Globo, Record e o prejuízo à informação

Globo, Record e o prejuízo à informação

Atualizado em 28/08/2009 às 14:08, por Thaís Naldoni.

Há dias estou ensaiando para escrever uma coluna que traga alguma reflexão sobre o entrevero entre Rede Globo e Rede Record, ocasionado pelo indiciamento de Edir Macedo e outras nove pessoas da cúpula da Igreja Universal (proprietária da Record), que segundo o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), "desviaram recursos da instituição religiosa para a compra de empresas de comunicação e outros bens".

Obviamente, em tempos em que a briga pela preferência do telespectador é cada vez mais acirrada, a TV Globo deu atenção especial à pauta, com uma primeira matéria sobre o tema que ocupou dez minutos do "Jornal Nacional", o noticiário mais nobre da emissora. O espaço incomum, no entanto, foi ocupado por uma matéria, de fato, que explicava a denúncia e quais os passos da investigação do MP-SP.

No dia seguinte, esperei ansiosa pelo "Jornal da Record". Edir Macedo garantiu, por meio de seu perfil no Twitter, que responderia às acusações. Imaginei, é claro, que a "defesa" conteria alguma citação, ainda que velada, à Globo, em razão de disputa de audiência e do espaço dado ao indiciamento. No entanto, a proclamada "defesa" nada mais foi que um ataque frontal à TV Globo, além de uma outra matéria que mostrava as obras assistenciais da Igreja, já que a suspeita é de que o dinheiro arrecadado com o dízimos dos fieis, que é livre de impostos, e deveria ser usado para caridade, estava sendo usado para a compra de bens particulares. Sobre a denúncia? Nada.

Nos dias que seguiram o 11/08, data da primeira matéria sobre a denúncia exibida pela TV Globo, houve uma sequência de reportagens tratando o tema, sempre com as mesmas características, até que em 24/08, foi divulgado que a investigação passava a correr em "segredo de Justiça", ou seja, fontes oficiais não poderiam mais repassar informações à mídia.

Todo esse resgate faço para mostrar o quanto a briga pela audiência e a briga de egos prejudica a informação. Sem querer defender a Rede Globo, nesse caso suas pautas foram bem mais informativas (ainda que fosse do interesse da emissora). Já no caso da Record, a manipulação da informação e dos telespectadores ficou evidente. A emissora de Edir Macedo dava a entender, a todo o instante, que as acusações partiam da Rede Globo, que estaria incomodada com crescimento da concorrente, quando, na verdade, a denúncia foi feita pelo Ministério Público, com base em uma longa investigação.

Aqui mesmo no Portal IMPRENSA, quando postei uma matéria sobre essa " ", muitos dos comentários mostravam que a estratégia da Record funcionou, à medida em que muitos internautas, de fato, associavam a denúncia de desvio de verbas do dízimo, feita pelo Ministério Público, à briga pela audiência.

É fato inegável o crescimento da Rede Record e acredito piamente que, quanto mais opções de qualidade forem postas à disposição do telespectador, mais benefícios ele terá. No entanto, confundir esse telespectador, desviando a notícia de seu real foco, é um desserviço à informação e coloca em xeque a isenção e idoneidade de um veículo de mídia.