Ídolos de barro, por Rodrigo Viana

Crédito:Leo Garbin O caso envolvendo o lutador Anderson Silva, flagrado em exames antidoping realizados no início do ano, mexeu profundamente com os torcedores e a mídia brasileira.

Atualizado em 03/03/2015 às 13:03, por Rodrigo Viana.

o lutador Anderson Silva, flagrado em exames antidoping realizados no início do ano, mexeu profundamente com os torcedores e a mídia brasileira.


Primeiro que Anderson Silva vinha reconstituindo a jornada do mito, no melhor estilo Joseph Campbell: em dezembro de 2013, o Spider, como é chamado, fraturou a perna direita, num combate contra Chris Weidman, o homem que tinha lhe tirado o cinturão de campeão.


Nosso herói tupiniquim fez uma recuperação midiática no melhor estilo Rocky Balboa – personagem de Sylvester Stallone numa série de muito sucesso do cinema dos anos 80 e 90. Emissoras de TV, jornais, sites e todo tipo de mídia acompanharam a saga da recuperação do lutador e fizeram crescer a expectativa em cima de sua volta.


Em 1º de fevereiro, na principal luta do UFC 183, o brasileiro dominou e venceu por decisão unânime dos juízes, o americano Nick Diaz. O ex-campeão dos médios, aos prantos, deitou no octógono ao ter seu nome anunciado como o vencedor da luta. Um evento apoteótico, cinematográfico e caro, muito caro.


Anderson Silva sempre ganhou e gerou muito dinheiro. Especula-se que apenas nessa última luta ele tenha recebido US$ 800 mil dólares – cerca de R$ 2 milhões e 100 mil reais. Estima-se também que o canal a cabo Combate, da Globosat, fature 7,5 milhões de reais a cada luta do Spider. Mas os homens são de barro. E Anderson não era mais um herói.


Ele testou positivo para dois exames realizados em 9 de janeiro e 31 do mesmo mês, dia da luta contra Nick Diaz pelo UFC 183 (por conta do fuso horário, a luta, no Brasil, foi transmitida no dia 1º). O nosso Balboa foi pego pela Comissão Atlética de Nevada antes e depois da luta. Ficou determinada a suspensão temporária de Anderson Silva por uso de doping. Provavelmente sua luta será cancelada e o resultado invalidado. Prestes a completar 40 anos de idade, Silva deve desistir da carreira.


Meu padrinho, Juca Kfouri, bradou, em seu blog: “Inúmeros esportistas com ar angelical se dopam. Na verdade, a maioria. No começo, no meio, ou no fim de suas carreiras se doparam ou se dopam de um jeito ou de outro (...). Além do mais, quem disse que a prática a que se dedica Anderson Silva é um esporte?”.


É preciso uma análise metonímica do tipo de mensagem que estamos enviando a nossos leitores/ telespectadores/internautas. Que tipo de esporte é esse em que dois homens se digladiam e deslizam sobre uma chuva de sangue e quais elementos “extracampo” estão sendo usados neste duelo de gladiadores?


Lembrando que a palavra doping é de origem inglesa e significa “injeção ilícita de uma droga estimulante aplicada no animal de corrida a fim de assegurar-lhe a vitória”. Lembrando também mais uma citação do Juca: “Um verdadeiro esportista jamais se doparia e desencantaria seus fãs.”