Há diferenças entre as chuvas do Nordeste e de Santa Catarina?
Há diferenças entre as chuvas do Nordeste e de Santa Catarina?
No último domingo (17), o ombudsman da Folha de S.Paulo , Carlos Eduardo Lins da Silva, em sua coluna semanal, fez uma análise sobre a cobertura do jornal no que diz respeito às chuvas que vêm causando estragos no Norte e Nordeste. Segundo ele, leitores teriam reclamado da falta de "vigor jornalístico do jornal" no caso das chuvas no Nordeste, se comparada à tragédia de Santa Catarina, ocorrida no final do ano passado.
Confesso a vocês que não tinha pensado muito nisso. E, como leitora, o que achava era que a força econômica dos estados do Sul explicaria a cobertura. Mas, analisando os fatos - e claro, trocando ideias com colegas acostumados a coberturas dessa natureza - cheguei a conclusões que divergem, e muito, do que disse o ombudsman, que errou ao dizer que "no caso atual, do Norte e do Nordeste, apesar de ele ter provocado mais vítimas e desabrigados que o anterior, o jornal lhe dedica muito menos espaço e destaque".
Comecemos, então, pelas vítimas. Em Santa Catarina, as chuvas causaram 135 mortes. Atenção: em apenas um estado, 135 mortes, com cerca de 1,5 milhão de pessoas atingidas. No caso no Nordeste, até o momento, foram registradas 44 mortes em oito estados: Ceará (15), Maranhão (9), Bahia (7), Alagoas (7), Paraíba (2), Sergipe (2) e Pernambuco (1), segundo informa a Secretaria Nacional de Defesa Civil (Sedec). Ou seja, em relação aos casos fatais, Santa Catarina teve mais que o dobro de vítimas do que toda a região Nordeste.
Outro ponto que vale ser salientado, é que o fenômeno das cheias no Nordeste é sazonal. Ou seja, é esperado que, em determinada época do ano, haja chuvas em demasia e, por conseqüência, as cheias. A população, de uma forma ou de outra, tem alguma noção dos períodos de chuva forte. Já em Santa Catarina, o volume de chuva pegou a população local de surpresa, o que impediu qualquer prevenção.
Puxe pela memória as imagens das chuvas do final do ano passado. A queda de barrancos, os desmoronamentos causados pelo excesso de água soterravam pessoas que passavam dias desaparecidas, com trabalho de buscas de horas pelas equipes do Corpo de Bombeiros. A lama fez com que bairros inteiros de cidades de Santa Catarina simplesmente desaparecessem, como nas cidades de Itajaí e Blumenau.
Não estou dizendo que a população Nordestina não está tendo perdas. É bem claro que está. A água tem invadido casas, comércios e feito ruas parecerem mais rios, no entanto, as edificações, pelo menos em sua maioria, não estão sendo destruídas ou arrastadas. Na maior parte dos casos, quando a água baixa, as casas continuam onde estavam.
O valor dos donativos destinados às vítimas e da verba liberada pelo governo também, em alguns casos, causou repercussão e suscitou dúvidas em relação a um suposto descaso com as cheias do Nordeste. No final do ano passado, o Governo Federal liberou R$ 1,6 bilhão, por meio de medida provisória, para ajudar os estados atingidos pela chuva. Não foi revelado o valor exato destinado à Santa Catarina, mas excluindo esse valor, o governo ainda liberou outros R$ 350 milhões para os catarinenses, através de operações de títulos públicos. Houve, ainda, doação de roupas, água potável, alimentos e medicamentos, tanto por parte do Poder Público, quanto da sociedade civil.
Os estados do Nordeste também estão recebendo doações tanto em dinheiro, quanto em medicamentos, água, roupas e colchões, mas não chega ao montante enviado Sul. A maior parte dos recursos, até o momento foi liberada pelo governo dos estados atingidos, em apoio à Prefeituras. O Ministério da Integração Nacional promete liberar verbas e agir com rapidez, embora não haja uma previsão concreta.
Mesmo tal disparidade de recursos pode ser explicada pela surpresa e a gravidade dos acontecimentos em Santa Catarina. Existe, para os estados da região Nordeste, um plano de emergência que envolve a doação de cestas básicas, kit de medicamentos, entre outros, exatamente por tais acontecimentos de cheias serem sazonais. Diferentemente do estado catarinense.
É difícil dar peso ao sofrimento alheio. É complicado analisar de maneira fria o impacto das tragédias - e, claro, que mais de 230 mil pessoas desalojadas e outras 170 mil desabrigadas é uma tragédia. Mas daí a afirmar que as consequências das chuvas na região Nordeste e em Santa Catarina têm o mesmo peso, acredito que seja um erro.
No Sul, falamos de uma tragédia inesperada, concentrada em apenas um estado com pouco mais de 6 milhões de habitantes, no qual morreram 135 pessoas e que teve quase 79 mil desalojados ou desabrigados em razão das chuvas. No Nordeste, falamos também de uma tragédia, mas que registrou 44 mortes, em oito estados que, juntos, somam 38 milhões de habitantes. Enfim, minha conclusão é essa... com pesos diferentes, o peso da cobertura tende mesmo a ser diferente. Portanto, não se trata, ao menos na minha opinião, de "aparente descaso sulino", como supõe o leitor da Folha .






