Veja e os bilhetinhos da censura
Veja e os bilhetinhos da censura
Veja e os bilhetinhos da censura
Na manhã de 03 de junho de 1976 a direção de Veja era informada, através de telefonema da Policia Federal, que não mais precisaria levar os dois exemplares impressos, provas de fotolito, para a repartição ou para a casa de Richard de Bloch, o censor designado para avaliar o conteúdo e segundo as instruções recebidas, liberar ou não a publicação.Terminava assim a censura prévia imposta à revista desde 6 de fevereiro de 1974 pelo motivo de Veja publicar, na seção de datas, nota informando que o arcebispo de Olinda dom Helder Câmara, tinha sido indicado para concorrer ao prêmio Nobel da Paz.
A censura prévia, na verdade, tinha sido apenas uma das modalidades de censura imposta à Veja e outras publicações desde a instituição do AI5 em 13 de dezembro de 1968. Na semana seguinte à vigência do ato era apreendida a edição número 15 da revista e doravante, até a instituição da censura prévia aqui referida, Veja receberia "recomendações", por telex ou pelo telefone, de agentes da Polícia Federal, em torno dos assuntos que não deveriam ser divulgados.
Rotina de muitos anos, ora interrompida pela presença eventual de censores na redação (terceiro trimestre de 1972), ou pela ação do diretor geral do DPF General Bandeira. Em 27/06/73, por exemplo, telefonou diretamente a Pompeu de Souza (diretor da sucursal de Brasília) proibindo a publicação de suposta matéria da revista, informando que a Câmara de Vereadores de Ponta Grossa negara ao General Médici o título de cidadão honorário. A matéria não existia e nem a redação de Veja sabia do assunto.
A burocracia
O fato é que a rotina de telefonemas e telex seguia um padrão burocrático estabelecido, segundo os bilhetinhos internos da Editora Abril que Paolo Marconi colheu e publicou no seu livro "A censura política na imprensa Brasileira,1968-78". Segundo o autor as instruções eram passadas ao funcionário da Editora Abril W.Souza, ex-funcionário da PF que por sua vez as encaminhava ao Diretor Edgar Faria e este as repassava para Mino Carta, Roberto Civita ou Victor Civita em memorandos internos. Num deles, datado de 31/07/73 Edgar Faria alertava sobre as implicações de um telefonema dando conta do descontentamento da policia com o tratamento dado por Veja "ao subversivo Geraldo Vandré". Comentava: "Mino: Os homens estão sentidos".
Em 27/08/73 Souza encaminhava memorando contendo 11 proibições, entre as quais, as declarações de dom Helder, o relatório de Luis Carlos Prestes, a prisão do vereador Oldair Pinto... Em 24/10/73 alertava sobre a recomendação do General Bandeira de não fornecer "detalhes" sobre a prisão do delegado Sérgio Fleury, determinada pela 1ª Câmara Criminal de Justiça. Em 12/02/74 Faria encaminhava a Paulo Totti e Mino Carta anexo com uma lista de proibições "atualizada", acrescentando a sua opinião pessoal: "o conceito de segurança nacional continua inchando, e, cada vez mais abrangente, terminara por lançar o manto da discrição sobre o guarda achacador da esquina".
Sem cara de censura
A censura agia através de telex, telefonemas e censores, mas fazia tudo para guardar as aparências, inclusive recomendando: "é proibido dar aspecto de matéria censurada". É que Veja providenciara, para preencher os buracos das matérias censuradas, gravuras de diabos e anjos e isso incomodava o regime. O General Bandeira era explícito: "Não se justifica que abaixo da noticia do Ministro Passarinho e ao lado da inauguração de 2000 Km de asfalto, apareçam duas figuras demoníacas". Veja aceitava as ponderações. Afinal, para que cutucar o diabo com vara curta?






