Gabriel Priolli: O indiscutível em debate

“De onde tiraram a ideia de que todos os veículos de imprensa devem ser imparciais e neutros?”, pergunta a coleguinha Marion Strecker, correspondente da Folha de S.

Atualizado em 08/03/2013 às 15:03, por Gabriel Priolli.

de que todos os veículos de imprensa devem ser imparciais e neutros?”, pergunta a coleguinha Marion Strecker, correspondente da Folha de S.Paulo, num post do Facebook. “Isso vai contra a liberdade de imprensa, caramba! Além de ser ingenuidade acreditar no conceito de imparcialidade. E nenhum jornalista tem direito à ingenuidade.” Marcos Augusto Gonçalves, editorialista da mesma FSP, corrobora: “Eis que alguém pronuncia o óbvio”.
Eu vejo uma polêmica interessante começando e meto a minha colher: “Certo, Marion, mas a posição editorial do veículo informativo, não doutrinário, deveria ater-se às páginas de opinião. Quando se estende radicalmente à seleção de pautas, à angulação das matérias e à exclusão de fontes divergentes, fica difícil. Faz sentido pregar pluralismo quando isso acontece? O que é plural, nesse caso? O uso da letra S?”.
Meu ex-colega de TV Cultura, o designer e especialista em marketing Maurício Machado, entra na roda. “Pluralismo é a alma do negócio. A questão é que (os veículos) também não podem/devem ser partidos políticos, pois não têm votos, e nem oposição partidária, como sugeriu a ilustríssima presidente da ANJ, Judith Brito. Lembro: ‘Como a oposição não cumpre o seu papel, nós temos de fazê-lo’. Ou se produz informação plural ou que se assuma a militância.”
Marcos Augusto rebate meu comentário: “Gabriel, isso não existe. Sempre haverá angulação. E o pluralismo, ao menos na Folha, é mais do que uma palavra vazia. O jornal é a favor da livre iniciativa e da democracia liberal. Nunca escondeu isso. Publicou inúmeros projetos editoriais explicando sua posição”.
“O que falta no Brasil é uma boa imprensa de esquerda”, continua MAG. “Já que têm tanto talento e tanto poder (o PT está no planalto há dez anos), já deveriam ter feito. Eu morei na Itália, tem jornal de todas as tendências, partidos etc. Isso é democracia, e não uma imprensa inteira feita com a fórmula idealista da imparcialidade. Eu sou a favor de limitar poderes, de evitar oligopólios. Já o conteúdo é livre, e cabe ao debate público e ao consumidor se manifestar.” Estes são apenas os primeiros comentários ao post de Marion, publicado em 31 de janeiro deste ano. Dezenas de outros sucederam-se. Alguns sem noção, mas a maioria muito pertinente, o que permitiu uma troca de ideias riquíssima sobre problemas atuais da profissão. Quem leu pode atestar.
O que não entendo é que haja debate franco sobre a mídia nas redes sociais e nos veículos especializados, como IMPRENSA, mas jamais nos grandes jornais e revistas semanais – exceção feita a Carta Capital. É um tema tabu. Por quê? Até quando? E no interesse de quem? Respostas no Facebook, por favor. Carta à redação é perda de tempo.