George Clooney e eu numa recepção da Vila Olímpia

George Clooney e eu numa recepção da Vila Olímpia

Atualizado em 29/01/2010 às 09:01, por Lucia Faria.

Estou na recepção de um possível cliente e, pela primeira vez, tentarei adiantar meu artigo escrevendo no celular. Não foi para isso que comprei uma traquitana tão cheia de recursos? Então, vou usar. Aliás, você já reparou o tempo que fornecedor gasta em recepção de empresas? Dava para escrever um livro. Inclusive com as histórias que a gente ouve das recepcionistas. Elas acabam virando nossas mais íntimas amigas.

O artigo hoje é inspirado em George Clooney, cujo filme "Amor Sem Escalas", assisti recentemente no cinema. Clooney já seria inspiração suficiente para qualquer assunto, mas o filme tem uma abordagem bastante interessante sobre o mundo corporativo. O personagem bate uma marca invejável na milhagem da companhia aérea (acho que eu bateria recorde de milhagem em tempo gasto nas recepções das empresas). Sua função é demitir pessoas nas grandes corporações norte-americanas. Trabalho duro, mas não para um ser solitário e que dá as costas aos relacionamentos e às pessoas ao seu redor. Ao seu modo, é feliz.

Um dia, a solução dos problemas da empresa, a grande sacada, vem de uma jovem de 23 anos. Firme e cheia de certezas, ela demonstra durante uma boa apresentação como a tecnologia passará a ser utilizada para demitir as pessoas. Simples. Ao invés de dispensas pessoalmente, agora tudo via computador. Face to face, só que a milhas de distância. Não vou contar mais o filme por dois motivos: não quero estragar sua ida ao cinema e também espero ser chamada em instantes e preciso terminar rápido este artigo.

O filme nos faz lembrar as diversas matérias já lidas em veículos especializados sobre a juniorização das empresas em áreas e cargos de extrema relevância. Empolgados, profissionais trilíngues e com excelente desempenho no MBA chegam arrasando nas empresas. Para eles, quem está lá é old fashion (o inglês é sua primeira língua). Fornecedores são tratados desrespeitosamente e se vingam escrevendo artigos contra eles nas recepções da Vila Olímpia, bairro que tenta ser um pedaço do Vale do Silício em São Paulo.

Clooney dá uma aula para essa jovem. Mostra a vida real. Ela desmorona e derruba a máscara, demonstrando-se frágil e sonhadora. O mundo não era o que imaginava, nem o corporativo nem a vida do lado de fora da empresa. Ele, por sua vez, também aprendeu muito com essa convivência. E assim devemos encarar nosso destino profissional. Velhos ou novos, temos de ouvir e compreender o outro. Só não entendo porque ainda não fui chamada e continuo nesta recepção.