Guila Flint apresenta em "Miragem de Paz" um testemunho dos conflitos entre israelenses e palestinos
Guila Flint apresenta em "Miragem de Paz" um testemunho dos conflitos entre israelenses e palestinos
Se partirmos do pressuposto que jornalismo é, sobretudo, vivência, Guila Flint tornou-se correspondente internacional antes mesmo de saber o que isso significava. A profissão lhe impregnaria os pensamentos no momento em que colocara os pés em Israel, aos 14 anos, levada por seus pais, judeus brasileiros.
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| Guila Flint |
A jornalista recebeu a reportagem do Portal IMPRENSA durante sua breve passagem pelo Brasil na semana em que o presidente de Israel, Shimon Peres, acompanhado de quarenta empresários, esteve no país, e a poucos dias da controversa visita do líder iraniano Mahmud Ahmadinejad. Considerando a projeção brasileira, Guila aponta como insustentável a manutenção de uma política externa desprovida de diretrizes e valores claros.
No entanto, em sua opinião, receber Ahmadinejad não figura como o ato mais contestável desta política pragmática, mas o fato do Brasil não ter ratificado o acordo proposto no Processo de Oslo, em 2008, o qual, entre outras questões, propunha a extinção de bombas de fragmentação. "São bombas que matam civis, a atitude do governo brasileiro passou de um limite que, como cidadã brasileira, acho inconcebível. Devem existir limites morais, sim".
Em outubro passado, Guila - que é considerada por Américo Martins, editor-executivo da BBC para as Américas, "uma das mais isentas jornalistas envolvidas no conflito" - lançou o livro "Miragem de Paz, processos e retrocessos", uma reunião de estudos sociológicos que aglutinam em palavras o inexplicável da relação de intolerância entre israelenses e palestinos, tendo como ponto de partida o assassinato do primeiro-ministro Itzhak Rabin, em 1995, por um compatriota da direita ultraortodoxa, quando o Estado de Israel se preparava para um eventual ataque maciço de seu inimigo conhecido. Na opinião de Guila, não morria apenas um chefe de estado, mas um líder único, proporcional ao momento político vivido à época.
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| Capa do livro |
E mesmo tendo relações incontestáveis com Israel, Guila fala da região sem que o sensacionalismo dos corpos dilacerados das mais variadas maneiras ou o argumento religioso guie a pauta. Fazendo caminho inverso aos textos sobre o conflito que se assemelham, em sua maioria, a obituários coletivos, as palavras de Guila descrevem pessoas; a presença de personagens em quase todas as reportagens de "Miragem de Paz" transmite a mensagem de que as mortes e ataques devem ser considerados, mas o foco da luta deve voltar-se aos que ainda estão vivos; ao futuro da região.
Nas matérias produzidas nos últimos quatorze anos para a BBC Brasil e, eventualmente, para outros veículos, estão percepções sobre os conflitos que ultrapassam as noções frias do fazer jornalístico e contribuem cabalmente para o entendimento da miscelânea de miséria, violência e intolerância. Porém, para Guila, o relato midiático não basta. "Se você se informa pela TV, terá um relato limitado", observa. "Tem que ler muito, de maneira crítica", acrescenta.
Em um primeiro momento, a impressão retirada do que é exposto por Guila nas páginas de "Miragem de Paz" é a de um evento cíclico que mina qualquer perspectiva de acordo entre os dois povos. Todavia, parafraseando o pacifista israelense Uri Avnery, a jornalista dá o tom de como devem ser encaradas as questões que opõem os habitantes de uma das regiões mais violentas e instáveis do mundo. "Na minha longa vida aprendi que, muitas vezes, quando tudo parece perdido, a solução já está a caminho".
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