
No velório mencionado, todos estávamos muito tristes. O pai do nosso amigo era um sujeito fantástico, italianão engraçado e cheio de manias, um tirador de sarro que sempre nos recebia muito bem quando frequentávamos sua casa. O sentimento de luto e consternação era real e profundo. Certo momento, a viúva - pessoa também queridíssima de todos nós - convocou amigos e familiares para uma "Ave Maria" e um "Pai Nosso". Rodeamos o caixão e muitos começaram a rezar, mas eu preferi rememorar silenciosamente minhas boas lembranças do falecido, desejando muita paz e mentalizando votos de força e saúde à família. Foi inevitável, durante essa reflexão, notar como se comportavam meus amigos. Como eu, eles não acompanhavam a oração. Todos estavam visivelmente tristes, porém silenciados.
A cena me trouxe ideias de toda sorte. Pensei se não seríamos mais bem resolvidos religiosamente se não tivéssemos sofrido qualquer tipo de imposição durante a infância e a adolescência. Lembrei de uma mestra de classe que teve uma relação conturbada com as freiras do colégio por debater outros tipos de fé durante as aulas de religião. Perguntei-me se, no fim das contas, não nos saímos adultos melhores sendo "católicos não-praticantes", agnósticos racionalistas ou ateus materialistas. Talvez um pouco mais desiludidos do que se tivéssemos perseguido a sublimação d'alma, mas vai saber...
Hoje, percebo um benefício explícito ao manter-me distante desse jogo de interrogações que as religiões criam: conseguir manter-me também à parte do péssimo jornalismo que aborda essa pauta no Brasil. As reportagens podem tratar sobre o que for: padres pedófilos, caixa dois de igreja, ataques de terroristas fundamentalistas, jogadores de futebol que se recusam a fazer caridade por incompatibilidade metafísica etc. Mas o fato de preferir fazer as perguntas em vez de respondê-las me permite assistir a esse espetáculo horrendo e gratuito sem nenhum pingo de culpa.