“Gutenberg e a Lei de Amara”, por Marcelo Molnar

A Inteligência Artificial (IA) representa o equivalente contemporâneo à prensa de Gutenberg, em um mundo obcecado por eficiência.

Atualizado em 27/08/2024 às 08:08, por Marcelo Molnar.

Opinião

Tendemos a superestimar o efeito de uma tecnologia no curto prazo e subestimar o efeito no longo prazo. Essa é a afirmação do cientista da computação e pesquisador americano Roy Amara, que virou a “Lei de Amara”, e explica a necessidade de termos uma abordagem equilibrada para percepção e adoção de novas tecnologias.


Assim como a invenção do século XV, que democratizou o acesso aos livros, a IA está transformando o acesso à informação e à inteligência, revolucionando as estratégias empresariais, com o objetivo de aprimorar a eficiência e impulsionar a produtividade.


As similaridades são notáveis. A prensa de Gutenberg desbancou os antigos escribas, mudando o mercado de trabalho e o compartilhamento do conhecimento. Da mesma forma, a IA está reformulando indústrias ao automatizar tarefas e promover decisões baseadas em dados. A transição do trabalho manual para o mecanizado, durante a Revolução Industrial, espelha a atual mudança do trabalho físico para o intelectual, com a IA liderando esse movimento.


As empresas de hoje precisam adaptar-se à evolução contínua entre capital humano e tecnologia. O equilíbrio entre esses elementos moldará a próxima era de crescimento econômico e inovação, com a IA na vanguarda para alcançar mais com menos. O papel da IA em fomentar inovação e competitividade é essencial para os profissionais se manterem úteis e relevantes.


A Lei de Amara ficou evidente com ferrovias, automóveis, televisão e computadores pessoais, onde o ceticismo inicial deu lugar a grandes transformações sociais quando a tecnologia foi adotada em larga escala. As decisões atuais sobre investimentos e experimentações determinarão quais instituições sobreviverão e prosperarão.


Crédito:Dall-E/ ChatGPT

A prensa de Gutenberg estabeleceu bases para mudanças políticas e sociais, contribuindo para a disseminação da democracia e o surgimento dos estados-nação. Da mesma forma, os impactos da IA podem transformar a educação, revolucionar a saúde e redefinir o trabalho. Além disso, pode ajudar a enfrentar desafios globais como as mudanças climáticas e as disparidades na saúde. Assim como a prensa, o verdadeiro potencial da IA se desenvolverá ao longo de décadas, remodelando a sociedade de maneiras que ainda estamos começando a vislumbrar.


Para uma visão do futuro, os Laboratórios Autônomos de Berkeley estão revolucionando a pesquisa científica ao automatizar a criação de conhecimento e acelerar as descobertas. Esses laboratórios conseguem testar e iterar cem vezes mais rápido do que um cientista humano, sintetizando centenas de novos materiais. O Polybot, do Laboratório Nacional de Argonne, realiza experimentos químicos autonomamente usando aprendizado de máquina e robótica. O Matter Lab, utilizando o AlphaFold da DeepMind, projetou e sintetizou um novo medicamento contra o câncer em apenas trinta dias - um processo que normalmente levaria anos e orçamentos enormes de P&D. Esses avanços exemplificam a fusão dos domínios digital e físico na ciência, oferecendo potencial para pesquisas mais rápidas e eficientes com a capacidade de revolucionar indústrias e a sociedade.


Na comunicação, a IA revolucionou não apenas a forma como as mensagens são criadas e distribuídas, mas também como são percebidas e interpretadas. Novas ferramentas permitem a personalização de conteúdos em escala massiva, adaptando mensagens para públicos específicos com base em dados demográficos, comportamentais e contextuais. Isso não só aumenta a eficácia das campanhas de comunicação, mas também cria uma conexão mais íntima e relevante com o público.


Além disso, algoritmos de IA podem analisar grandes volumes de dados, em tempo real, para identificar tendências emergentes, prever crises e ajustar estratégias proativamente. A capacidade de gerar insights acionáveis instantaneamente está mudando a dinâmica do setor, tornando as respostas mais rápidas e as comunicações mais precisas.


À medida que a IA avança, suas profundas implicações para a sociedade, educação e ciência anunciam uma nova era de esclarecimento, impulsionada pelo casamento entre a criatividade humana e a inteligência das máquinas. A automação de processos repetitivos e rotineiros nos libera tempo e recursos para nos concentrarmos em tarefas sociais e comunitárias, minimizando a flagelo da desigualdade.


* é formado em Química Industrial, com pós-graduação em Marketing e Publicidade. Experiência de 18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Coautor do livro "O segredo de Ebbinghaus". Atualmente é Sócio Diretor da Boxnet.