"Há acomodação do modelo hard news", diz professor sobre o jornalismo literário no País

Há mais de duas décadas, o jornalista e professor universitário Edivaldo Pereira Lima dedica a carreira ao ensino e divulgação de uma modalidade pouco explorada pela imprensa formal brasileira: o jornalismo literário.

Atualizado em 18/03/2013 às 17:03, por Guilherme Sardas.

mais de duas décadas, o jornalista e professor universitário Edvaldo Pereira Lima dedica a carreira ao ensino e divulgação de uma modalidade pouco explorada pela imprensa formal brasileira: o jornalismo literário.

Começou a ensinar a prática em 1987, na graduação e, mais tarde, na pós-grauação do Departamento de Jornalismo e Editoração, da ECA-USP. Em 1998, elaborou o primeiro curso de comunicação centrado na prática, na Universidade de Uberaba (Uniube).


“Como tinha carta branca, transformamos todo o projeto pedagógico da graduação em um projeto centrado em jornalismo literário”, comenta.


A experiência serviu de pontapé inicial para dois projetos em que esteve envolvido: primeiro, a criação do Texto Vivo (www.textovivo.com.br), o primeiro site de jornalismo literário do país, elaborado a partir do TCC do jornalista Rodrigo Stucchi, de seu orientador à época Celso Falaschi, além da colaboração de Sergio Villas-Boas.


No final de 2005, por ideia de Falaschi, participou da criação do primeiro curso de jornalismo literário do país, como parte da programação do curso de jornalismo das Faculdades Metropolitanas, de Campinas. No ano seguinte, ajuda a fundar a Associação Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL), em que hoje ocupa a vice-presidência e a diretoria pedagógica do curso lato sensu de jornalismo literário.


Na entrevista abaixo, Pereira fala do espaço limitado da prática na grande mídia brasileira - "A ditadura contribuiu muito para a diminuição de espaço" -, defende que a modalidade pode ser praticada em qualquer editoria e ressalta sua importância social. Também deixa sua definição: "Jornalismo literário é a arte universal e eterna de contar histórias traduzida para o contexto sofisticado da comunicação moderna."


Confira a entrevista:


IMPRENSA - Como você vê o espaço atual do jornalismo literário na imprensa tradicional?

Edivaldo Pereira Lima - Teve uma fase muito exuberante no país com a famosa revista Realidade e com o Jornal da Tarde paulista, entre os anos 60 e 70, mas perdeu espaço no mercado com o regime militar. É um jornalismo que exige grande liberdade democrática porque são matérias de muita transparência sobre o estado da sociedade. O regime contribuiu muito para a queda do jornalismo literário. Hoje, aos poucos, foi voltando pelo livro-reportagem e também pela imprensa.


A seu ver, qual é o espaço para a prática hoje na imprensa brasileira?

Não há hoje no Brasil um veículo que produza jornalismo literário com qualidade e alta intensidade como naquela época. Você vê com mais frequência na revista Piauí , na revista Brasileiros , no caderno “Aliás” do E stadão , especialmente, o trabalho do Christian Carvalho Cruz. Além disso, às vezes, t em alguma coisa no próprio Estadão, Folha de S.Paulo – principalmente o obituário –, Zero Hora, Correio Braziliense e G azeta do Povo . E, para completar, muito no livro-reportagem. O mercado hoje no Brasil é muito consistente.


É o grande espaço de prática no país hoje?

Sim, há um crescimento grande. Se você for às grandes livrarias de São Paulo, por exemplo, você localiza seções de jornalismo, livro-reportagem ou atualidades. Quase todas as grandes editoras têm uma coleção de livro-reportagens. Uma das linhas que se produz com consistência é a biografia. Os jornalistas que renovaram e popularizaram o gênero biográfico no país. Além dos grandes biografados célebres, há uma grande quantidade de biografias de pessoas que não são tão famosas, mas conhecidas em meios mais restritos.


A seu ver, qual é a razão da limitação de espaço para estas narrativas na mídia tradicional?

Por um lado, é uma acomodação com o modelo predominante: o hard news do dia-a-dia. Há também um desconhecimento sobre o que é jornalismo literário: há um dogma de que só pode ser praticado em textos longos. Isso não é verdade. Ele comporta a matéria curta e longa. A outra coisa é um ponto de interrogação para mim: os jornais perdem leitores e não têm como concorrer com a velocidade da internet, então os jornais deveriam procurar outros caminhos para desempenhar sua função social. Que caminho teriam os jornais diários para manter um papel importante na sociedade? Entendo que um dos papeis seriam narrativas mais bem elaboradas, mais contextualizadas, e o jornalismo literário é este arsenal já provado e testado no mundo.


Qual é o cenário do jornalismo literário fora do Brasil?

Em primeiro lugar, não é um fenômeno meramente americano. Eles têm mais tradição, desde o século XIX, mais maturidade e uma presença mais consistente. Mas, a Colômbia tem uma longa tradição de jornalismo literário, tanto em jornais e revistas, quanto em livros-reportagens. Também sempre esteve presente em países como Chile e Argentina. Na Espanha, teve em veículos como o El País . Na Inglaterra, o segundo jornal mais importante, o The Guardian , nasceu com o espírito do jornalismo literário e conserva parte disso até hoje. Na Europa inteira, a tradicional do jornalismo literário está lá presente. No Japão e na China também.


É possível praticar jornalismo em todas as editorias?

Sim, ele é universal. Se você conhece as ferramentas do jornalismo literário e gosta, pode cobrir todas as áreas do universo. Se você pega o exemplo americano, você toma desde um jornal de economia, como o T he Wall Street Journal , até editorias de ciência e tecnologia. Você pode ter tanto nos gêneros mais familiarizados como a cultura e comportamento, até uma área que se aproveita muito mal no Brasil - e é muito vocacionada para isso – que é o esporte. Desde que você tenha um profissional preparado e veículos de mente abertra, você pode ter o jornalismo literário em tudo.


O jornalismo literário mal feito não pode também ser um risco para a verdade dos fatos? Corre-se muito o risco de inventar muito?

Com certeza. Quando bem-feito, o jornalismo literário que se preze é pautado em ética e responsabilidade. O jornalismo literário não pode ficcionalizar a realidade. A narrativa tem que tornar o texto mais interessante. Mas, o conteúdo tem que ser rigorosamente real. Senão, não é jornalismo, mas literatura. Então, há margem para problemas e, ao longo da história, há casos clássicos de má utilização do jornalismo literário. Mas, este é um risco inerente à atividade humana e ao jornalismo convencional também. Na pós-graduação, enfatizamos muito bem o compromisso do autor com o leitor, consigo mesmo nos seus próprios valores e nas outras áreas como um todo.


Qual é o segredo do jornalismo literário? Como você definiria a modalidade?

O segredo é você entrar em qualquer assunto através da figura humana, em vez de entrar por números e dados frios. Eu definiria como a arte universal e eterna de contar histórias traduzida para o contexto sofisticado da comunicação moderna.



Serviço:

Texto Vivo: www.textovivo.com.br

Associação Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL): www.abjl.org.br


O curso de pós-graduação em jornalismo literário da ABJL é credenciado como curso lato sensu, reconhecido pelo MEC, sendo realizado em parceria com a Faculdade Vicentina, de Curitiba (PR). Neste ano, o cusro já está em andamento em São Paulo e Curitiba. Em São Paulo, o curso tem parceria com a Casa das Rosas e Casa Guilherme de Almeida, parceria esta que ofereceu quatro bolsa de estudos em 2013.