"Há o discurso de que 'índio bom é índio morto', mas talvez o resto do país não saiba" , diz Ulisses Capozzoli

"Há o discurso de que 'índio bom é índio morto', mas talvez o resto do país não saiba" , diz Ulisses Capozzoli

Atualizado em 01/09/2008 às 18:09, por Redação Portal IMPRENSA.

A Scientific American Brasil , versão brasileira da publicação norte-americana de divulgação científica, lançou a "Coleção Amazônia - A floresta e o futuro", na última sexta-feira (29), no auditória da Fnac Pinheiros, em São Paulo.

Temas como desmatamento, arqueologia, o movimento da Cabanagem e as heranças do povo indígena são abordados nas três edições - as duas primeiras já estão à venda ao preço de R$14,90 o exemplar e a terceira revista chega às bancas de jornal de todo o Brasil no próximo dia 12 - que compõem a série especial sobre a região que abriga a maior floresta tropical do planeta.

Além da linguagem clara, a Coleção traz o diferenceial de ter usado, pala primeira vez, o olhar de especialistas da comunidade científica local nas publicações, com profissionais de instituições como a Universidade Federal da Amazônia, a Universidade Federal do Pará, o Museu Paraense Emílio Goeldi e o Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia.

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, o jornalista Ulisses Capozolli, editor da Scientific American Brasil , e também mestre e doutor em Ciências pela USP, contou como surgiu a idéia de se fazer uma série especial sobre a Amazônia e explicou o por quê da necessidade de se mudar a idéia, segundo ele "equivocada", que se tem sobre a realidade local.

Portal IMPRENSA: Como e por quê surgiu a idéia de lançar uma série especial sobre a Amazônia?
Ulisses Capozzoli: As rápidas transformações envolvendo especialmente recursos naturais e impactos ambientais nos últimos anos recomendam um novo olhar para a Amazônia. Mas isso é parte de um processo maior, inclusive de natureza histórica.
O que a Amazônia - 60% do território nacional - representa para o Brasil? Que projetos o País tem para essa porção estratégica mas ainda não suficientemente consolidada na unidade nacional? Que transformações impactam a Amazônia, a partir de dinâmicas definidas em outras áreas do planeta?
Considerações como essas, num contexto de reconhecimento das potencialidades nacionais (caso das descobertas fósseis que prometem levar o Brasil à posição de exportador de petróleo, gás natural etc) convidam a uma reavaliação do País como um todo e, nesse caso, a Amazônia, mais que nunca, deve ser considerada.
A decisão de produzir essa série, com a colaboração de pesquisadores científicos que trabalham na Amazônia, é a de contribuir para a oferta de um material atual e de boa qualidade editorial para a sociedade nacional. A Amazônia, aqui, é tratada sem os estereótipos convencionais. Potencialidades, soluções e desafios e problemas são considerados no interior de um contexto bastante dinâmicos.

IMPRENSA: Você disse que as pessoas têm uma visão equivocada da floresta amazônica, que visão seria essa e por que é necessário desmitificar essa imagem?
Ulises: Na verdade, as pessoas têm uma idéia da Amazônia como se essa imensa região fosse, digamos, um tapete verde, vazio de ocupação humana, quase como a imagem de um paraíso, o que não é verdade. Mesmo as populações indígenas isoladas não são remanescentes de um tempo que equivale à chegada de Pedro Álvares Cabral. Ao contrário, esses grupos são "fugitivos" de contatos feitos no passado que lhes provocaram traumas profundos. Eles já experimentam o contato e não tiveram razões para continuar essa relação.
A Amazônia abriga perto de 120 línguas indígenas (a maior parte das pessoas certamente pensa que no Brasil se fala uma única língua, o português, claro) e pelo menos a metade dela corre risco de extinção, por uma diversidade de razões, entre elas a escassez de falantes.
Parte das pessoas, provavelmente, está disposta a aceitar a idéia de que a sojicultura (ou as pastagens) é uma exploração produtiva da região, em lugar da floresta que não teria nenhuma produção útil. Claro que esse é um equívoco enorme e perigoso. Hoje está plenamente reconhecido o que se chama de "serviços da floresta". Com isso quero dizer que, boa parte das chuvas que caem no interior de São Paulo, por exemplo, resultam de mecanismos complexos intimamente relacionados com a floresta amazônica.

IMPRENSA: Na Coleção, pela primeira vez, o conhecimento científico de moradores da região está sendo usado como base teórica das publicações da Scientific American Brasil . Por que a comunidade científica não costuma valorizar o material pesquisado por essas pessoas que vivem in loco e, que, supostamente, por esse motivo, têm mais propriedade para falar da região do que especialistas que vêm de outros lugares do Brasil e do mundo?
Ulisses: A realidade por trás dessa situação é quase sempre complexa e difícil. A Amazônia, como um todo, dispõe neste momento de não mais que 10% do número de pesquisadores necessários à investigação científica de seu enorme potencial. Na realidade, dimensionar esse potencial já é um desafio brutal.
Como se não bastasse um número reduzido de pesquisadores, há carência, evidentemente, de recursos financeiros. Isso faz com que haja muitas parcerias nacionais/internacionais com pessoal de pesquisa científica na Amazônia. Neste caso, quase sempre, quem detém os recursos financeiros é o "dono da bola" o que faz com que muitas parcerias sejam uma forma de mascarar interesses dos mais diversos, cujos resultados não são, necessariamente, devidamente divididos. Publicando um relato que vem da própria região acreditamos que ajudamos a romper essa relação de "isolamento" que existe na Amazônia. Para compreender essa realidade é preciso conhecer, por exemplo, o que foi a Cabanagem, rebelião que se deu entre 1835/40 e que foi reprimida de maneira brutal. O "paulista", como sempre se diz na Amazônia, Padre Diogo Antonio Feijó (regente na minoridade de D. Pedro II), convidou a Inglaterra a esmagar a rebelião, com matança pura e simples. A regência faria vista grossa e só se manifestaria depois do trabalho concluído. Há documentação oficial neste sentido, não se trata de boatos ou interpretação vaga. Ou seja, há, na Amazônia, um sentimento, não digo de animosidade, mas de profunda mágoa, em relação ao Centro-Sul.

IMPRENSA: O que a visão desses especialistas locais trouxe de novo sobre a região?
Ulisses: A maneira de enfocar os problemas e suas soluções, em muitos casos, podem ser completamente distintos. E isso porque as realidades são distintas. O tempo da floresta, por exemplo, é outro e a memória também. A relação com a natureza é completamente diferente. Um pescador do Centro-Sul tende a capturar, por exemplo, todos os peixes de um lago e guardá-los no refrigerador. Um pescador na Amazônia deixa os peixes vivos e se reproduzindo no lago e, a cada dia, tratará de pegar um certo número deles para sua alimentação. Há uma cultura indígena por trás disso tudo e ela não está relacionada ao lucro, como ocorre em outras regiões do país. Apontar algumas considerações mais específicas, em lugar de oferecer uma comparação, como no caso da pesca, tem o efeito mais de reduzir que ampliar as diferenças de pontos de vista.

IMPRENSA: O que você pode citar que mudou, significativamente, ao longo dos anos na floresta e que a maior parte dos brasileiros sequer tomou conhecimento?
Ulisses: A Amazônia é desconhecida há muito. O desconhecimento que se tem, no Centro-Sul, em relação à Cabanagem, por exemplo, é uma amostra disso. De qualquer maneira, neste momento, há um acelerado processo de urbanização em toda a Amazônia. E há também uma corrida por ocupação totalmente irregular de terras, sem qualquer amparo na lei. Ao contrário disso, pelo completo arrepio à lei. O caso da reserva Raposa Serra do Sol, nas manchetes dos jornais, é um exemplo disso. Vozes conservadores e ou mal intencionadas costumam dizer que reconhecer as terras indígenas é uma forma de internacionalizar a Amazônia (os índios seriam manipulados do exterior). Mas o fato é que as terras indígenas são terras da União e isto está escrito na Constituição. Essa gente se esquece, convenientemente, de dizer que as etnias que ocupam agora a reserva Raposa Serra do Sol têm ancestrais que defenderam as terras do Brasil contra pretensões inglesas, por exemplo. Em resumo: na Amazônia, neste momento, se joga um jogo pesado e desonesto, guiado pelo despotismo político e econômico. Em Boa Vista, capital de Roraima e em outras regiões, há um discurso sem meias palavras de que "índio bom é índio morto". Talvez o resto do país, o Sudeste, especialmente, não saiba disso.

IMPRENSA: O desmatamento e da queimada, por exemplo, podem, a longo prazo, devastar por completo a cobertura vegetal amazônica, caso tais práticas não sejam coibidas?
Ulisses: A questão não é exatamente a destruição completa. A Amazônia é plena em endemismo, ou seja, espécies animais e vegetais ocorrem em alguns locais e não em outros. A floresta não é uniforme, mas um mosaico de formas de vida. Em alguns lugares, como no caso de Roraima, nem é a floresta que predomina em muitas regiões, mas um campo plano que já foi o fundo do mar no passado geológico. Perdas de endemismo são uma perda injustificável em dinheiro, por exemplo. Quantas plantas com potencial medicinal são destruídas antes mesmo de serem pesquisadas? Aqui, como se pode ver, há o inevitável retorno da complexidade típica da Amazônia.

IMPRENSA: Você acha que, de fato, os brasileiros não cuidam de maneira adequada dessa grande reserva natural e que, por isso, a Amazônia deve pertencer à comunidade internacional?
Ulisses: Ano passado estive mais uma vez no Xingu, no Mato Grosso, e fiquei assustado com a dimensão do desmatamento. O Parque Indígena do Xingu, criado nos anos 1960 pelos irmãos Villas-Boas, está cercado de fazendas desmatadas, calcinadas pelo fogo para abrir espaço às pastagens por fazendeiros/empresas do Sudeste especialmente.
A Amazônia, como as pirâmides do Egito, o Grand Canyon nos Estados Unidos, ou as ruínas gregas e romanas é um patrimônio de toda a humanidade, mas pertence ao Brasil. A não compreensão dessa ambigüidade tem levado a muitos desencontros.
Como parte histórica e legítima do território nacional a Amazônia é, inquestionavelmente, brasileira. Mas devemos zelar pelo nosso patrimônio, caso contrário, ficaremos reduzidos a que, enquanto nação?

IMPRENSA: A que conclusões você chegou a respeito da região?
Ulisses: Bem, eu viajo pela Amazônia há um bom número de anos e a cada vez que chego lá me dou conta dessa complexidade. A Amazônia, sob muitos aspectos, é praticamente indescritível e talvez por isso não passe pelo crivo da cultura que prevalece no Sudeste, ou no Centro-Sul, para ser mais geral. Aqui estamos confinados a um universo cartesiano. Na Amazônia o universo é outro. Em boa parte é, por exemplo, mitológico.