Guilherme Fiuza condena "sanha" da imprensa em cobertura do caso Isabella Nardoni

Guilherme Fiuza condena "sanha" da imprensa em cobertura do caso Isabella Nardoni

Atualizado em 09/04/2008 às 14:04, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

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O jornalista Guilherme Fiuza, autor do livro "Meu nome não é Johnny", que originou o livro homônimo, escreveu em seu blog "Política e tudo mais", da revista Época , sobre o caso da menina Isabella Nardoni, morta no dia 29 de março ao cair do sexto andar de um prédio em São Paulo. O pai e madrasta são considerados suspeitos.

Em "A vida dos outros", postado no dia 4 de abril, Fiuza escreveu sobre sua experiência pessoal: no dia 2 de julho de 1990 seu primeiro filho, Pedro, caiu do oitavo andar do prédio em que moravam, em Botafogo.

"É difícil escrever sobre uma tragédia sem ser acusado de insensibilidade com a dor alheia. Talvez a saída mais segura seja falar da nossa própria", alegou Fiuza antes de contar o ocorrido: "desci de escada achando que seria mais veloz do que o elevador, talvez do que a própria queda. Encontrei-o já morto, e não precisava ser médico para constatar. Os ferimentos eram brutais".

O jornalista conta que voltou com o filho de elevador para dizer à mãe dele "que não podíamos fazer mais nada". E fala da "curiosidade mórbida e estupidez" da imprensa e da sociedade: "antes que pudéssemos entender o que fazer da nossa própria vida, já tínhamos uma certeza: não podíamos sair de casa. Estávamos presos lá, com dois policiais militares armados na porta do apartamento".

Fiuza precisou contratar um advogado antes de enterrar seu filho, que relatou a ele - embora o casal vivesse em harmonia e fosse particularmente tranqüilo - em depoimentos comprometedores do síndico e de vizinhos à polícia, dizendo ter ouvido ruídos altos de portas batendo, discussões febris, gritaria.

"Foi muito rápido, instantâneo, o castigo imposto pelos homens da lei, de mãos dadas com os vizinhos diligentes: ser tratado como suspeito da morte do próprio filho", escreveu Fiuza. Quando a Polícia Militar permitiu que eles deixassem o apartamento, tiveram que fazê-lo deitados no chão do carro, "para evitar a multidão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas".

Para ele, a mãe de Isabella Nardoni foi "quase jogada no chão pela sanha da imprensa. Uma mãe de quem a vida acabara de arrancar uma filha, que portanto mal se punha de pé por si mesma.", disse Fiuza. E completou: "Bem, colegas, morram de vergonha".

Ele lembrou ainda que, no Espírito Santo, há outro pai preso porque a filha caiu da janela. "São todas situações sobre as quais é preciso encontrar a verdade. Se os pais forem desgraçadamente culpados, precisam ser exemplarmente punidos, mas nada disso dá direito à sociedade de invadir a vida de uma família".

O jornalista termina o texto com um desabafo: "Se não é possível à coletividade imaginar na sua própria pele o ardor da tragédia, já seria um belo avanço civilizatório se ela entendesse, de uma vez por todas, que a vida (dos outros) não é um Big Brother".

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, o jornalista disse que considera a cobertura midiática do caso equilibrada. "Quando um caso estoura, há uma certa ansiedade da opinião pública, que se sente ultrajada - de maneira real, mas afoita - para tomar partido e encontrar um culpado. Depois, as informações e os excessos são polidos".

Fiuza considera que há um coquetel perigoso: autoridades irresponsáveis, policiais, promotores, delegados, que vão levantando versões e hipóteses, fazendo afirmações com juízos de valor, mas sem informação. "Ouvi numa rádio um delegado dizendo que achava a postura do pai muito estranha. Para mim, a declaração foi irresponsável e criminosa".

"A imprensa tem que ter sensibilidade para olhar com discernimento declarações de autoridades, disse-me-disse de vizinhos, não pode ser o espelho da precipitação", afirmou o jornalista, que ainda declarou não estar propondo mordaça, cerceamento ou inibição em favor da privacidade. 'Só quero bom senso, humanidade. Procurar mostrar a história com respeito. Se houver uma informação, é claro que ela deve ser apurada, jornalista tem que ir atrás de informação, mas sem perder o respeito".