"Games também são um meio de comunicação", diz o jornalista Rafael Kenski
Jornalistas e publicitários engajados no uso de games comentam o potencial da mídia como gênero jornalístico, e também na propaganda.
Atualizado em 22/04/2014 às 16:04, por
Lucas Carvalho*.
Segundo o último levantamento do centro de pesquisa norte-americano DFC Intelligence, a indústria mundial de jogos eletrônicos movimenta, atualmente, cerca de 60 bilhões de dólares por ano. O Brasil é o quarto maior mercado consumidor do planeta, tendo movido mais de R$ 850 milhões somente em 2012.
Crédito:Reprodução Primeiro newsgame da revista "Superinteressante
O alto nível de engajamento dos videogames chama tanto a atenção que a plataforma já é usada como ferramenta de ensino em diversas escolas, como a Quest to Learn, em Nova York. Até mesmo a Unaerp (Universidade de Medicina em Ribeirão Preto) já usou jogos eletrônicos em pesquisas contra o Mal de Parkinson. Não demoraria para que o universo da comunicação também reconhecesse o potencial da ferramenta.
No jornalismo, surgiram os newsgames. O termo, que significa “jogo de notícia”, numa tradução livre, surgiu em 2003, criado pelo designer uruguaio Gonzalo Frasca e pelo americano Ian Bogost. Trata-se de um estilo de jogo virtual que se baseia em fatos ou notícias reais para transmitir informação e divertir ao mesmo tempo.
Crédito:Arquivo pessoal
Fred di Giacomo vê os games como novo caminho para informação
Os jornalistas Fred di Giacomo e Rafael Kenski são pioneiros do gênero no Brasil. Ex-colegas na Superinteressante , um dos primeiros newsgames brasileiros, publicado no site da revista, foi ideia deles. “ ” coloca o jogador na pele de um investigador criminal em busca de pistas para solucionar os mais intrincados mistérios.
“Quando a gente começou, nem sabíamos o que era um newsgame. Começamos a fazer porque éramos jornalistas que gostavam de games. Foi só quando o André Deak publicou uma resenha do nosso jogo do CSI no site dele, dizendo que a gente estava meio que inaugurando o gênero newsgame no Brasil, que a descobrimos que isso já existia lá fora”, conta di Giacomo, ex-editor da revista.
Desde então, a Superinteressante se tornou o principal veículo de newsgames no Brasil. Apesar de outros jornais e revistas terem reproduzido seus próprios jogos, como O Globo , O Estado de S. Paulo e o Grupo RBS, é na publicação da editora Abril que o gênero recebe maior destaque. Após sucessos como o “ ” e o “ ”, o último game publicado pela Super chama-se “ ”, lembrando os 50 anos do golpe militar.
Potencial multimídia
Games de sucesso obedecem a certos aspectos estruturais. De acordo com Kenski, assim como em um infográfico, o newsgame exige extremo rigor à informação, mas também deve ser divertido. Desse modo, nem todo tipo de conteúdo informativo pode ser transformado em game. Fred di Giacomo conta que, em meados de 2009, quando ainda trabalhava na Superinteressante , sua equipe cogitou criar um newsgame com o tema “gripe suína”, quando a epidemia atingia seu auge de infectados ao redor do mundo. Porém, segundo ele, a ideia “não teria dado certo”.
“Nem tudo dá pra virar newsgame. É um gênero jornalístico como qualquer outro, como uma crônica, um artigo etc. Então, você tem que achar o que se encaixa melhor nesse gênero. A história que você quer contar tem que ter esse potencial de interação que o game te oferece”, afirma o jornalista.
Crédito:Divulgação
Mitikazu Lisboa, da Hive, comenta potencial dos games na publicidade
Segundo Kenski, o uso de games como plataforma multimídia garante recursos únicos ao jornalismo, que outros gêneros não agregam. “É o único jeito de você transmitir a informação de um jeito tácito. Você não diz, não conta a história verbalmente, mas você obriga a pessoa a praticar aquela história. Você transmite o conteúdo por meio da experiência do usuário.”
“Esse nível de imersão, fazer o cara se sentir no ambiente, faz a resposta dele àquele conteúdo ser diferente. Fora o apelo que os games têm com pessoas que não gostam muito de ler, mas estão sempre interagindo com a tecnologia. Com os newsgames, você consegue alcançar essa galera que estava alheia à tudo isso”, continua o jornalista.
Jogos na publicidade
Não é só para o jornalismo que os games podem servir como plataforma de comunicação. Na publicidade, o uso de jogos eletrônicos já é bastante popular no Brasil e no mundo. Com os “advergames” – uma junção da palavra “game” com “advertising” (“propaganda”, em português) – as marcas que querem se promover podem encontrar nessa mídia elementos imprescindíveis para uma campanha de sucesso.
“Quando uma marca busca fazer um jogo, ela vai pensar ‘não vou fazer um site, porque se eu fizer um site, ele não vai ter retenção: as pessoas não vão voltar no dia seguinte porque acharam legal’. Ele não vai ter viralização: ninguém vai falar ‘nossa, entrei num site de uma marca tal, muito legal, entra lá’. E ele não vai ter engajamento, que é fazer o cara voltar todo dia, querer pagar por conteúdo, interagir no volume que a empresa quer. Então, normalmente, quando uma marca faz um jogo, ela está buscando essas três coisas: retenção, engajamento e viralização”, afirma Mitikazu Lisboa, CEO da Hive Digital, uma das principais desenvolvedoras de advergames no país.
Para o publicitário, porém, o uso de games como estratégia de marketing deve ser muito bem pensado para alcançar esses objetivos. Segundo ele, muitas empresas caem na armadilha de criar um “anúncio interativo”, e não um advergame de verdade. “A diferença entre um jogo para publicidade e um para entretenimento é que a mensagem da marca tem que ser passada. Mas as diferenças têm que acabar aí. Senão, o jogo não vai ter a eficiência e o sucesso que ele deveria ter”, pontua.
Um novo meio de comunicação?
Para Lisboa, não há dúvidas de que o game é um novo meio de comunicação. Ele lembra que, atualmente, não existe mais um público específico consumidor de jogos eletrônicos: “todo mundo é gamer”. “É difícil você achar uma pessoa que não jogue nada. Eu até brinco nas minhas palestras, eu digo ‘quem aqui é gamer?’. Aí, sei lá, 10% levantam a mão. Eu digo ‘esses 90% não jogam nada?’. Aí um monte de gente levanta a mão. Ficam umas dez pessoas com a mão abaixada, e eu digo ‘quando vocês estão numa fila, vocês não pegam o celular pra jogar?’. Aí todo mundo levanta a mão. Então, efetivamente, todo mundo joga.”
Para di Giacomo, games não são somente uma nova forma de comunicação, mas um novo meio de expressão artística. “Os jogos estão com o homem desde o princípio. Hoje mesmo, a indústria dos games é maior do que a do cinema, que anda em crise nos últimos anos com falta de criatividade, de histórias novas. Nos games isso não acontece, pelo contrário. [...] Eu acho que os games representam uma evolução na comunicação: primeiro ela era escrita e impressa, depois passou a ser multimídia, na TV e no rádio, depois na internet; e agora, ela se tornou interativa.”
Kenski finaliza dizendo que ainda falta muito para que os games sejam justamente reconhecidos como um novo meio de comunicação, mas lembra que essa é uma tendência forte para o futuro. “A questão é que, hoje em dia, grande parte do jornalismo é feito por pessoas que são de uma outra época, que não necessariamente cresceram jogando videogame. Existe um grande preconceito, uma falta de visão com relação ao potencial dessa mídia. [...] Quanto mais a gente conseguir criar histórias para newsgames com didatismo e precisão, mais esse gênero vai ser levado a sério”, conclui.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Crédito:Reprodução Primeiro newsgame da revista "Superinteressante
O alto nível de engajamento dos videogames chama tanto a atenção que a plataforma já é usada como ferramenta de ensino em diversas escolas, como a Quest to Learn, em Nova York. Até mesmo a Unaerp (Universidade de Medicina em Ribeirão Preto) já usou jogos eletrônicos em pesquisas contra o Mal de Parkinson. Não demoraria para que o universo da comunicação também reconhecesse o potencial da ferramenta.
No jornalismo, surgiram os newsgames. O termo, que significa “jogo de notícia”, numa tradução livre, surgiu em 2003, criado pelo designer uruguaio Gonzalo Frasca e pelo americano Ian Bogost. Trata-se de um estilo de jogo virtual que se baseia em fatos ou notícias reais para transmitir informação e divertir ao mesmo tempo.
Crédito:Arquivo pessoal
Fred di Giacomo vê os games como novo caminho para informação Os jornalistas Fred di Giacomo e Rafael Kenski são pioneiros do gênero no Brasil. Ex-colegas na Superinteressante , um dos primeiros newsgames brasileiros, publicado no site da revista, foi ideia deles. “ ” coloca o jogador na pele de um investigador criminal em busca de pistas para solucionar os mais intrincados mistérios.
“Quando a gente começou, nem sabíamos o que era um newsgame. Começamos a fazer porque éramos jornalistas que gostavam de games. Foi só quando o André Deak publicou uma resenha do nosso jogo do CSI no site dele, dizendo que a gente estava meio que inaugurando o gênero newsgame no Brasil, que a descobrimos que isso já existia lá fora”, conta di Giacomo, ex-editor da revista.
Desde então, a Superinteressante se tornou o principal veículo de newsgames no Brasil. Apesar de outros jornais e revistas terem reproduzido seus próprios jogos, como O Globo , O Estado de S. Paulo e o Grupo RBS, é na publicação da editora Abril que o gênero recebe maior destaque. Após sucessos como o “ ” e o “ ”, o último game publicado pela Super chama-se “ ”, lembrando os 50 anos do golpe militar.
Potencial multimídia
Games de sucesso obedecem a certos aspectos estruturais. De acordo com Kenski, assim como em um infográfico, o newsgame exige extremo rigor à informação, mas também deve ser divertido. Desse modo, nem todo tipo de conteúdo informativo pode ser transformado em game. Fred di Giacomo conta que, em meados de 2009, quando ainda trabalhava na Superinteressante , sua equipe cogitou criar um newsgame com o tema “gripe suína”, quando a epidemia atingia seu auge de infectados ao redor do mundo. Porém, segundo ele, a ideia “não teria dado certo”.
“Nem tudo dá pra virar newsgame. É um gênero jornalístico como qualquer outro, como uma crônica, um artigo etc. Então, você tem que achar o que se encaixa melhor nesse gênero. A história que você quer contar tem que ter esse potencial de interação que o game te oferece”, afirma o jornalista.
Crédito:Divulgação
Mitikazu Lisboa, da Hive, comenta potencial dos games na publicidade Segundo Kenski, o uso de games como plataforma multimídia garante recursos únicos ao jornalismo, que outros gêneros não agregam. “É o único jeito de você transmitir a informação de um jeito tácito. Você não diz, não conta a história verbalmente, mas você obriga a pessoa a praticar aquela história. Você transmite o conteúdo por meio da experiência do usuário.”
“Esse nível de imersão, fazer o cara se sentir no ambiente, faz a resposta dele àquele conteúdo ser diferente. Fora o apelo que os games têm com pessoas que não gostam muito de ler, mas estão sempre interagindo com a tecnologia. Com os newsgames, você consegue alcançar essa galera que estava alheia à tudo isso”, continua o jornalista.
Jogos na publicidade
Não é só para o jornalismo que os games podem servir como plataforma de comunicação. Na publicidade, o uso de jogos eletrônicos já é bastante popular no Brasil e no mundo. Com os “advergames” – uma junção da palavra “game” com “advertising” (“propaganda”, em português) – as marcas que querem se promover podem encontrar nessa mídia elementos imprescindíveis para uma campanha de sucesso.
“Quando uma marca busca fazer um jogo, ela vai pensar ‘não vou fazer um site, porque se eu fizer um site, ele não vai ter retenção: as pessoas não vão voltar no dia seguinte porque acharam legal’. Ele não vai ter viralização: ninguém vai falar ‘nossa, entrei num site de uma marca tal, muito legal, entra lá’. E ele não vai ter engajamento, que é fazer o cara voltar todo dia, querer pagar por conteúdo, interagir no volume que a empresa quer. Então, normalmente, quando uma marca faz um jogo, ela está buscando essas três coisas: retenção, engajamento e viralização”, afirma Mitikazu Lisboa, CEO da Hive Digital, uma das principais desenvolvedoras de advergames no país.
Para o publicitário, porém, o uso de games como estratégia de marketing deve ser muito bem pensado para alcançar esses objetivos. Segundo ele, muitas empresas caem na armadilha de criar um “anúncio interativo”, e não um advergame de verdade. “A diferença entre um jogo para publicidade e um para entretenimento é que a mensagem da marca tem que ser passada. Mas as diferenças têm que acabar aí. Senão, o jogo não vai ter a eficiência e o sucesso que ele deveria ter”, pontua.
Um novo meio de comunicação?
Para Lisboa, não há dúvidas de que o game é um novo meio de comunicação. Ele lembra que, atualmente, não existe mais um público específico consumidor de jogos eletrônicos: “todo mundo é gamer”. “É difícil você achar uma pessoa que não jogue nada. Eu até brinco nas minhas palestras, eu digo ‘quem aqui é gamer?’. Aí, sei lá, 10% levantam a mão. Eu digo ‘esses 90% não jogam nada?’. Aí um monte de gente levanta a mão. Ficam umas dez pessoas com a mão abaixada, e eu digo ‘quando vocês estão numa fila, vocês não pegam o celular pra jogar?’. Aí todo mundo levanta a mão. Então, efetivamente, todo mundo joga.”
Para di Giacomo, games não são somente uma nova forma de comunicação, mas um novo meio de expressão artística. “Os jogos estão com o homem desde o princípio. Hoje mesmo, a indústria dos games é maior do que a do cinema, que anda em crise nos últimos anos com falta de criatividade, de histórias novas. Nos games isso não acontece, pelo contrário. [...] Eu acho que os games representam uma evolução na comunicação: primeiro ela era escrita e impressa, depois passou a ser multimídia, na TV e no rádio, depois na internet; e agora, ela se tornou interativa.”
Kenski finaliza dizendo que ainda falta muito para que os games sejam justamente reconhecidos como um novo meio de comunicação, mas lembra que essa é uma tendência forte para o futuro. “A questão é que, hoje em dia, grande parte do jornalismo é feito por pessoas que são de uma outra época, que não necessariamente cresceram jogando videogame. Existe um grande preconceito, uma falta de visão com relação ao potencial dessa mídia. [...] Quanto mais a gente conseguir criar histórias para newsgames com didatismo e precisão, mais esse gênero vai ser levado a sério”, conclui.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





