Horóscopo e outras dúvidas
Horóscopo e outras dúvidas
Atualizado em 08/09/2010 às 15:09, por
Silvia Dutra.
Tenho grande dificuldade em acreditar em coisas que requerem crença. Seja lá no que for. Por isso adoro Raio X. Quando vou ao médico e ele manda tirar um raio X fico contente, porque as chances de sair de lá com um diagnóstico confiável aumentam consideravelmente. Até para uma completa leiga como eu, nada é mais preto no branco que uma chapa de raio X, a fratura aparecendo. Não há o que contestar naquilo, nem se precisa pensar em pedir uma segunda opinião. Nenhuma dúvida, só imobilidade por uns dias, até o que foi quebrado juntar de novo.
E dentre minhas inúmeras dúvidas e questionamentos sem resposta está o Horóscopo. O mundo mudou, os meios de comunicação mudaram, jornais e revistas do mundo inteiro tentam se adaptar à revolução digital que aponta para horizontes ainda nebulosos, mas o fascínio das pessoas por essas previsões em massa continua firme e forte. E isso me intriga.
É meio complicado escrever essas coisas e não parecer que estou esculhambando a Astrologia e os astrólogos, e aqueles que acreditam neles. Sinceramente não estou. Mesmo porque conheço gente muito inteligente que acredita piamente. O que me deixa ainda mais intrigada, porque não posso deixar de considerar que está me escapando algo importante, que eu absolutamente não consigo ver. E como se eu tivesse alguma fratura não identificada, que incomoda.
Tenho uma amiga que todo ano paga mais de um salário mínimo para uma astróloga fazer o mapa astral dela. Formada em Business pela Universidade do Texas --uma das mais prestigiadas nesse setor -- profissional competente na briga de foice no escuro que é o mundo corporativo dos Estados Unidos, sob nenhum aspecto minha amiga é burra. Mas por volta do Natal ela recebe um CD com as previsões para o ano que se inicia e a coisa vai mais ou menos assim:
Janeiro: hora de botar os pés no chão, recuperar o controle sobre os gastos e perder aqueles quilos a mais. Você pode estar se sentindo meio desanimada, mas lembre-se que após os momentos mais escuro da noite é que começa o amanhecer.
Fevereiro: nessa época a Lua estará em Saturno enquanto o Sol receberá a influência não muito positiva de Marte. Você estará entrando em seu inferno astral (minha amiga faz aniversário em Março), muito cuidado. Uma pessoa em quem você confia poderá se mostrar não tão confiável assim. Hora de expandir seus horizontes profissionais, pessoais e financeiros. Não coloque todos os seus ovos numa única cesta, diversifique seus interesses e mantenha o foco para equilibrar as influências astrais negativas desse período.
E vai por aí afora, até Dezembro, quando chega a nova ordem de pagamento e outro CD é preparado.
Quando me contou isso minha amiga fez questão de dizer que a astróloga é super bem conceituada em São Paulo e vive de fazer mapas astrais, sugerindo que a prática e a fama fazem a perfeição. E que como o serviço é individualizado e o mapa astral baseado na hora e dia exatos do nascimento dela, então ela acredita. Não só acredita como já teve inúmeras comprovações do acerto das previsões da astróloga nesses últimos 5 anos em que virou cliente assídua.
Eu não acredito em horóscopos, nem os feito para consumo em massa nem os individualizados. Deve ser porque tenho esse hábito de duvidar e fico desconfiada com coisas que prometem muito e na verdade entregam tão pouco. Em alguns casos são até previsíveis, dependem mais de bom senso do que de vigiar as estrelas. Ou são tão genéricas, mundanas e vagas.
É como a cartomante do livro "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector, dizendo para a pobre Macabéa, tão carente de esperança, que ela seria resgatada da vida miserável que levava por um homem. Que teria olhos azuis. Ou verdes. Ou pretos. Ou castanhos.
Nunca paguei um centavo para ninguém ler minha sorte, fazer meu mapa astral ou descobrir o que o futuro me reserva. Mal e porcamente lido com o que o presente me apresenta. E nem teria escrito isso se alguns dias atrás, pra ser mais precisa na tarde de 3 de setembro, por conta de um clique errado no mouse de meu computador, não tivesse caído na página Urânia da versão online do Jornal Folha de S. Paulo. E apesar de não acreditar em horóscopo fui ler o que meu dizia, Estava escrito lá:
" Virgem: Você é dos poucos que se beneficia com as turbulências astrológicas e pode fazer de limões azedos uma limonada deliciosa. Auxilie amigos, reforce sua rede de contatos e trabalhe, circule e apareça. Em cada choque uma oportunidade".
Esse papo de limões me deu sede e fui para cozinha. Ao ligar o liquidificador para fazer uma limonada suíça tomei um choque. Com o susto dei um passo para trás. Acabei escorregando numas pedras de gelo que tinham caído no chão e torci o pé esquerdo. No médico fiquei feliz quando me mandaram para a radiologia e nenhuma fratura apareceu. Acabei de crer que nesse mundo tão instável e cheio de surpresas o Raio X continua sendo uma confortadora certeza.
Bati um papo com o rapaz que me enfaixou com força o pé e também com o motorista de táxi que me trouxe para casa. O que significa que não trabalhei, mas aumentei minha rede de contatos, circulei e apareci. Meu horóscopo só errou uma coisa naquele dia: com toda a confusão acabei não tomando nenhuma limonada, os limões continuaram azedos. E eu fiquei um pouco azeda também, confesso. E continuo na dúvida se existem mesmo turbulências astrológicas. Mas pelo menos ganhei outra certeza, além do Raio X: a rede elétrica de minha casa não está num período pacífico. Deve estar atravessando o inferno astral dela.

E dentre minhas inúmeras dúvidas e questionamentos sem resposta está o Horóscopo. O mundo mudou, os meios de comunicação mudaram, jornais e revistas do mundo inteiro tentam se adaptar à revolução digital que aponta para horizontes ainda nebulosos, mas o fascínio das pessoas por essas previsões em massa continua firme e forte. E isso me intriga.
É meio complicado escrever essas coisas e não parecer que estou esculhambando a Astrologia e os astrólogos, e aqueles que acreditam neles. Sinceramente não estou. Mesmo porque conheço gente muito inteligente que acredita piamente. O que me deixa ainda mais intrigada, porque não posso deixar de considerar que está me escapando algo importante, que eu absolutamente não consigo ver. E como se eu tivesse alguma fratura não identificada, que incomoda.
Tenho uma amiga que todo ano paga mais de um salário mínimo para uma astróloga fazer o mapa astral dela. Formada em Business pela Universidade do Texas --uma das mais prestigiadas nesse setor -- profissional competente na briga de foice no escuro que é o mundo corporativo dos Estados Unidos, sob nenhum aspecto minha amiga é burra. Mas por volta do Natal ela recebe um CD com as previsões para o ano que se inicia e a coisa vai mais ou menos assim:
Janeiro: hora de botar os pés no chão, recuperar o controle sobre os gastos e perder aqueles quilos a mais. Você pode estar se sentindo meio desanimada, mas lembre-se que após os momentos mais escuro da noite é que começa o amanhecer.
Fevereiro: nessa época a Lua estará em Saturno enquanto o Sol receberá a influência não muito positiva de Marte. Você estará entrando em seu inferno astral (minha amiga faz aniversário em Março), muito cuidado. Uma pessoa em quem você confia poderá se mostrar não tão confiável assim. Hora de expandir seus horizontes profissionais, pessoais e financeiros. Não coloque todos os seus ovos numa única cesta, diversifique seus interesses e mantenha o foco para equilibrar as influências astrais negativas desse período.
E vai por aí afora, até Dezembro, quando chega a nova ordem de pagamento e outro CD é preparado.
Quando me contou isso minha amiga fez questão de dizer que a astróloga é super bem conceituada em São Paulo e vive de fazer mapas astrais, sugerindo que a prática e a fama fazem a perfeição. E que como o serviço é individualizado e o mapa astral baseado na hora e dia exatos do nascimento dela, então ela acredita. Não só acredita como já teve inúmeras comprovações do acerto das previsões da astróloga nesses últimos 5 anos em que virou cliente assídua.
Eu não acredito em horóscopos, nem os feito para consumo em massa nem os individualizados. Deve ser porque tenho esse hábito de duvidar e fico desconfiada com coisas que prometem muito e na verdade entregam tão pouco. Em alguns casos são até previsíveis, dependem mais de bom senso do que de vigiar as estrelas. Ou são tão genéricas, mundanas e vagas.
É como a cartomante do livro "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector, dizendo para a pobre Macabéa, tão carente de esperança, que ela seria resgatada da vida miserável que levava por um homem. Que teria olhos azuis. Ou verdes. Ou pretos. Ou castanhos.
Nunca paguei um centavo para ninguém ler minha sorte, fazer meu mapa astral ou descobrir o que o futuro me reserva. Mal e porcamente lido com o que o presente me apresenta. E nem teria escrito isso se alguns dias atrás, pra ser mais precisa na tarde de 3 de setembro, por conta de um clique errado no mouse de meu computador, não tivesse caído na página Urânia da versão online do Jornal Folha de S. Paulo. E apesar de não acreditar em horóscopo fui ler o que meu dizia, Estava escrito lá:
" Virgem: Você é dos poucos que se beneficia com as turbulências astrológicas e pode fazer de limões azedos uma limonada deliciosa. Auxilie amigos, reforce sua rede de contatos e trabalhe, circule e apareça. Em cada choque uma oportunidade".
Esse papo de limões me deu sede e fui para cozinha. Ao ligar o liquidificador para fazer uma limonada suíça tomei um choque. Com o susto dei um passo para trás. Acabei escorregando numas pedras de gelo que tinham caído no chão e torci o pé esquerdo. No médico fiquei feliz quando me mandaram para a radiologia e nenhuma fratura apareceu. Acabei de crer que nesse mundo tão instável e cheio de surpresas o Raio X continua sendo uma confortadora certeza.
Bati um papo com o rapaz que me enfaixou com força o pé e também com o motorista de táxi que me trouxe para casa. O que significa que não trabalhei, mas aumentei minha rede de contatos, circulei e apareci. Meu horóscopo só errou uma coisa naquele dia: com toda a confusão acabei não tomando nenhuma limonada, os limões continuaram azedos. E eu fiquei um pouco azeda também, confesso. E continuo na dúvida se existem mesmo turbulências astrológicas. Mas pelo menos ganhei outra certeza, além do Raio X: a rede elétrica de minha casa não está num período pacífico. Deve estar atravessando o inferno astral dela.






