Gushiken pede investigação sobre operações com contratos de publicidade e empréstimos
Foto: Marcello Casal Jr./ ABR

Gushiken pede investigação sobre operações com contratos de publicidade e empréstimos
Foto: Marcello Casal Jr./ ABR

Atualizado em 19/07/2005 às 13:07, por Redação Portal Imprensa.

Gushiken pede investigação sobre operações com contratos de publicidade e empréstimos
Foto: Marcello Casal Jr./ ABR

Luiz Gushiken, secretário de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica, em entrevista ao Jornal da Globo ontem (18/07), comentou sobre os últimos acontecimentos envolvendo o PT e o poder executivo em denúncias de corrupção e a concessão de empréstimos ao PT mediante a garantia de contratos de publicidade com estatais. Gushiken destacou essa como sendo "uma operação bastante confusa" e pediu uma investigação minuciosa sobre a ação. Confira a seguir a entrevista reproduzida pela Agência Estado:

Jornal da Globo - Marcos Valério repassou empréstimos ao PT e esses empréstimos tiveram como garantia contratos de publicidade de estatais. Isso não é no mínimo antiético?
Gushiken - Em matéria de aval mediante contrato, eu penso que esse é um problema relativo ao banco que faz o financiamento. O que me estranha nisso tudo é que um cidadão fez um empréstimo para o PT e o PT o utilizou para repassar recursos para várias pessoas, ainda não identificadas plenamente. Agora, em princípio, numa operação financeira o banco que concede o empréstimo é quem tem o dever de exigir a caução daquilo que ele entende como garantia.

JG - Seria possível que o tesoureiro pudesse levantar milhões em empréstimos sem que os seus chefes soubessem o que ele fazia?
Gushiken - Em princípio, empréstimo de partido é uma coisa normal. O que eu acho que é muito estranho é o fato de que haja, nesse empréstimo, a mediação de um cidadão que tem contas de publicidade e utiliza esses contratos como caução. Isso me parece um pouco estranho. Agora, observe que o tesoureiro tem a atribuição exclusiva de operar esses assuntos. Entendo que a direção do partido, como bem disse o Tarso Genro (presidente nacional do PT), não tinha conhecimento. O executor dessa operação foi o tesoureiro, que tem a atribuição de fazer as operações. Em princípio, empréstimos como uma atividade partidária, é normal. O que é estranho e que deve merecer uma investigação bastante pormenorizada é essa aliança com uma empresa de publicidade que oferece contratos como aval para um banco emprestar. Eu penso que as investigações, ao detectar a lista de pessoas que foram beneficiadas, dará maior luz para a situação, dará mais claridade nessas coisas um pouco obscuras.

JG - Marcos Valério ofereceu contratos de publicidade com empresas estatais, o que revela uma relação promíscua de dinheiro público com interesses partidários, o senhor concorda?
Gushiken - Vamos separar. Contas de publicidade existem há muito tempo nos órgãos federais e nos órgãos do governo de administração direta. Isso existe há dezenas de anos e você sempre tem a mediação de uma agência de publicidade. Aliás, eu devo dizer que dos recursos que estão sendo divulgados pela imprensa, onde as duas agências de publicidade movimentam, não tem nada a ver com os valores que essas duas empresas do Marcos Valério têm junto às contas de publicidade do governo federal. Os valores são incompatíveis. O total de recursos das duas empresas de Marcos Valério, de 2003 até agora, giraram em torno de R$ 296 milhões. O grosso desses recursos é pago em veículos de comunicação: 70%, basicamente; 30% paga a gráfica, a produção de imagens e o lucro líquido resultante nesses dois anos e meio nesse volume total de recursos, a nossa estimativa é de que seja da ordem de R$ 18,5 milhões. Portanto, os valores, em termos de lucro líquido das duas agências de publicidade do Marcos Valério, não são exatamente a origem desse monumental volume de recursos que tem sido divulgado. Então é preciso investigar.

JG - Marcos Valério disse ao procurador da República que pelo menos "o capitão do time" do presidente Lula, José Dirceu, sabia das operações de empréstimos com lastro com contratos de publicidade de empresas estatais. O senhor acha que ele mentiu?
Gushiken - Eu não acho, não. Eu disse apenas que eu acho normal que um partido obtenha empréstimo. Se uma figura do partido teve conhecimento desse empréstimo, eu não vejo mal em si mesmo. O que me parece confuso é o fato de que nesse empréstimo você tem um cidadão que faz a mediação para entregar recursos ao partido e oferece ao banco que lhe emprestou, em caução, contratos de publicidade. Em princípio, contratos podem servir de caução se o banco aceitar. O que me parece confuso é exatamente essa triangulação. Mas só a investigação pode detectar se tem ilegalidade nesse processo.

JG - Quer dizer então que o senhor acha que o ex-ministro José Dirceu sabia dos empréstimos?
Gushiken - Não sei se sabia. Eu estou me baseando naquilo que eles estão dizendo de que o Marcos Valério afirmou que o José Dirceu sabia do empréstimo. Em matéria de empréstimo, isso é uma coisa rotineira no partido. A transação em si, isso me parece bastante confusa e a investigação deve clarear. Se o José Dirceu sabia ou não dessa operação, aí teria que perguntar ao ministro José Dirceu.

JG - O diretor de marketing do Banco do Brasil, um dos indicados pelo senhor para trabalhar na máquina estatal, está sob severas acusações de favorecimento do PT, enriquecimento pessoal e tráfico de influência. É uma pessoa na qual o senhor ainda confia?
Gushiken - O Henrique Pizzolato foi oriundo do movimento sindical bancário, onde atuei durante muito tempo, ele foi diretor eleito pelos funcionários do Banco do Brasil na Previ, portanto ele tinha conhecimento nessa atividade que ele exerceu. E quando o banco o indicou para a atividade de marketing, que tem uma ligação direta com a Secom, é evidente que eu não me opus. Eu tinha sobre o Pizzolato informações muito boas a respeito dele. Então, tudo aquilo que está sendo hoje insinuado sobre enriquecimento ilícito, sobre transações que não são objeto de uma legalidade, eu penso que a investigação deve ser feita. E se ele cometeu algum crime, tem que ser punido.

JG - O presidente da República disse que o PT "fez o que se fazia sistematicamente no Brasil", confirmando a existência de um caixa dois no partido. Desde quando o PT praticava o que criticava nos outros?
Gushiken - O presidente quando faz essa observação o faz movido por uma série de informações. Primeiro, quando o Roberto Jefferson, de maneira pública, faz essa colocação no ambiente da CPI, perante o Brasil inteiro. E tem vários estudos que mostram que um dos dramas do regime político brasileiro está no sistema de financiamento. Inclusive no Núcleo de Assuntos Estratégicos, cujos trabalhos estão sob minha responsabilidade, nós temos um trabalho recentemente entregue à comissão que discutiu a reforma política na Câmara dos Deputados, onde nesse trabalho identifica-se a reforma política como item estratégico no Brasil. E, dentro desse item, o financiamento como componente fundamental. É um estudo feito consultando centenas de cientistas, milhares de pessoas, onde a identificação da reforma política como a necessidade para o Brasil ter tranqüilidade institucional, ter inclusive ganhos, economia de recursos públicos, é identificado de maneira cristalina. E o financiamento é identificado no rol dos problemas que oferecem solução. Ou seja, a discussão do financiamento público de campanhas no Brasil não é de hoje, é bastante antiga. E penso que merece uma reflexão.

JG - A empresa Globalprev, da qual o senhor foi sócio, teve um aumento de faturamento considerável logo depois que se iniciou o governo Lula. Chegou-se a falar até em 600%, mas esse número foi corrigido. Qual foi, afinal, o aumento de faturamento dessa empresa? O senhor vê algum problema ético nisso?
Gushiken - Não, eu não vejo nenhum problema ético. O problema ético que eu vi foi quando a Prefeitura de Indaiatuba disponibilizou dados falsos e, só quase uma semana depois, fez a correção. E até lá, toda a mídia divulgou uma idéia absolutamente incorreta. A de que essa empresa, depois que eu saí dela, teve um aumento considerável no seu faturamento, insinuando que eu a estivesse protegendo. Na verdade, a maior elevação no faturamento dessa empresa se deu quando eu estava nessa empresa. A prefeitura inclusive, numa nota pública, lamenta os problemas de reputação que provocou em minha pessoa. Esta pergunta me oferece a oportunidade de explicar melhor para a sociedade. Essa empresa, de atuária, ela tinha uma parcela muito reduzida do mercado de atuária, mas é conduzida por pessoas da mais excelente competência. Inclusive, por ironia, o melhor cliente dessa empresa foi quando eu era dono e feito por encomenda do Ministério da Previdência do governo passado. O governo FHC fez uma encomenda de traduzir num livro os assuntos de atuária para as prefeituras e Estados. Esse foi o melhor serviço que essa empresa ofereceu.