Glamour, política e porrada

Glamour, política e porrada

Atualizado em 16/12/2004 às 12:12, por Lígia Cortez e Pedro Venceslau.

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Qual o limite entre a liberdade de imprensa e o direito a privacidade? Segundo a lei brasileira, quase nenhum. De acordo com a advogada cível e empresarial Graziela de Sousa Junqueira, especialista no tema, não há restrições legais que impeçam um profissional tirar fotos de alguém, principalmente em local público: “O fotografado, caso se considere ofendido ou difamado, pode até abrir um processo de indenização por danos à imagem. O fotógrafo, porém, não será preso. Se perder a ação, o que é difícil, no máximo pagará uma multa”. Ainda segundo a advogada, processos contra fotógrafos no Brasil não costumam ser levados em consideração nos tribunais. “A maioria dos juizes teme que os tribunais se tornem uma indústria de processos de assuntos de baixa importância, como acontece nos Estados Unidos”, completa. Discussões jurídicas à parte, o fato é que, como reza o pisado ditado popular, quem está na chuva é para se molhar. Sendo assim, que direito tem uma celebridade que dedica sua existência de corpo, alma e assessoria em busca de um lugar na arena do sucesso, nem que seja, parodiando Xico Sá, “no cantinho da coluna, no jornal de bairro, em letra corpo 8”, a virar o jogo e tripudiar em cima dos caçadores de imagem? Apesar do vício descontrolado pela fama, de tempos em tempos, famosos que lutaram a vida inteira para “chegar lá” se insurgem inexplicavelmente contra seu objeto de desejo. Quando esse fenômeno acontece, geralmente quem paga a conta é o fotógrafo. Sempre ele. A vítima mais recente desta, digamos, tensão pós fama, foi o “paparazi” Cassiano de Souza, da revista Caras. No último dia 26 de novembro, uma sexta, ele desembarcou em Itacaré, na Bahia, com uma missão aparentemente simples: flagrar Luma de Oliveira com seu suposto novo namorado em um resort. Simples porque, em se tratando de Luma, uma habituê de Caras e suas adjacências litorâneas, exposição nunca é demais.

Uma vez hospedado no mesmo resort de sua caça, Cassiano foi ao trabalho. O resto deste script todo mundo conhece: Entre um clique e outro, o fotógrafo foi abordado pelo jovem que acompanhava Luma, um policial. As cenas seguintes: socos, pontapés, equipamento arrebentado. E Luma lá, assistindo a cena impassível. De repente, não mais que repente, o símbolo máximo de seu fetiche se converteu no abutre de “A Doce Vida”, de Felini, filme que deu origem a palavra Paparazo, uma alusão ao fotógrafo de mesmo nome que inspirou o diretor. A história acabou nas manchetes das concorrentes, virou outdoor e culminou com uma matéria interminável no “Fantástico”. Em pauta não mais o fotógrafo arrebentado, mas o suposto romance. Afinal, vem chegando o Carnaval.

No quintal de Maluf

O fim de 2004 foi mesmo farto em histórias de violência contra a imprensa. Na mesma sexta-feira de novembro em que começou o caso Luma, o Ministério Público Federal apresentou novas denúncias e pediu a prisão preventiva do ex-prefeito Paulo Maluf. Jornalistas e fotógrafos fizeram uma concentração em frente a casa da fonte do dia. Enquanto esperava um sinal de vida do ex-prefeito, Marcelo Min, fotógrafo freelancer da Folha de S.Paulo, fotografou um veículo que estava estacionado irregularmente na casa vizinha, com dois pneus em cima da calçada. O motorista não gostou do flash e foi tirar satisfação. Min afirmou que tinha direito de fazer a fotografia, como de fato tem, pois se tratava de um local público.

“De repente, um homem veio para cima de mim e me bateu com um objeto que achei ser de borracha. Tentei proteger meu equipamento e ele me acertou umas sete vezes. A primeira foi na cabeça e as outras no queixo, costas e braço”, conta Min. O agressor, identificado como Marcelo Silva, e o motorista do carro são funcionários da Gocil e seguranças particulares do dono da residência e proprietário da empresa. O caso de Min, ao contrário de Cassiano, durou somente até o noticiário do dia seguinte.