“IA: Um Novo Renascimento”, por Marcelo Molnar
Opinião
O Renascimento foi um período de profunda transformação cultural, artística, política e científica na Europa, marcado pelo redescobrimento e reinterpretação dos valores e conhecimentos da Antiguidade Clássica. De maneira similar, a Inteligência Artificial (IA) é, nos dias de hoje, um catalisador para mudanças significativas em diversas áreas da sociedade.
A IA possibilita novas formas de resolver antigos problemas e abre caminhos para descobertas em diversos campos. Está mudando aspectos da vida cotidiana, do trabalho, da educação e do entretenimento, assim como da arte e da criatividade, seja através da criação assistida ou pela transformação de como consumimos conteúdo e informação. Ela está provocando novas questões e teorias na ética, na filosofia da mente e na epistemologia, obrigando-nos a enfrentar questões de privacidade, de viés e de desemprego, entre tantos outros impactos do dia a dia.
Porém, o Renascimento não foi um período uniformemente positivo e teve suas complexidades e contradições. A prosperidade não foi distribuída igualmente. O comércio de escravos era uma atividade normal. Tivemos conflitos religiosos intensos e duradouros. O questionamento e a crítica da Igreja e de suas práticas poderiam levar a acusações de heresia e perseguição. Os povos indígenas foram explorados e subjugados. Crenças supersticiosas e práticas pseudocientíficas ainda eram comuns. A alquimia, a astrologia e outras formas de magia eram praticadas ao lado de investigações científicas mais rigorosas. O papel das mulheres era insignificante e existiam restrições artísticas.
Parece absurdo, mas as ruas europeias naquele tempo eram frequentemente manchadas por dejetos humanos, lançados das janelas devido à ausência de uma rede de esgoto eficiente. Um retrocesso em comparação com as conquistas sanitárias anteriores. As civilizações mais antigas, como a romana, grega e a maia, possuíam sistemas de canos para evacuação, e o banho corporal era valorizado. Em um contexto diferente, isso espelha um paralelo atual na forma como nos comunicamos e nos informamos. Hoje, os “dejetos” são lançados pelas redes sociais, e nem parece que no passado recente existia um arcabouço jornalístico estruturado para consumirmos notícias e informações de qualidade.
Enquanto avançamos extraordinariamente com a IA, abrindo portas para inovações na saúde, na educação e na economia, paradoxalmente, enfrentamos um crescente descrédito na ciência. As mudanças climáticas, um desafio cientificamente comprovado, são frequentemente questionadas. O ceticismo em relação às vacinas e a proliferação de fake news ameaçam até a estabilidade democrática. Essa contradição moderna é um reflexo da complexidade do comportamento humano. A mesma sociedade que cria algoritmos capazes de otimizar cadeias de suprimentos e prever tendências econômicas também se debate com teorias da conspiração e negacionismo.
Neste contexto, comunicadores, jornalistas e educadores de mídia têm a responsabilidade não apenas de informar, mas também de orientar o público, promovendo o pensamento crítico e a alfabetização midiática. Devem atuar como pontes entre o conhecimento científico e o público, desempenhando um papel vital na luta contra a desinformação e o sensacionalismo. Ao apresentar informações de maneira clara, precisa e acessível, esses profissionais ajudam a desmistificar conceitos científicos complexos e destacar a importância de políticas baseadas em evidências.
O Renascimento transformou a posição ocupada pelo homem no mundo no século XIV. Hoje, com a tecnologia, o conhecimento e a razão ao nosso alcance, estamos diante da possibilidade de promover uma nova mudança. Podemos construir um futuro mais iluminado e sustentável. Exemplos do passado reforçam que o progresso não é linear nem sempre justo, mas sim uma jornada repleta de contradições e aprendizados. Da mesma forma que superamos os desafios sanitários da Idade Média, temos o potencial para superar as dissonâncias cognitivas de nossa era. No entanto, isso exigirá um compromisso coletivo com a verdade, a ciência e o bem-estar comum.
* é formado em Química Industrial, com pós graduação em Marketing e Publicidade. Experiência de 18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Coautor do livro "O segredo de Ebbinghaus". Atualmente é Sócio Diretor da Boxnet.





