“Garibaldi foi o herói que soube melhor usar a imprensa”, afirma Gianni Carta
Com ponchos, boinas negras e camisas vermelhas e montado em seu cavalo - mesmo não sabendo muito bem cavalgar-, o revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi (1807-1882) vendeu muito bem sua imagem de gaúcho.
Atualizado em 05/09/2013 às 15:09, por
Gabriela Ferigato.
Figura que a imprensa ajudou a construir.
Crédito: "É um livro sobre bastidores da história", afirma o autor
Fruto de oito anos de pesquisa em seis países (Itália, França, Grã-Bretanha, Argentina, Uruguai e Brasil), o jornalista e cientista social Gianni Carta lança o livro “Garibaldi na América do Sul: o Mito do Gaúcho”, que mostra como a influência militarista de Giuseppe Mazzini, o jornalismo de Giovanni Cuneo e Luigi Rossetti, as descrições do romancista Alexandre Dumas (autor de “Os Três Mosqueteiros” e “O Conde de Monte Cristo”) e outros escritores ajudaram a compor a imagem do mito.
Ele viajava com fotógrafos, pintores e incentivava que a imprensa o acompanhasse durante as batalhas. Durante a história, o próprio Garibaldi compreendeu o valor do jornalismo e da literatura como forma de se autopromover.
Confira a entrevista de Gianni Carta à IMPRENSA:
IMPRENSA: Qual foi a motivação para escrever sobre Garibaldi? GIANNI CARTA: Em 2002, eu estava em uma Feira de Livros em Paris e vi um título chamado “Garibaldi”, de Jérôme Grévy. A capa retratava a imagem de um perfeito gaúcho. Comprei, comecei a ler e achei muito interessante. Acho que a passagem de Garibaldi pela América do Sul é muito má coberta. A partir disso, passei dois anos (2002 a 2004) lendo tudo o que podia sobre ele. Já em 2003, comecei a escrever. Ele passou 13 anos na América do Sul e eu queria contar os detalhes desse momento. Não queria fazer um livro para “heroizar”, mas sim contar a história do mito.
Como você define esse “mito”? Em julho de 1848, Garibaldi desembarcou na Itália com a vestimenta de gaúcho, porém no Rio Grande do Sul e na Argentina ele não usava esses trajes. Os heróis românticos precisavam de figurinos. Achei tudo isso fascinante e quis descobrir o que havia por trás disso. Ele era um general que queria se mostrar como anticonformista e que usava táticas de guerrilha, além de se revelar como um homem exótico. Na época, tinham desenvolvido a litografia e ele aparecia em jornais ingleses, franceses e italianos. No Brasil, contou com a “divulgação” do jornalista Luigi Rossetti, que escrevia para o jornal O Povo . Todo mito pode ser inventado ou ter fundamento. No caso de Garibaldi há fundamento. Ele foi um herói, lutou com sucesso e ganhou muitas batalhas. É um livro sobre bastidores da história, onde ocorre, pela primeira vez, um processo de autopromoção de um herói.
Em um trecho do seu livro, Giuseppe Mazzini faz a seguinte afirmação: “a imprensa é hoje o árbitro das ações”. Você acredita que ela ainda exerce esse papel? Acho que sim. O jornalista tem que repetir uma mesma história diversas vezes. Existem alguns assuntos que eu repito muito como, por exemplo, a homofobia. Repito para que as pessoas possam perder os preconceitos. Mazzini sempre voltava a falar sobre o “fim da monarquia”. Em termos de imprensa e mídia, essa afirmação continua válida. Em minha opinião, falta muito debate no Brasil, principalmente nos veículos de comunicação. Eu admiro muito a imprensa da Itália, França e Reino Unido. Acredito que nesses países existe um debate aprofundado. A imprensa brasileira já foi muito melhor.
Há a menção, em seu livro, sobre a importância das personalidades heroicas na política. Você acredita que isso é aplicado na imprensa brasileira? Existem personalidades desse tipo em nossa sociedade ou estamos mais para os “anti-herois”? Acho que existe uma diferença de tratamento, como, por exemplo, entre os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. Recentemente, vi um debate dizendo que o Lula deveria ser o novo presidente da Organização das Nações Unidas (ONU). Também existe uma imprensa que trata o Fernando Henrique como o presidente que tirou o Brasil do precipício. Há muita gente na imprensa que acha que esses dois são heróis. Em minha opinião, a política brasileira não é nada interessante, simplesmente porque não existe debate. Os assuntos são chatos e todo mundo tem a mesma opinião. São poucas as publicações divergentes. Existem exceções, mas são realmente raras. Ou você é “lulista” ou você é “tucano”. Ou você é isso ou você é aquilo. É tudo muito extremo.
Você afirma que “a imagem de gaúcho foi engrandecida por outros repórteres, escritores de todas as nacionalidades”. Assim como: “o marketing de Garibaldi na América do Sul começa graças a dois jornalistas”. Você acredita que a imagem do personagem retratada na imprensa daquela época foi fiel aos fatos ou houve uma “vangloriação” do personagem? Houve sim uma vangloriação, mas que considero como natural. Esses jornalistas chegavam até mesmo a mudar números, a exemplo da quantidade de mortes: as baixas do lado de Garibaldi eram inferiores aos números verdadeiros. Eles eram todos republicanos, então tomavam partido. Mas Garibaldi mereceu muita coisa. Esse personagem não foi inventado.
Garibaldi já foi retratado muitas vezes no cinema e na televisão. Uma das representações mais lembradas foi caracterizada por Thiago Lacerda na minissérie "A Casa das Sete Mulheres". Por que existe esse fascínio por ele? Ele nem sempre foi um fascínio no Brasil. No tempo do Estado Novo [1937-1945], sua imagem nunca foi apropriada. Getúlio Vargas era um gaúcho centralizador, já Garibaldi um italiano separatista. Ele também não podia ser aceito no período da ditadura brasileira [1964 a 1985]. Não era nem ao menos ensinado nas escolas até os anos 80. Eu aprendi sobre o personagem em casa, com meus pais italianos. A novela ajudou a popularizar o personagem, coisa que no Sul do país sempre foi lembrado. O Garibaldi retratado na novela não era o original, esse que era muito mais sério, introvertido e lacônico. Ele não era o Thiago Lacerda. Mas fizeram certo ao tentar mudar o personagem, é necessário atrair o público.
Crédito:divulgação
Em sua opinião, como foi a relação de Garibaldi com a imprensa? Foi o primeiro processo de autopromoção de um herói da história moderna e o que soube melhor usar a imprensa. O primeiro herói celebridade. Talvez com exceção de Napoleão, mas nesse caso a divulgação era mais local. Garibaldi viajava com fotógrafos (após 1840), pintores e jornalistas. Os artigos, mesmo em suas derrotas, o mostravam como vitorioso.
Qual é a principal dificuldade em escrever sobre o passado? Várias. Eu escrevi esse livro e ao mesmo tempo outros três sobre jornalismo, além de escrever os artigos da revista. Um dia eu estava na França, durante um período de duas semanas de férias, revisando o livro e me ligaram da CartaCapital pedindo para eu ir à Itália para entrevistar o Papa, porque ele viria para o Brasil. Larguei tudo, pois não tinha como levar o arquivo do livro. Aí passei uma semana só pensando em Papa, sai do mundo do Garibaldi e entrei em outro. Existe essa dificuldade em sair do universo do livro e entrar no do jornalismo, que envolve o presente e o imediatismo. Outra coisa é que sou casado e tenho dois filhos e você se sente mal, como em qualquer profissão, quando começa a trabalhar sábado e domingo e não passa o devido tempo com a família. Eu me dei conta que estava exagerando quando a minha mulher chegou para mim um dia e disse: “O Garibaldi vem jantar?”. Uma coisa eu digo, nunca mais vou escrever sobre um personagem que já morreu. Agora só pretendo escrever livros jornalísticos. Bom, de repente alguém me faz uma proposta interessante e eu topo. Mas posso dizer que foi cansativo.
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Crédito: "É um livro sobre bastidores da história", afirma o autor
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Ele viajava com fotógrafos, pintores e incentivava que a imprensa o acompanhasse durante as batalhas. Durante a história, o próprio Garibaldi compreendeu o valor do jornalismo e da literatura como forma de se autopromover.
Confira a entrevista de Gianni Carta à IMPRENSA:
IMPRENSA: Qual foi a motivação para escrever sobre Garibaldi? GIANNI CARTA: Em 2002, eu estava em uma Feira de Livros em Paris e vi um título chamado “Garibaldi”, de Jérôme Grévy. A capa retratava a imagem de um perfeito gaúcho. Comprei, comecei a ler e achei muito interessante. Acho que a passagem de Garibaldi pela América do Sul é muito má coberta. A partir disso, passei dois anos (2002 a 2004) lendo tudo o que podia sobre ele. Já em 2003, comecei a escrever. Ele passou 13 anos na América do Sul e eu queria contar os detalhes desse momento. Não queria fazer um livro para “heroizar”, mas sim contar a história do mito.
Como você define esse “mito”? Em julho de 1848, Garibaldi desembarcou na Itália com a vestimenta de gaúcho, porém no Rio Grande do Sul e na Argentina ele não usava esses trajes. Os heróis românticos precisavam de figurinos. Achei tudo isso fascinante e quis descobrir o que havia por trás disso. Ele era um general que queria se mostrar como anticonformista e que usava táticas de guerrilha, além de se revelar como um homem exótico. Na época, tinham desenvolvido a litografia e ele aparecia em jornais ingleses, franceses e italianos. No Brasil, contou com a “divulgação” do jornalista Luigi Rossetti, que escrevia para o jornal O Povo . Todo mito pode ser inventado ou ter fundamento. No caso de Garibaldi há fundamento. Ele foi um herói, lutou com sucesso e ganhou muitas batalhas. É um livro sobre bastidores da história, onde ocorre, pela primeira vez, um processo de autopromoção de um herói.
Em um trecho do seu livro, Giuseppe Mazzini faz a seguinte afirmação: “a imprensa é hoje o árbitro das ações”. Você acredita que ela ainda exerce esse papel? Acho que sim. O jornalista tem que repetir uma mesma história diversas vezes. Existem alguns assuntos que eu repito muito como, por exemplo, a homofobia. Repito para que as pessoas possam perder os preconceitos. Mazzini sempre voltava a falar sobre o “fim da monarquia”. Em termos de imprensa e mídia, essa afirmação continua válida. Em minha opinião, falta muito debate no Brasil, principalmente nos veículos de comunicação. Eu admiro muito a imprensa da Itália, França e Reino Unido. Acredito que nesses países existe um debate aprofundado. A imprensa brasileira já foi muito melhor.
Há a menção, em seu livro, sobre a importância das personalidades heroicas na política. Você acredita que isso é aplicado na imprensa brasileira? Existem personalidades desse tipo em nossa sociedade ou estamos mais para os “anti-herois”? Acho que existe uma diferença de tratamento, como, por exemplo, entre os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. Recentemente, vi um debate dizendo que o Lula deveria ser o novo presidente da Organização das Nações Unidas (ONU). Também existe uma imprensa que trata o Fernando Henrique como o presidente que tirou o Brasil do precipício. Há muita gente na imprensa que acha que esses dois são heróis. Em minha opinião, a política brasileira não é nada interessante, simplesmente porque não existe debate. Os assuntos são chatos e todo mundo tem a mesma opinião. São poucas as publicações divergentes. Existem exceções, mas são realmente raras. Ou você é “lulista” ou você é “tucano”. Ou você é isso ou você é aquilo. É tudo muito extremo.
Você afirma que “a imagem de gaúcho foi engrandecida por outros repórteres, escritores de todas as nacionalidades”. Assim como: “o marketing de Garibaldi na América do Sul começa graças a dois jornalistas”. Você acredita que a imagem do personagem retratada na imprensa daquela época foi fiel aos fatos ou houve uma “vangloriação” do personagem? Houve sim uma vangloriação, mas que considero como natural. Esses jornalistas chegavam até mesmo a mudar números, a exemplo da quantidade de mortes: as baixas do lado de Garibaldi eram inferiores aos números verdadeiros. Eles eram todos republicanos, então tomavam partido. Mas Garibaldi mereceu muita coisa. Esse personagem não foi inventado.
Garibaldi já foi retratado muitas vezes no cinema e na televisão. Uma das representações mais lembradas foi caracterizada por Thiago Lacerda na minissérie "A Casa das Sete Mulheres". Por que existe esse fascínio por ele? Ele nem sempre foi um fascínio no Brasil. No tempo do Estado Novo [1937-1945], sua imagem nunca foi apropriada. Getúlio Vargas era um gaúcho centralizador, já Garibaldi um italiano separatista. Ele também não podia ser aceito no período da ditadura brasileira [1964 a 1985]. Não era nem ao menos ensinado nas escolas até os anos 80. Eu aprendi sobre o personagem em casa, com meus pais italianos. A novela ajudou a popularizar o personagem, coisa que no Sul do país sempre foi lembrado. O Garibaldi retratado na novela não era o original, esse que era muito mais sério, introvertido e lacônico. Ele não era o Thiago Lacerda. Mas fizeram certo ao tentar mudar o personagem, é necessário atrair o público.
Crédito:divulgação
Em sua opinião, como foi a relação de Garibaldi com a imprensa? Foi o primeiro processo de autopromoção de um herói da história moderna e o que soube melhor usar a imprensa. O primeiro herói celebridade. Talvez com exceção de Napoleão, mas nesse caso a divulgação era mais local. Garibaldi viajava com fotógrafos (após 1840), pintores e jornalistas. Os artigos, mesmo em suas derrotas, o mostravam como vitorioso. Qual é a principal dificuldade em escrever sobre o passado? Várias. Eu escrevi esse livro e ao mesmo tempo outros três sobre jornalismo, além de escrever os artigos da revista. Um dia eu estava na França, durante um período de duas semanas de férias, revisando o livro e me ligaram da CartaCapital pedindo para eu ir à Itália para entrevistar o Papa, porque ele viria para o Brasil. Larguei tudo, pois não tinha como levar o arquivo do livro. Aí passei uma semana só pensando em Papa, sai do mundo do Garibaldi e entrei em outro. Existe essa dificuldade em sair do universo do livro e entrar no do jornalismo, que envolve o presente e o imediatismo. Outra coisa é que sou casado e tenho dois filhos e você se sente mal, como em qualquer profissão, quando começa a trabalhar sábado e domingo e não passa o devido tempo com a família. Eu me dei conta que estava exagerando quando a minha mulher chegou para mim um dia e disse: “O Garibaldi vem jantar?”. Uma coisa eu digo, nunca mais vou escrever sobre um personagem que já morreu. Agora só pretendo escrever livros jornalísticos. Bom, de repente alguém me faz uma proposta interessante e eu topo. Mas posso dizer que foi cansativo.
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