"Haititude" - Mudança Já
"Haititude" - Mudança Já
O jornal The New York Times publicou no último domingo um artigo muito lúcido sobre o que está acontecendo no Haiti. David Brooks, autor da matéria, argumenta que a proporção da tragédia não foi causada por forças incontroláveis da Natureza - no caso o terremoto de 7.0 na escala Richter - mas principalmente por falhas humanas mesmo, como corrupção generalizada, infraestrutura e serviços públicos de péssima qualidade, ignorância e uma cultura popular resistente ao progresso e a mudança de atitudes.
Sei que parece cruel e frio o que vou falar, mas concordo com Brooks. A grande tragédia não é a atual, com seus milhares de mortos insepultos e semi-vivos soterrados sob escombros. E a sujeira, as doenças, a fome, a violência que rolam na esteira após eventos desse tipo. A tragédia maior é que isso tudo já aconteceu anteriormente e vai se repetir, ainda este ano - seja por inundações, furacões, etc - caso nenhuma lição seja aprendida pelos haitianos e por outros povos e governos do mundo.
Por que morreram tantas pessoas? Só a força do terremoto não seria suficiente. San Francisco foi chacoalhada em 1989 por um tremor da mesma magnitude e só 65 pessoas morreram, enquanto no Haiti estima-se entre 45 e 50 mil. Por que o Haiti é tão pobre e nunca sai daquela miséria, apesar de receber tanta ajuda humanitária de ONGs e governos de países em melhores condições?
Brooks comenta que há mais ONGs per capita trabalhando no Haiti do que em qualquer outro país do mundo. E não somente agora, nesse momento crítico, mas de forma contínua, tentando garantir a paz, promover a educação, a saúde, programas de desenvolvimento econômico e social. Gente competente, honesta, bem intencionada como nossa querida Zilda Arns. E mesmo assim as coisas não mudam. Por que?
Um passado de opressão, escravidão, colonialismo, guerras internas, ditaduras cruéis, injustiças e abusos de toda natureza não explica todo o problema. Muitos outros países compartilham esse mesmo passado e conseguiram avanços sociais importantes. Pensando bem, qual país ou povo, na história da Humanidade, não sofreu em algum momento invasões, escravidão, colonialismo, guerras civis e outras desgraças?
Até a China - que foi o primeiro país a aterrizar um avião em Port au Prince semana passada, carregado de materiais e seus operários disciplinados, uniformizados e prontos pra entrar em ação - já passou por isso tudo e hoje é essa potência, sem ter recebido tanta ajuda externa como o Haiti.
A solução definitiva sempre passa pela educação, sem dúvida. E pela substituição de pilares culturais e morais podres por outros capazes de sustentar uma sociedade mais próspera e igualitária. Fazer isso demanda coragem de governantes e trabalho conjunto com líderes locais em todos os níveis da sociedade, porque é impossível ensinar truques novos a artistas velhos só a poder de decretos.
Ainda mais quando pra promover essas transformações vai se bater de frente com idéias e práticas de grupos religiosos e outros setores mais resistentes à mudanças porque, de alguma maneira, eles se beneficiam com as coisas do jeito que elas sempre foram.
É como dar um remédio de sabor horrível pra uma criança birrenta ou arredia: as vezes só com sorrisos e explicações racionais a coisa não funciona. É preciso agarrar o malcriado, ignorar a resistência, segurá-lo com força e despejar o remédio boca adentro. E manter o controle até ter certeza que ele engoliu, para promover a cura.
Lembro que uns anos atrás li um livro interessante chamado "Leadership" ("Liderança") que explica em detalhes e com muita competência como mudanças na cultura e na atitude de uma sociedade podem ser conquistadas.
Escrito por Rudolph Giuliani -- um advogado filiado ao partido democrata que foi prefeito de New York de 1994 até 2001 -- o livro mostra quais ações foram implementadas para limpar a cidade de lixo e de criminosos que aterrorizavam a população e dominavam bairros inteiros, bem como moralizar o serviço público e revitalizar o turismo e a economia. Tudo ao mesmo tempo.
Giuliani batia basicamente nessas duas teclas: Primeira: para alcançar resultados, a tolerância com o crime e mesmo delitos pequenos precisa ser zero e a vigilância contínua. Nenhuma tolerância.
Segunda: é preciso quebrar a cadeia de hábitos e atitudes individuais erradas que conduzem a ações prejudiciais para toda a sociedade. As pessoas precisam ser responsabilizadas por seus atos para entender que suas ações (e omissões) afetam a todos.
O livro é recheado de exemplos, mas um que não me sai da memória é de como a polícia conseguiu controlar um tipo de crime que estava se tornando super comum em New York: as invasões e roubos à residências.
Garagem lá é artigo raro e muita gente estaciona os carros nas ruas. Floresceu então o negócio dos guardadores de carros, os flanelinhas, e muitos deles coagiam cidadãos a pagar para estacionar num local público. Soa familiar?
Por medo de ter o carro danificado muitas pessoas se sujeitavam à coação. Algumas faziam acordos de pagar semanalmente para que o flanelinha garantisse espaço para o estacionamento regular do veículo o mais próximo possível da residência. E dessa maneira a população foi se habituando e deixando de perceber que pagava por algo a que teria direito sem ônus extra.
Quando as autoridades passaram a coibir consistentemente a ação dos flanelinhas e a orientar a população a não pagar, observaram cair drasticamente o número de invasões e roubos à residências. Descobriram então que os flanelinhas ganhavam dos dois lados: dos donos dos carros, a quem teoricamente "ajudavam", e dos bandidos, a quem passavam informações sobre a rotina dos cidadãos. Foi preciso mudar com educação e vigilância os hábitos de moradores de bairros inteiros e o problema acabou por si só.
E o que esse exemplo tem a ver com o Haiti? Muita coisa. Giuliani não sabia quem invadia e roubava as casas de New York. Mas atacou os flanelinhas, que eram visíveis, e descobriu que eles eram parte de uma questão muito mais grave.
Fazendo um paralelo, a sociedade haitiana funciona nessa equação como os cidadãos de New York em relação aos flanelinhas: se acostumaram a conviver com ONGs e ajudas externas e perderam de vista que nesse hábito vem embutida a displicência e a renúncia a seus direitos legítimos.
A miséria do Haiti (foi ela que causou tantas mortes, não o terremoto) e de outras nações que patinam num subdesenvolvimento crônico e controlado por governos e elites corruptas só será resolvida quando essa cultura de passividade, de falta de planejamento e de hábito a um assistencialismo estéril e contínuo for substituída por outra na qual cada cidadão entenda e assuma a parcela de responsabilidade que lhe cabe por suas ações e omissões diárias.






