Homenageado no Vladimir Herzog, Elifas Andreato conta por que deixou a Abril
Na noite desta segunda-feira (24), o "Prêmio Especial Vladimir Herzog 2011" será entregue ao artista plástico Elifas Andreato. Segundo a organização, "o objetivo é homenagear uma pessoa que se destacou na defesa pelos Direitos Humanos e na luta pela democracia".
Atualizado em 24/10/2011 às 12:10, por
Luiz Gustavo Pacete.
o "Prêmio Especial Vladimir Herzog 2011" será entregue ao artista plástico Elifas Andreato. Segundo a organização, "o objetivo é homenagear uma pessoa que se destacou na defesa pelos Direitos Humanos e na luta pela democracia".
No caso de Andreato, essa luta significou muito mais do que enfrentar a ditadura; o fez abrir mão de um cargo de confiança na Editora Abril, no ano de 1972. Na editora, ele havia conquistado a confiança da família Civita e a sua saída para trabalhar no jornal alternativo Opinião pegou de surpresa o empresário Victor. Entretanto, a questão para Andreato era muito mais do que profissional. "Eu não poderia me omitir vendo o que acontecia no País naquele momento e optei por lutar", conta à IMPRENSA.
Em entrevista exclusiva, Andreato fala das experiências no seu primeiro emprego, lembra como se aproximou do jornalismo e revela os motivos de ter deixado a direção de arte na Editora Abril para atuar na imprensa alternativa.
Alf Ribeiro Elifas Andreato em entrevista à IMPRENSA IMPRENSA - Qual foi seu primeiro contato com o jornalismo? Elifas Andreato - Eu desenhava no jornalzinho da fábrica de fósforos inglesa em que eu trabalhava na cidade de São Paulo. Ali, já começava a militância; eu era do contra. Essa atuação me deu visibilidade. Quando foram inaugurar o refeitório procuraram aquele rapaz que desenhava no jornal. Eu fiquei preocupado, achei que eles iam me demitir, pois eu não poupava ninguém das criticas. Mas queriam que eu decorasse o salão. Com o feito, eu ganhei uma bolsa dos ingleses para estudar artes.
IMPRENSA - E sua experiência na Editora Abril? Andreato - Eu entrei lá por acaso, como estagiário. Era um sonho para um menino pobre que vinha do interior do Paraná. A Editora Abril era a grande empresa de comunicação da época, já publicava Claudia, Quatro Rodas , Pato Donald e Realidade , uma mega empresa. Foi uma sorte grande ter entrado como estagiário porque eu tive a oportunidade de circular entre grandes redações.
IMPRENSA - Por quais redações você passou? Andreato - Fui primeiro para a Claudia , quando já estava o Thomas Souto Corrêa, que era o chefe de redação. Aí eu comecei a descobrir o mundo. Em casa, a gente dormia seis em um quarto, não tinha lugar para nada. Profissionalmente falando eu não tinha condições. Na Abril, eu tinha tudo: dinheiro, tinta, prancheta, papel, revista, conselheiros e professores. Muitos jornalistas que foram meus grandes mestres.
Reprodução Troféu que será entregue a Elifas
IMPRENSA - Qual foi sua relação com o Victor Civita? Você o considera como padrinho profissional? Ele te deu um voto de honra? Andreato - Sim, pois eu entrei em 1967 na Editora Abril e, em 1969, eu já era diretor de arte de um núcleo de fascículos femininos. Nesse núcleo caiu no meu colo o livro "Bom Apetite", que vendia um milhão de exemplares por semana e sustentou o projeto Veja . Era tão importante que "seo Victor" levou a mulher pra trabalhar lá; com isso, eu fui adotado pela família Civita. Eu acho que deveria ter algum talento, e eles perceberam. Deram estágio, fui para a Inglaterra... No dia que eu saí pra fazer o jornal Opinião , no Rio, em 1972, o "seo Victor" ligou para a minha mãe. Para ela, eu deveria voltar.
IMPRENSA - O que te levou a pedir as contas? Andreato - Duas coisas: primeiro, eu passei a ter consciência da situação do País. A imprensa, os estudantes, os músicos e os artistas estavam amordaçados. A outra questão era que eu estava me tornando um capataz da empresa. Eu tinha que demitir gente mais velha que eu, tinha que ver menininhas oferecendo tudo por um emprego. Aquilo me incomodava. Lá, ainda, tinha um agravante: chegavam aquelas informações, por exemplo, tem que cortar 20% da arte. E eu era diretor-geral de arte. Aí digo: 'mas eu vou cortar quem?' Eu prefiro cortar a mim mesmo.
* Com Jéssica Oliveira
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No caso de Andreato, essa luta significou muito mais do que enfrentar a ditadura; o fez abrir mão de um cargo de confiança na Editora Abril, no ano de 1972. Na editora, ele havia conquistado a confiança da família Civita e a sua saída para trabalhar no jornal alternativo Opinião pegou de surpresa o empresário Victor. Entretanto, a questão para Andreato era muito mais do que profissional. "Eu não poderia me omitir vendo o que acontecia no País naquele momento e optei por lutar", conta à IMPRENSA.
Em entrevista exclusiva, Andreato fala das experiências no seu primeiro emprego, lembra como se aproximou do jornalismo e revela os motivos de ter deixado a direção de arte na Editora Abril para atuar na imprensa alternativa.
Alf Ribeiro Elifas Andreato em entrevista à IMPRENSA IMPRENSA - Qual foi seu primeiro contato com o jornalismo? Elifas Andreato - Eu desenhava no jornalzinho da fábrica de fósforos inglesa em que eu trabalhava na cidade de São Paulo. Ali, já começava a militância; eu era do contra. Essa atuação me deu visibilidade. Quando foram inaugurar o refeitório procuraram aquele rapaz que desenhava no jornal. Eu fiquei preocupado, achei que eles iam me demitir, pois eu não poupava ninguém das criticas. Mas queriam que eu decorasse o salão. Com o feito, eu ganhei uma bolsa dos ingleses para estudar artes.
IMPRENSA - E sua experiência na Editora Abril? Andreato - Eu entrei lá por acaso, como estagiário. Era um sonho para um menino pobre que vinha do interior do Paraná. A Editora Abril era a grande empresa de comunicação da época, já publicava Claudia, Quatro Rodas , Pato Donald e Realidade , uma mega empresa. Foi uma sorte grande ter entrado como estagiário porque eu tive a oportunidade de circular entre grandes redações.
IMPRENSA - Por quais redações você passou? Andreato - Fui primeiro para a Claudia , quando já estava o Thomas Souto Corrêa, que era o chefe de redação. Aí eu comecei a descobrir o mundo. Em casa, a gente dormia seis em um quarto, não tinha lugar para nada. Profissionalmente falando eu não tinha condições. Na Abril, eu tinha tudo: dinheiro, tinta, prancheta, papel, revista, conselheiros e professores. Muitos jornalistas que foram meus grandes mestres.
Reprodução Troféu que será entregue a Elifas
IMPRENSA - Qual foi sua relação com o Victor Civita? Você o considera como padrinho profissional? Ele te deu um voto de honra? Andreato - Sim, pois eu entrei em 1967 na Editora Abril e, em 1969, eu já era diretor de arte de um núcleo de fascículos femininos. Nesse núcleo caiu no meu colo o livro "Bom Apetite", que vendia um milhão de exemplares por semana e sustentou o projeto Veja . Era tão importante que "seo Victor" levou a mulher pra trabalhar lá; com isso, eu fui adotado pela família Civita. Eu acho que deveria ter algum talento, e eles perceberam. Deram estágio, fui para a Inglaterra... No dia que eu saí pra fazer o jornal Opinião , no Rio, em 1972, o "seo Victor" ligou para a minha mãe. Para ela, eu deveria voltar.
IMPRENSA - O que te levou a pedir as contas? Andreato - Duas coisas: primeiro, eu passei a ter consciência da situação do País. A imprensa, os estudantes, os músicos e os artistas estavam amordaçados. A outra questão era que eu estava me tornando um capataz da empresa. Eu tinha que demitir gente mais velha que eu, tinha que ver menininhas oferecendo tudo por um emprego. Aquilo me incomodava. Lá, ainda, tinha um agravante: chegavam aquelas informações, por exemplo, tem que cortar 20% da arte. E eu era diretor-geral de arte. Aí digo: 'mas eu vou cortar quem?' Eu prefiro cortar a mim mesmo.
* Com Jéssica Oliveira
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