Gay ou não-gay?
Gay ou não-gay?
Atualizado em 17/10/2008 às 15:10, por
Rodrigo Manzano.
Um bêbado trôpego, na Avenida Liberdade, região central de São Paulo, anunciou seu voto para o segundo turno das eleições paulistanas: "entre a puta e o viado, eu fico com a puta". Os atributos "puta" e "viado", para além da denotação puramente sexual, carregam, no contexto da última semana, outros significados. A "puta" não é a mulher que vende a experiência sexual, mas, sobretudo, a mulher que, em troca de dinheiro, oferece a ilusão do afeto e a disponibilidade imediata enquanto entrega outra mercadoria, mais banal. Já o "viado" não é o homossexual, mas o histriônico, o afetado, o escandaloso. Ao serviço público, pouco importa se, na alcova, os candidatos são puta ou viado, no seu sentido mais primário; muito mais interessa "puta" ou "viado" no sentido menos literal, subjetivo.
Desnecessário afirmar que a campanha da candidata Marta Suplicy errou ao questionar, no contexto da disputa eleitoral, se Gilberto Kassab é casado e tem filhos. Fora do contexto, é uma pergunta banal. Cabe até na boca de Ana Maria Braga ("Candidato, me diga uma coisa, o senhor é casado, tem filhos?", entre uma xícara de chá e um bolinho de chuva, não tem impacto algum). Marta errou porque permitiu que o marketing eleitoral entrasse em contradição com sua luta histórica a favor dos homossexuais brasileiros. Gilberto Kassab também errou, ao estimular que o debate fosse permeado por uma questão, de fato, irrelevante. Ele poderia, simplesmente, ignorar a suposta indelicadeza. Mas, todos nós o sabemos, delicadeza é artigo raro em guerras, sobretudo as políticas.
Durante os últimos cinco dias, no entanto, perdemos a oportunidade de debater profundamente os limites entre público e privado, entre informação e propaganda, entre moral e moralismo. Há uma ética particular das eleições? Candidatos e políticos têm vida privada? Há temas proibidos? Mas, principalmente, perdemos a oportunidade histórica de discutir, mais amplamente, o que representa esse terreno movediço da sexualidade na política.
As relações de gênero, sabemos, são relações de poder. Homens e mulheres, hétero ou homossexuais, bissexuais ou transgêneros: impossível escapar dos rótulos e, ao assumi-los, tornamo-nos obrigados a carregar com eles o que se espera de nós no desempenho desses papéis. Assim, não basta ser mulher, por exemplo, é prudente parecer uma mulher honesta; não é suficiente ser homem e heterossexual, é preciso ser viril, corajoso e provedor. Há uma escala perversa que hierarquiza os gêneros e as orientações sexuais. Nas sociedades patriarcais, o homem "vale" mais que a mulher, nos grupos conservadores, o hétero mais que o gay, e assim por diante. Na lanterna da escala, estão os sujeitos híbridos, aparentemente indefinidos, os transgêneros, empurrados para as bordas. Ninguém discute que o debate em torno da desnecessária pergunta de Marta e da recusa e irritação de Kassab reitera, novamente, a escala de valores para quem ser gay significa ser "menor", ou "moralmente duvidoso".
A opinião pública - a mesma que caiu no engodo moralista da separação de Marta e Eduardo Suplicy e seu casamento com Luís Favre, utilizada nas entrelinhas pelos opositores e amplamente divulgada pelos jornais em 2004, onde se forjou um pouco da imagem da "puta" - desta vez não suportou passivamente o confronto nos níveis sugeridos. Talvez porque esteja mais amadurecida. Mas também pode ser que, nesse caso, 1) manifestou que a orientação sexual do candidato não interessa; 2) ignorou o debate possível porque não o toleraria ou 3) tem mais afeição aos "viados" que às "putas".
O jornalismo foi o terceiro ator no episódio. Os mesmos jornais que repudiaram - explícita ou implicitamente - o ato de campanha, não se furtaram a perguntar, especialmente a Folha de S.Paulo , ao candidato se ele é gay. Há um problema de lógica no ato. Se não importa, porque perguntaram? Kassab negou, mas poderia ter sido coerente se respondesse: "Não interessa", mas a margem para dúvidas seria um fardo pesado demais. Nas redações, há anos, aventam-se histórias sexuais tenebrosas sobre políticos. Mas os jornalistas, movidos por um pudor ético ou pela falta de coragem, não arriscam trazê-las à tona. As redações não podem dar o pontapé inicial, mas podem, como se diz, "repercutir". É a maneira transversal de entrar no jogo sujo, ampliando aquilo sobre o qual só se conversa no bar.
Suponho que Kassab tenha falado a verdade ao responder, na Sabatina da Folha , não ser gay. Mas lamento que, ao fazê-lo, tenha pura e simplesmente assumido ser "não-gay".

Desnecessário afirmar que a campanha da candidata Marta Suplicy errou ao questionar, no contexto da disputa eleitoral, se Gilberto Kassab é casado e tem filhos. Fora do contexto, é uma pergunta banal. Cabe até na boca de Ana Maria Braga ("Candidato, me diga uma coisa, o senhor é casado, tem filhos?", entre uma xícara de chá e um bolinho de chuva, não tem impacto algum). Marta errou porque permitiu que o marketing eleitoral entrasse em contradição com sua luta histórica a favor dos homossexuais brasileiros. Gilberto Kassab também errou, ao estimular que o debate fosse permeado por uma questão, de fato, irrelevante. Ele poderia, simplesmente, ignorar a suposta indelicadeza. Mas, todos nós o sabemos, delicadeza é artigo raro em guerras, sobretudo as políticas.
Durante os últimos cinco dias, no entanto, perdemos a oportunidade de debater profundamente os limites entre público e privado, entre informação e propaganda, entre moral e moralismo. Há uma ética particular das eleições? Candidatos e políticos têm vida privada? Há temas proibidos? Mas, principalmente, perdemos a oportunidade histórica de discutir, mais amplamente, o que representa esse terreno movediço da sexualidade na política.
As relações de gênero, sabemos, são relações de poder. Homens e mulheres, hétero ou homossexuais, bissexuais ou transgêneros: impossível escapar dos rótulos e, ao assumi-los, tornamo-nos obrigados a carregar com eles o que se espera de nós no desempenho desses papéis. Assim, não basta ser mulher, por exemplo, é prudente parecer uma mulher honesta; não é suficiente ser homem e heterossexual, é preciso ser viril, corajoso e provedor. Há uma escala perversa que hierarquiza os gêneros e as orientações sexuais. Nas sociedades patriarcais, o homem "vale" mais que a mulher, nos grupos conservadores, o hétero mais que o gay, e assim por diante. Na lanterna da escala, estão os sujeitos híbridos, aparentemente indefinidos, os transgêneros, empurrados para as bordas. Ninguém discute que o debate em torno da desnecessária pergunta de Marta e da recusa e irritação de Kassab reitera, novamente, a escala de valores para quem ser gay significa ser "menor", ou "moralmente duvidoso".
A opinião pública - a mesma que caiu no engodo moralista da separação de Marta e Eduardo Suplicy e seu casamento com Luís Favre, utilizada nas entrelinhas pelos opositores e amplamente divulgada pelos jornais em 2004, onde se forjou um pouco da imagem da "puta" - desta vez não suportou passivamente o confronto nos níveis sugeridos. Talvez porque esteja mais amadurecida. Mas também pode ser que, nesse caso, 1) manifestou que a orientação sexual do candidato não interessa; 2) ignorou o debate possível porque não o toleraria ou 3) tem mais afeição aos "viados" que às "putas".
O jornalismo foi o terceiro ator no episódio. Os mesmos jornais que repudiaram - explícita ou implicitamente - o ato de campanha, não se furtaram a perguntar, especialmente a Folha de S.Paulo , ao candidato se ele é gay. Há um problema de lógica no ato. Se não importa, porque perguntaram? Kassab negou, mas poderia ter sido coerente se respondesse: "Não interessa", mas a margem para dúvidas seria um fardo pesado demais. Nas redações, há anos, aventam-se histórias sexuais tenebrosas sobre políticos. Mas os jornalistas, movidos por um pudor ético ou pela falta de coragem, não arriscam trazê-las à tona. As redações não podem dar o pontapé inicial, mas podem, como se diz, "repercutir". É a maneira transversal de entrar no jogo sujo, ampliando aquilo sobre o qual só se conversa no bar.
Suponho que Kassab tenha falado a verdade ao responder, na Sabatina da Folha , não ser gay. Mas lamento que, ao fazê-lo, tenha pura e simplesmente assumido ser "não-gay".






