"Grafite é subversão", diz o grafiteiro José Augusto Amaro Capela, o Zezão

"Grafite é subversão", diz o grafiteiro José Augusto Amaro Capela, o Zezão

Atualizado em 22/02/2008 às 17:02, por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA.

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Geralmente, o artista busca meios de dar visibilidade ao seu trabalho. Em hipótese alguma, escolhe os cantos mais remotos e sujos de uma cidade para divulgar suas obras. Para José Augusto Amaro Capela, vulgo Zezão, como é conhecido entre os grafiteiros do mundo todo, deixar suas marcas em esgotos, tampas de bueiros ou em paredes da "cracolândia" se transformou no modo mais sincero de transformar sentimentos marginais em arte.

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Galeria de esgoto

Grafiteiro desde 1995, Zezão ingressou no mundo das artes por acaso. "Eu desenhava sem pretensão. Queria só rabiscar", declara. Quando questionado sobre o motivo que o levou às ruas, Zezão responde sem dificuldades: "Eu sempre gostei das ruas, queria deixar a cidade mais bonita". A paixão pelo ambiente urbano, pela perturbação da metrópole sempre dirigiu a vida deste artista paulistano, nascido no bairro do Bom Retiro e criado em meio a galpões da antiga indústria paulista que levantava a economia no início do século XX.


"Nunca fui de estudar"

Zezão desistiu da escola em razão da falta de "paciência", segundo ele, para suportar a repetição de discursos que pouco, ou quase nada, acrescentavam algo a sua vida. Apesar da aparente rejeição aos estudos, o grafiteiro salienta que sente falta de conhecer um pouco mais sobre a arte, e que talvez isso o tenha prejudicado, de certa forma. "Mas isso eu penso agora, com 36 anos", argumenta. Todavia, aquele que, raramente, se depara com uma obra de Zezão, logo entende que a escola não prejudicou o artista na hora de criar.

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A dificuldade de encontrar um de seus grafites é justificada pelo próprio Zezão: "Ah, eu sempre pintei para as pessoas da rua. Pessoas como mendigos, gente de albergue que não tem condições de comprar arte". Segundo ele, seus alvos preferidos contradizem o princípio do grafite: dar visibilidade à mensagem criada. "Ninguém queria ir grafitar o esgoto comigo. Ninguém entendia nada", salienta.

O Portal IMPRENSA questionou a decisão de Zezão de buscar lugares pouco comuns para pintar. O artista revela que quanto mais inóspito é o local, maior a chance do trabalho continuar vivo. "Se eu pinto na 23 de maio ou na Consolação, no outro dia o Kassab apaga".

Apesar da despretensão dos trabalhos do artista, em 2005, algumas de suas obras foram expostas em uma tradicional galeria de arte urbana em São Paulo: a Choque Cultural. "Depois da Choque Cultural, eu comecei a ser chamado para várias exposições pelo mundo". Suas obras estão registradas em galerias de Nova York, Londres, Paris, Alemanha entre outros países. No Brasil, está no lugar em que tudo começou, na Choque Cultural.

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Além de expor nas grandes galerias de arte underground, o artista vende suas obras para quem deseja tê-las em sua casa. Ele grafita residências de empresários, publicitários, executivos e não sente qualquer tipo de receio em comercializar seu trabalho. "Quando eu era mais novo eu não aceitava isso". No entanto, Zezão salienta que não se pode deixar que oportunidades passem. Hoje, morador da Serra da Cantareira, bairro afastado do centro, o artista busca paz e tranqüilidade, longe da confusão que um dia lhe seduziu a largar a escola e dar vazão aos seus sentimentos por intermédio da arte.

Foto:
Zezão grafitando em uma galeria

Mesmo tendo aceito o apelo comercial de suas obras, Zezão revela que pintar as ruas ainda é a parte mais sedutora do mundo das artes. "Grafite é subversão, uma coisa ilegal. Muita gente não entende isso".

No próximo dia 25 de março, o grafiteiro expõe seu trabalho, junto de outros artistas das ruas, no Itaú Cultural, localizado na Avenida Paulista, 149, São Paulo, SP (próximo à estação Brigadeiro do metrô).

Para conhecer o trabalho de Zezão acesse:

(site oficial)