"Hora de ir embora quando o corpo quer ficar" | Por Thaísa Carolina Yadnak - UMESP (SP)

"Hora de ir embora quando o corpo quer ficar" | Por Thaísa Carolina Yadnak - UMESP (SP)

Atualizado em 31/10/2005 às 10:10, por Por: Thaísa Carolina Yadnak e  estudante de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo.

Era uma vez uma acrobata, um aristocrata e um grande amor entre os dois. Desse amor nasceu um circo e virou poema. O poema é de Jorge de Lima, inspirou texto de Naum Alves de Souza e música de Edu Lobo, que logo chamou o amigo Chico Buarque para dar encanto às músicas. A magia ganhou vida no palco, em forma de dança e teatro. E o final feliz da história é o sucesso.

Isso ainda seria pouco pra falar sobre O Grande Circo Místico. Em 2002 foi reavivado pelo balé do Teatro Guairá de Curitiba - cidade que o inaugurou em março de 1984. Mas não só quem esteve na capital paranaense pôde se emocionar. Este ano esteve por dois dias em São Paulo. Foram apenas duas apresentações, tímidas, sem muito alarde fora dos palcos. Melhor assim, os 900 lugares do auditório Simon Bolívar, no Memorial da América Latina ficaram mais aconchegantes para os olhos de crianças e adultos no sábado, 22 e domingo, 23 de outubro. E diferentemente do que o jornal A Gazeta Mercantil publicou em seu caderno Fim de Semana do dia 21 de outubro - o espetáculo não está na programação do Teatro Popular do Sesi no Rio de Janeiro nem em São Paulo. [a nota do jornal trazia o evento como sendo no Sesi de São Paulo e com o endereço e telefone do Rio de Janeiro, outro erro confirmado por Colmar Verçosa Mangueira, assessor de imprensa do Firjan- Federações das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, entidade ligada ao Sesi].

A Banda Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo, com regência da maestrina Mônica Giardini, interpretou as músicas do espetáculo. O grande êxtase da noite foi Beatriz, a terceira música. No poema de Jorge de Lima, a equilibrista se chama Agnes, mas "O nome não cabia na letra", lembra Chico Buarque. O compositor transformou Agnes em Beatriz, de equilibrista virou atriz e foi colocada no sétimo céu - em homenagem a Beatrice Portinari, da Divina Comédia de Dante Aligheri - "Beatriz carregando minhas obsessões", diz.

Beatriz é instrumental nesta montagem, e colocar voz retiraria todo o suspense e apreensão do "oh" vindo da platéia quando a equilibrista se joga do alto de um pano pendurado no teto do teatro e quase despencar no chão. Depois do susto, o riso: a Valsa dos clowns cai no gosto do público, com afinação da solista Ana Suely Nobre e o carisma do palhaço, deixa um sentimento de amizade, mesmo o palhaço, na música, ser considerado charlatão. Destaque para as crianças do Coral do Projeto Guri Osasco, elas entram para cantar Ciranda da Bailarina, é tocante o talento deles, e da pequena bailarina Nicole Carnevali Pinotti.

Ao ouvir A bela e a fera, uma surpresa: um dos saxofonistas - o tenor - levanta e faz um solo por mais de 10 minutos com cantigas à Se essa rua fosse minha até voltar novamente para a música original. Desde o filho - presenteado pela mãe com a ida ao Memorial - até o paulistano solitário de cabelos brancos levantou e aplaudiu três vezes os artistas. Palmas também para a Universidade Livre de Música Tom Jobim e a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo que fizeram a graça de O Grande Circo Místico ser de graça.

Sem querer chegar ao fim do fascínio, o coral canta por duas vezes Na carreira, o tema de encerramento. Era a hora de ir embora enquanto o corpo queria ficar.