Furo do Mês: A Folha tinha razão
Furo do Mês: A Folha tinha razão
Em março, a Folha de S.Paulo foi veementemente desmentida pelo Exército quando denunciou o acordo entre traficantes e militares, que levou à desocupação dos morros cariocas. Como não havia provas, apenas evidências e declarações em off , ficou o dito pelo não dito. No último dia 26 de julho, as provas apareceram em grande estilo, na capa da revista CartaCapital .
Maurício Dias, diretor-adjunto da CartaCapital : sua matéria calou os militares
A sexta-feira já estava chegando ao fim quando o jornalista Maurício Dias, diretor-adjunto da revista CartaCapital , recebeu uma misteriosa encomenda por Sedex em seu apartamento, no Rio de Janeiro. Não havia remetente na caixa, que continha um CD. "Fiquei receoso em colocá-lo no meu CPU. Podia ser um vírus. Mas fui em frente", conta o jornalista. Quatro semanas depois, Dias enviou para a redação a reportagem que ilustrou a capa da edição nº 403 de CartaCapital : "Exclusivo: o acordo secreto entre os militares e o tráfico. Gravações telefônicas revelam os fatos e os personagens das negociações para recuperar as armas do Exército roubadas no Rio de Janeiro em março".
O conteúdo do CD misterioso era uma série de diálogos comprometedores entre membros do alto escalão do Exército. As conversas tratavam abertamente do acordo feito entre militares e traficantes em março, quando as favelas cariocas foram invadidas por soldados em busca de fuzis roubados de um quartel por uma facção criminosa.
A edição do último mês de abril de IMPRENSA dedicou sua reportagem de capa aos bastidores dessa história. Na ocasião, o repórter da sucursal da Folha no Rio de Janeiro, Raphael Gomide, conseguiu furar o bloqueio do Exército junto à imprensa ao revelar, com exclusividade, que as armas roubadas não apareceram do nada. Nem foram encontradas por acaso. Houve um acerto. Antes da matéria ir para a gráfica, porém, um intenso debate interno foi travado no jornal. Gomide não tinha provas concretas, apenas declarações em off , fortes evidências e muita convicção do que estava dizendo. O jornal decidiu encampar a história, que foi veementemente negada pelo Exército e questionada por muitos colegas de outras redações. "A Folha errou", disse, na época, para IMPRENSA, o coronel Fernando da Graça Lemos, assessor de imprensa do Comando Militar do Leste. "A história dele ( Gomide ) circulou por aqui, mas não conseguimos confirmar", completou Antônio Werneck, de O Globo . "Na matéria, fiz justiça a ele, o único a seguir esse caminho. Raphael Gomide teve coragem, boas fontes e soube seguir as evidências. E o jornal fez muito bem em bancar a história", diz Maurício Dias. Já Gomide prefere não falar mais sobre esse assunto. Dias e Gomide representam gerações diferentes na cobertura dos militares. Eles sabem que assuntos ligados ao Exército nunca são pautas fáceis. Soldados não gostam de falar com repórteres. "Muitas vezes, o Exército usa a simpatia com a gente, achando que é o suficiente. Só que não é. Nós precisamos de informação", desabafa Dias. Que a tabelinha Gomide - Dias sirva de lição. Perdigueiros não se contentam com releases .






